
Raduan, volta: a literatura virou um trem esquisito
Esta é uma carta aberta que descelebra os 29 anos que cê não publica nada.
Crônicas sobre a micropolítica do cotidiano e os bastidores de um romance em construção.
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Esta é uma carta aberta que descelebra os 29 anos que cê não publica nada.

ou como fingir uma turnê de lançamento?

A coisa fica vazia, Que coisa?

Pruma criança crescendo numa casa de crente em 1990, a televisão era um portal pro inferno com boca-livre de garfada na bunda.

Ademar gosta de ler o jornal que usa pra embrulhar as cascas de banana e os ossos do frango.

[video no youtube shorts]

Você tá numa festa onde a música nunca para, a bebida tá sempre gelada, muita bebida, tem alguém gritando coisas aleatórias o tempo todo, o volume da música tá no volume máximo.

A porta de vidro do Café não tem maçaneta, nem nada escrito, só um pequeno adesivo em forma de puxador, a silhueta de puxador antigo.

A uberização chegou ao Brasil em 2014 no Rio de Janeiro, época em que dava pra fazer turnês pelo país tocando em casas de coletivos e centros culturais tocando música experimental tendo na mala alguns objetos sonoros, uns controladores midi e um laptop.

Cê se depara com certar obras cujos parágrafos são tão lindos, tão bem calibrados que a única reação, além da inveja, é a certeza de que ocê enquanto pessoa que escreve um romance próprio, não passa de uma mentirosa, uma amadora operando ferramentas de brinquedo num canteiro de obras, “

A verdade, verdadeira mesmo, é que o fim de semana me levou prum canto que devora as intenções pré-combinadas.
Café e fones de ouvido: no próximo domingo, às 09:00, começamos uma nova fase aqui no Entre o olhar e o gesto.

essa coisa vasta, amorfa e vagamente sagrada que as pessoas tendem a discutir com aquele tom de voz sussurrado e reverente que reservamos para velórios ou para a seção de vinhos caros do Carrefour, a cultura gosta de se vender como o oposto polar da política e da economia.

Oi.

Escrito encontrado numa carteira da Company na rua da Bahia em Belo Horizonte.

Aquele momento, terrível e doméstico, tempo recortado sem relógio, em que ela com as duas mãos na pia, na pausa da louça ensaboada e com a bucha verde e amarela pingando detergente ypê deixa um fiozim de baba escorrer da boca.

De dentro do Uber o batuque dos dedos no volante acompanha a rádio Nova Brasil, já tinha dito aquela frase antes: “hoje ninguém vai estragar meu dia”.

um texto-colagem baseado nos livros Derrubar Árvores de Thomas Bernhard e O Matador de Patrícia Melo dito no programa Provocações por Antônio Abujamra e transcrito por mim em 2010.

Quando Antônio Pinto convidou a Janga pra criação da trilha sonora de Malês de Antônio Pitanga, tinha em mente uma paleta sonora que trouxesse como tônica percussão e voz, o primeiro nome que me veio foi o de Sérgio Pererê.

Numa época em que o termo tempo livre, e a gente sabe que, na verdade, não há nada de livre nele, né não?, virou uma das mercadorias mais cobiçadas e raras, a pergunta que faço é: quando foi a última vez que você se pegou num hiato, essa palavra é boa pra caramba, de pura, abjeta inação, sem qualquer distração, e, num momento de estalo meio doído, foi forçado a contemplar o ócio?