Esta é uma carta aberta que descelebra os 29 anos que cê não publica nada. Não sei se tem acompanhado o mundo aqui fora, mas ele agora é barulhento, fútil e plano. Enquanto cê fica aí na lida com a terra, parte da escrita que sobrou aqui virou um experimento de exibicionismo de jovens tristes em apartamentos caros. Uma amiga diz que "a literatura é a única coisa que nos permite olhar através da névoa do nosso próprio egoísmo e sentir a verdadeira e dolorosa substância de outro serumaninho". O senhor sabe que fez isso, né?. O senhor escreveu coisas que pareciam rasgar a linguagem até expor a carne viva, incômoda e sagrada por baixo dela. Só que depois ocê parou. Do ponto de vista da sua saúde mental foi uma decisão que eu até invejo, mas o problema é o que aconteceu na sua ausência. O espaço que deixou foi ocupado por pessoas cuja relação com a escrita é apenas comercial, terapêutica e performática, essa última palavra tá na moda atualmente.
Agora a gente faz uma literatura que vem do descarte, da sobra de ansiedade, de executivos de publicidade. Publicitários lançando romances de formação com perfume de detergente Ypê. Madames de Higienópolis publicando seus diários com cuidados médicos e chorando por conta de ghosting no Whatsapp. Ghosting é o que antes a gente falava "ficar no vácuo", pelo menos lá em Contagem era assim. Perseguem premiações a todo custo, como se escrever fosse apostar corrida. Viraram celebridades de pequenos nichos, brincam com a ideia de que são poderosos e mais ainda de que alguém de fato lê e compreende o que escrevem nesse país. Levam a conversa do buteco pra mesa da Flip, lembra da Flip?
Fui duas vezes naquela festa, aquele parque de diversões pro ego. É leitor que faz foto segurando o livro numa rua de pedra pra provar pro Instagram que é profundo. Autor que bate retrato no palco pra mostrar pra editora que tem alcance. É, rapaz. Os livros virara, cartões de visita, Raduan. Tô te falando, esses livros são diários maquiados com a premissa de que a vida da pessoa que escreveu é interessantíssima porque é a vida dela. A (pessoa) escritora moderna decidiu que o assunto mais urgente é a sua própria neurose elegante num café da manhã na Vila Madalena. A tecnologia nos permite conexões com o planeta e a literatura se recolhe ao micro do próprio umbigo. É o jogo. Mas desconfio que essa turma sabe que a festa é falsa, que a foto do Instagram é fútil e que a sua autoficção é narcisista, mas é o jogo, usam essa própria consciência pra se absolver de mudar. Essa minha escrita aqui também não foge disso: ai, vou fazer um post polêmico, provocando a Flip, sobre como criar dói e todos vão me ver como um artista de verdade. É isso, a invenção virou um panfleto do Habib 's com direito a reclamar do preço da kombucha, que eu também não sei o que é, e transformar a própria terapia em capítulo, o sofrimento existencial em mero conteúdo pras redes sociais.
Nem vou me estender muito sobre redes sociais, é capaz deu começar a chorar aqui, mas sinto a obrigação de te atualizar sobre uma certa plataforma chamada Substack. Uma lástima de proporções bíblicas. É uma praça pública digital onde escritores, ex-escritores e pessoas que meramente gostam da ideia de serem percebidas como escritoras de vez em quando, que é o meu caso, pagam um dízimo emocional por uma infraestrutura dos próprios egos em perfeito estado de funcionamento e manutenção. Repara que eu tô escrevendo essa carta no próprio Substack. É aquele paradoxo da pessoa que odeia um trem do qual depende pra validação, publicando uma denúncia contra o exibicionismo do ego num boletim cujo único objetivo é distribuir meu próprio ego pro e-mail dos outros. Misericórdia.
A coisa tá tão grave, Raduan, tão ruim que até eu publiquei um livro. Imagina, um músico de Contagem que nem terminou o ensino médio se meteu a escrever e publicar um romance, socorro homem. Isso aqui tá um marasmo danado de afetos rasos. Tudo muito calculado, limpinho e instagramável. (pergunta pra alguém o que é isso) Sei que exigir que o senhor volte a escrever pra salvar a literatura é uma atitude bastante infantil, machista e arrogante da minha parte. Mas continuar fingindo que essa feira de neurose de classe média alta equivale a algum tipo de busca pela verdade, tá fácil não, viu?
Volta, Raduan. Salva a gente desse tédio antes que eu comece a fazer skin care com a lombada do Lavoura.
Com urgência, vergonha e muita admiração,
Barulhista.
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