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Entre o olhar e o gesto · Jul 7, 2026

ficção sem título - versão 7 de julho de 2026

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A coisa fica vazia, Que coisa?

A coisa fica vazia, Que coisa? Esse troço que cê tá na mão. A bóia. Isso. Fica não, se lá no meio a gente ver que tá esvaziano, a gente vai pra beira. Isso não vai dar certo. Claro que vai, os cara faz isso direto. Ques cara? Os cara da vila. A gente não é da vila. Fodas. Vai dá polícia. Vai dá reportagem, Globo e tudo mais. Sua mãe vê jornal? Vê só o do meio-dia. A minha também. Mas meu pai gravou o Fantástico da semana passada. A gente podia passar no Fantástico né? Cê viu a menina na Pampulha? Foi isso que meu pai gravou, uai. Porque a muié jogou a neném? Sei lá, acho que foi desespero de não ter dinheiro. Vai ver ela queria passar no Fantástico. Que viagem. Mas se fosse só dinheiro meu pai já tinha jogado a família inteira na lagoa. Sai fora, cês tão passando fome? Eu não, minha mâe que fala que a gente tá na merda. Na merda a gente vai tá daqui a pouco. Pior. Veio as máscara? Aqui. Vamos passa álcool? Álcool não veio. Puta merda, não vou entrar no Arruda sem álcool. Eu trouxe pinga.

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Dois anos antes:

O quarto no segundo andar, a rua Cubatão vazia e o nome gritado a noite toda. Como era mesmo a canção?

Vamos dar as mãos, um, dois, três. Quem errar o passo perder a vez, quero ouvir todos cantando e quem desafinar cante outra vez.

Festa junina do Sesi em 1994, sábado. Ginásio poliesportivo ao lado da piscina, barraquinhas, bandeirinhas, não preciso explicar como é uma festa junina de escola. Na última folha do caderno de matemática, depois do nome do professor Mauro de história, uma lista: Zombie - The Cranberries, Black hole sun - Soundgarden, Basket case - Green Day, Self esteen - Offspring.

Durante a quadrilha ele encontrou Flávio no fundo do ginásio, Gudang Garam na orelha. Quer ajuda aíí? Tem abridor? Claro que tenho, Cortezano? Bebida de boy. Seu cú. Sentados na tábua corrida, pés na rede de vôlei embolada pelo professor Sérgio. Seis goles depois tavam pulando o muro, subindo a Corcovado. Tem certeza que é hoje? Claro. Mas quem faz uma festa no mesmo dia da quadrilha? 15 anos, cara, é importante pras menina. Cê conhece ela? Eu já vi ela na padaria, mas nunca disse nem oi. Fodas. Vamos entrar dizendo que cê é da sala dela. Eu? É uai. Eu sou da sala do Flávim e ele deve tá lá. Fodas, vamos entrar. Da esquina da Corcovado com a Itambé já dava pra escutar Voodoo People do Prodigy tocando no som do pai da Gabi.

Entraram dançando, ninguém precisou ser da sala de ninguém, foram recebidos com abraços pela dona da casa. Pessoal tá lá no fundo, vai lá gente. Onde que é? Subindo a escada da garagem. Do lado da churrasqueira: Virgínia, mais quieta pelo pai ter morrido recente de camisa rosa e cabelo com tranças. Déia dançando como se o chão não fosse de cimento de shortinho jeans e camisa xadrez. Laís sentada na mesa de blusa amarela e cabelo curtinho meio de lado. Samara, irmã mais velha de Laís, fumando um Gudang de camisa vermelha e calça de Napa preta e a única que realmente era da sala deles.

Como tava lá na escola, gente? Tava uma bosta. A gente trouxe Cortezano. Bebida de boy, hein? É, uai. Seis goles depois ele dançava atrás da dona da casa, se esfregando todo na bunda dela. O irmão mais velho perguntou da Gabi perguntou se ele queria apanhar na acara ou ia para de graça. Ele fez que não ouviu, mas parou de graça. Seis goles depois perguntou se alguém tinha levado o violão. Berrou Rape me do Nirvana. Seis goles depois mijou na calça e exibiu o feito pro tio da Gabi, em seguida vomitou quase no pé da Laís.

Dá um banho nesse moleque. Leva ele pro chuveiro, Gabi. Eu? Nem conheço esse menino direito, vi ele na padaria só. Laís e Samara entraram no box espremendo a cabeça dele no vidro e a água fria deu pouco resultado. Dá isso aqui pra ele. Que que é isso? Pepsi com açúcar. Ele foi voltando aos poucos, viu Laís encostada na pia, uma luz bonita no fundo, olhando pra ele e sorrindo com a língua entre os dentes da frente. Cara, cê é uma figurinha, hein? Quando saíram do banheiro, Nilo tava tocando Drain you no quintal. Seis goles depois, mas agora da Pepsi adoçada, ele perguntou se Laís tinha namorado. Tenho não, cê tem? Inventou que tinha terminado no início do ano e que ia dar um tempo sozinho, aos 14 anos, sei. Mas agora que tinha sido cuidado e olhado por ela… Que papinho hein figurinha? Que nada, a gente devia pelo menos ficar, a gente se parece. Cara, se ocê não tivesse tão doidão até pensaria no seu caso. Semana que vem tem o Festival da Juventude lá na igreja redonda, se não beber tanto igual hoje, quem sabe, achei legal seu tênis, um cadarço de cada cor.

Nilo devia ter tocado Garotos do Leoni, mas o violão tava na mão do tio, aquele que teve que olhar a calça mijada e que levou a pepsi adoçada, e a mão do tio tocava Boate Azul. Eu vou no festival. Então a gente conversa lá. Na escola antes, não? Pode ser, tenho que ir pra casa, Samara tem natação amanhã.

Ele sentiu um impulso terrível pra levantar a mão e acenar, mas ficou quieto, observando a blusa amarela e o cabelo curto desaparecer na fumaça do Gudang de Flávio. Desceu a rua cantando, vamos dar as mãos, um, dois, três. A gente sabe como é uma delícia ser correspondido, penso que a gente sabe, pode ter gente que não sabe, ele ficou sabendo aos 14 anos. Abraçou o poste, beijou o orelhão da farmácia do Cláudio. Nunca tinha chegado em casa tão fedorento, mijo, álcool e Pepsi adoçada.

Domingo foi um dia de cores vivas, ressaca e alegria, mesmo no cinza de junho. Tinha certeza que Samara apoiaria, já tinha dado até banho nele, porra. Não parava de imaginar andar de mãos dadas com Laís no recreio. Levantar quando o sinal soasse e dizer pro Flávio que ia ali buscar a Rapunzel de cabelo curto da sétima B.

Segunda-feira, como qualquer garoto apaixonado em 1994, fez o ritual do gel no cabelo, uniforme cheirando a Confort, calça jeans rasgada no joelho, mas limpa, e a corrente pendurada na calça, imitando o vocalista do Green Day no clipe de When I come around. Não pode ficar indisposto com o primeiro horário de física com a Odette Satanás, mesmo olhando pro lado e ver a Letícia suspirar de tédio. Teve briga no recreio, Marlon e Caio, que nunca se ficaram, tavam no chão por causa que um chutou a coxinha do outro. Ele não viu a briga, tava fumando seu primeiro Gudang atrás da mesa de ping pong com Flávio e Samara. Cadê a Laís? Tá na excursão no Senai, volta no último horário. E ela te disse alguma coisa? De que? De mim, uai. Disse que morre de rir docê. Ah só. Flávio deu uma aliviada dizendo que rir é bom e que a banda do irmão mais velho ia tocar no festival. Ah só.

A fumaça do Gudang se misturou com a fumaça dos caminhões atrás do muro, era um bairro industrial, poucas casas e muitos galpões, um complexo de galpões ainda maior tava em construção e os caminhões da terraplanagem aceleravam em volta da escola o dia todo. Todas as manhãs se ouvia caminhões carregados de terra, subiam a rua da escola tão devagarinho que não demorou virar costume a turma do bairro voltar pra casa de carona nas carrocerias. Os motoristas não se importavam, alguns diminuíam a marcha pra abastecer a terra da molecada.

Último horário vago, professora doente, turma liberada 45 minutos mais cedo. Richard disse que tá com os vales da mãe e vai bancar Baré pra todo mundo. Seis goles depois tava ele subindo a mesma Corcovado pensando na Laís, primeira vez que ficava triste de ter saído mais cedo, arrotando o gás do refrigerante. Cheguei mãe. Menino, a mãe do Flávio ligou agorinha. Ah só. Parece que alguém caiu dum caminhão. Mas porque que ela ligou? Pra saber se o Flávio tava concê, ele não chegou em casa ainda. A gente tava com o Richard lá na padaria de cima. O trem parece sério, ela tava com uma voz tremida. Estranho, os cara deixa a gente subir, mãe, tem erro não, sobe igual uma lesma, é só descer antes da praça Itajaí, naquele pedacinho que divide a Rio Comprido, sabe? Sei. Ainda tava passando Capitão Planeta quando o almoço ficou pronto.

Terça-feira. Protesto na porta da escola, cartazes pedindo quebra-molas na praça Itajaí. Flávio caçou com os olhos, chegou perto e perguntou se já tava sabendo da notícia. Tô ligado que um burro caiu dum caminhão, sua mãe pensou que tinha sido ocê né? Foi a Laís , cara, ela morreu. Seu cú. Cê tá vendo a Samara aqui? Tá vendo a camisa da Camila com aquelas quatro letras gigantes?

Levantou e saiu andando de volta pra casa. Não disse uma palavra. Fez o mesmo caminho que imaginou que o caminhão tinha feito com ela na carroceria. Será que tinha subido sozinha? Nem era o caminho da casa dela. Passos lentos, raspando as costas dos dedos no muro do Senai, som de folha seca no Bamba preto. No primeiro sinal de lágrima achou melhor não subir a Rio Comprido. Não tinha escolha, se voltasse pela Corcovado tinha a lembrança da festa da Gabi, se seguisse tinha a última paisagem vista por Laís.

O Luiz Tatit diz que sempre que alguém daqui vai embora, dói bastante, mas depois melhora. E com o tempo vira um sentimento que nem sempre aflora, mas que fica na memória.

Ele seguiu pela praça, viu a marca de sangue lavada pela Dona Antônia. Desdobrou a calça, olhou pro Bamba com um cadarço preto e outro rosa, imaginou pisar no pé dela dançando a música da banda do irmão do Flávio. Nunca mais bebeu Cortezano e nem Pepsi com açúcar, mas ainda tocou muitas vezes Rape me do Nirvana nessa mesma praça Itajaí. A família tirou Samara da escola, Odette Satanás não deu aula no terceiro horário da quarta, Flávio nunca mais disse o nome das duas, mas continuou com o Gudang aceso. Os caminhões continuaram a subir, agora mais devagar por conta dos quebra-molas. Ele sabia sempre quando cortar caminho pela Corcovado. Fazia de conta que tinha ficado com ela e que montaram uma banda cover de Green Day, guardava o máximo de lembranças desse futuro inventado. Fechava os olhos e respirava fundo toda vez que o carro do pai passava naquele pedacinho que divide a Rio Comprido, sabe?

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