Cê se depara com certar obras cujos parágrafos são tão lindos, tão bem calibrados que a única reação, além da inveja, é a certeza de que ocê enquanto pessoa que escreve um romance próprio, não passa de uma mentirosa, uma amadora operando ferramentas de brinquedo num canteiro de obras, “cultura livre por bala desejo”.
Daí cê encontra outros livros tão desprovidos de nem sei o quê, tão desastrosos e inertes que ocorre uma violenta esperança. Cê percebe que, o filtro editorial da indústria é uma membrana porosa e aleatória. Se aquilo foi considerado digno de encadernação e distribuição, então a alfabetização básica virou opcional. Passa da vergonha pro otimismo, convencida de que o ato de publicar é um direito a qualquer um que tem um polegar opositor e uma conexão Wi-Fi.
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((alerta de conteúdo sensível))
27 de março de 2026 - 23:48 - estava na cama rolando videos pelo youtube, até que apareceu uma transmissão ao vivo desse sujeito que me pareceu um bom personagem para o Pistico desde que o vi. Depois de alguns segundos minha atenção foi pro seu discurso e da audiência. (usar parte do discurso nas falas de Pistico) Este vídeo foi feito com o celular filmando a tela de um tablet. O tempo todo a audiência se refere às mulheres como Toscanildas; usar o termo no livro. Usar o termo G.I. Joe.
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Neusa não conheceu sua mãe biológica, mas quem a conheceu diz que ela tem o cabelo dela, o resto do corpo, o rosto, não, deve ser do pai.
Neusa num estado de vigilância constante sobre os seus próprios tecidos, impulsionada por relatos de terceiros. Dizem, com autoridade casual e cruel, que o seu cabelo é uma réplica exata do da falecida genitora. (ruim isso, credo)
Pai, essa figura que atua como o repositório padrão para todas as características físicas que não encontram um lar na memória da linhagem feminina. (pior ainda)
Ele tinha prometido ir ao grupo da fumaça, e já se via de longe que eles estavam fumando. Ele desistiu duas vezes no meio do caminho, usando o capuz do blusa de frio como disfarce, e ficou com medo de ser pego pela supervisão da escola e ouviu a voz da mãe dizendo, eu te criei com tanto carinho, ficamos tão felizes por você ter entrado no Sesi e agora é assim que você retribui? Causando vergonha pra nossa família? Que tristeza Eric. Era uma secretária eletrônica com voz de mãe ecoando na mente a cada passo que se aproximava do grupo, não podia deixar mensagem, apenas ouvir o recado, que tristeza Eric. Depois das mesas de ping-pong, perto da horta, 15h30 início do recreio. João, Ricardo e a Lorena da mesa sala de Eric, oitava A, os outros, uma garota e um garoto da sétima B. João colocou a carta de volta no baralho, Eriquinho, nariz de bolinho. Acenou sem graça e sorriu, era o que sempre acontecia quando ouvia essa bobagem. Ricardo passou o cigarro para Lorena, que perguntou se ele queria um trago. Quero uai. Já tinha fumado as bitucas que o pai jogava na laje de casa, eram de Hollywood vermelho, empinava pipa antes do almoço pensou ser uma bombinha, era um resto de cigarro. Pôs na boa e soltou pipa e fumaça pelo canto da boca. Lorena puxou bastante fumaça, encostou a boca na boca dele e soprou devagar. Gudang Garam, cravo da indonésia, custava trinta reais o maço. Um cigarro por recreio, cada cigarro picado custava cinco reais e o valor era dividido entre o grupo. Um quase beijo, não o primeiro, já havia beijado duas vezes aos treze anos.
Festa da Lucimara que morava seis casas subindo a rua Cubatão, portão da garagem aberto tocando Sheryl Crow (All I wanna do), Vidigal, Rodrigo e Qualhada fazendo um passinho ensaiado, mais gente chegava, mais passinho, refrigerante e coxinha na mesma temperatura. Momentos assim: vestido jeans na Adriana, não preciso dizer que era a paixão pré-adolescente de Eric, calça jeans de Lucimara, preciso dizer que Eric era a paixão dela. Ele tinha se comportado bem nem aí com o fato de que sua paixão, versão miniatura da Mara Maravilha, estava ali dançando Cantaloop e sabia que a versão miniatura da Elke Maravilha nutria uma paixão por ele. Ele disse que conhecia um cara que pixava NEM no Santa Cruz e que esse cara fumava maconha, em 1994 quase ninguém fumava maconha aos treze anos, talvez o cara que pixava NEM tivesse mais de treze. Lucimara ouvia essas palavras com um sorriso de treze, tinha lábio leporino e dizem que beijava seu poodle de língua. Adriana tá querendo conversar com você lá na laje. Uma notícia dessa vindo da Lucimara. Nem sabia que sua casa tinha laje. Te levo lá. Aí foi acompanhado pela miniatura da Elke para o encontro com a miniatura da Mara. Ele estava entre o muro de tijolos e a escada de madeira, eu subo na frente pra te mostrar onde pisar, quase toda casa tinha uma laje com uma escada Ele disse Ele tinha prometido ir ao grupo da fumaça, e já se via de longe que eles estavam... - 26/05/20 13:44 / que achava que os pais dela podiam achar ruim ele subir na laje com duas garotas, não sei bem se realmente estava com medo dos pais dela ou era uma estratégia para ficar sozinho na laje com Adriana. Cada degrau diminuía o volume da música, podia ser The Cramberries (Linger), mas era Culture Beat (Mr. Vain), passinhos pegando fogo. No caso de uma cena de cinema eu colocaria um drone seguindo os passos de Lucimara, subindo a escada de construção, seguida por Eric em câmera super lenta enquanto tocaria bem alto Ini Kamoze (Here comes the hotstepper), americano demais talvez. Adriana encostada no suporte da antena de tv levantou a sobrancelha esquerda e com a mão direita colocou o cabelo atrás da orelha. Piso de cimento, ele tinha essa mania de olhar para tudo em volta das pessoas. Talvez fosse para ter certeza de que não era uma armadilha de algum amigo, estava ficando angustiado por isso, podia dizer pra eles que era uma péssima ideia essa, duas garotas e ele na laje. Adriana deu apenas um passo e um beijo, a gente nunca vai saber se foi demorado ou se teve língua, o fato é que assim que o beijo acabou Lucimara deu dois passos e um beijo, esse sim longo e com língua. Eu teria pensado no poodle, mas ele já estava feliz demais em ter ganhado dois beijos na festa. Elas desceram, ele ficou mais uns vinte minutos e chegou na garagem dançando, tocava Whigfield (Saturday night). Passei o mês de junho inteiro catando restos de cigarro no canto da avenida, por sorte em Contagem o povo fuma bastante. Era metido, escolhia as bitucas: San Marino e Derby não! Marlboro, humm. Era um tipo de forma animal. Como se numa disfarçada fome por cigarro criada para me mostrar para mim mesmo. Os vizinhos estão olhando, interessados em me ver abaixado mostrando os boletos pendurados. Missão cumprida, trinta e seis bitucas de Marlboro, Free, Hollywood e Carlton. Coração cheio de vergonha, autoconhecimento demora. Separei o fumo em cima do violão, restavam as quatro cordas de cima, esqueci os nomes delas, sei que a primeira é mi e a segunda é lá, das outras não me lembro. Mas lembro de como afinar. Passamos metade da vida afinando o violão e a outra metade tocando desafinado. Viola-banguela. Folha de caderno Tilibra recortada em delicado retângulo. Seis lindos cigarros enrolados em saliva e desamparo - escuridão confiável e cabeça inclinada na beira do fogão. Na incapacidade de preencher o vazio da vida, enchia o pulmão de fumaça quente. O evento da orfandade dominante.
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Por enquanto, são essas as anotações na minha mesa. O caderno é um esforço de presença e continua aberto e, na próxima semana, espero trazer os desdobramentos desses rascunhos. Uma tentativa de não deixar o livro ser apenas uma ideia na minha cabeça. Caso alguma coisa aqui ressoou nas suas próprias leituras ou inquietações, adoraria saber nos comentários.
inté o próximo fragmento.
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