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Entre o olhar e o gesto · Sep 30, 2025

Sobre a voz de Sérgio Pererê no filme Malês de Antonio Pitanga

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Barulhista · Entre o olhar e o gesto

Quando Antônio Pinto convidou a Janga pra criação da trilha sonora de Malês de Antônio Pitanga, tinha em mente uma paleta sonora que trouxesse como tônica percussão e voz, o primeiro nome que me veio foi o de Sérgio Pererê.

Uma semana de gravações de improvisos, vocalizações e principalmente de muita conversa, sobre o roteiro e as possibilidades de sonorizar a psique das personagens sem ainda ter visto muitas cenas filmadas. Criamos um baú de timbres, frases melódicas, texturas e ruídos. Improvisos ligados ao plano emocional, circulares, e ao cotidiano granulado da Bahia em 1835. História abrigando derbake, kora, alaúde e voz. A música, arte que menos paga tributo à matéria, tava ali, atravessando nossas pálpebras e impressa na luz da tela.

“Tô aqui pensando o que cê vai fazer com isso depois.”
Me disse no fim do último dia de gravação. Respondi que o filme seria pintado com as tintas que havíamos criado e que se faltasse alguma cor, chamaria ele de novo. Dias depois, durante o processo de composição junto as cenas, a possibilidade de acumular sons tinha se tornado um terreno movediço.

Fui descobrindo que cada trecho que gravamos ia tomando o espaço da tela sob a forma de um pântano sonoro e negro pronto pra engolir o espectador a cada curva de imagem.
“Fizemos na Janga um abraço com a sua voz”.

https://youtube.com/shorts/DLkmfS8RMXU?si=S4auu9V3qbKYplRK

Como é tentador enumerar substantivos ao falar do processo de gravação com Sérgio Pererê: orixákra, medusamba. A trilha sonora de Malês é um experimento analógico e desprogramado, um tipo de tecnologia antiga, de entender e sentir, a delicadeza de um encontro jamais será substituída.

Num momento em que as ferramentas assumem cada vez mais uma dimensão corporativa, o canto puro, sem grande acompanhamento, é um alívio ao pensamento crítico. Enquanto a música brasileira atual projeta uma estética apta a nos colocar no mapa, a presença de Pererê e da Janga manifesta o impulso oposto, o de rasgar o mapa e caminhar já levando o tesouro nas mãos.

- Barulhista, setembro de 2025

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