Numa época em que o termo tempo livre, e a gente sabe que, na verdade, não há nada de livre nele, né não?, virou uma das mercadorias mais cobiçadas e raras, a pergunta que faço é: quando foi a última vez que você se pegou num hiato, essa palavra é boa pra caramba, de pura, abjeta inação, sem qualquer distração, e, num momento de estalo meio doído, foi forçado a contemplar o ócio?
Esses intervalinhos entre a ação e a próxima ação tinham o mesmo recheio do pastel de vento que minha mão ainda faz, por uma vaga olhada pro chão ou aquela suspirada na fila do ônibus. E isso tudo sumiu por conta desse pedaço de vidro brilhante que carregamos no bolso, com o seu brilho hipnótico, nos oferece um fluxo interminável de estímulos, de distração, de informação (se é que se pode chamar assim) para garantir que a mente, o cérebro, a consciência jamais seja confrontada com o tédio existencial de estar simplesmente ali.
Contagem, bairro Monte Castelo, 1994
É isso que me causava tédio, ninguém tinha disponibilidade pra um tempo, um tempo que podia ser usado, a gente pensando em tempo como algo utilitário, uma coisa, uma toalha molhada que depois de deixada na cadeira numa tarde quente poderia secar uma última vez antes de ser lavada. Lá fora usavam o tempo para ter prazer, um passatempo infinito, olha que palavra mais idiota, passatempo, uma homenagem a desatenção, ainda que o passatempo tenha um disfarce inteligente. Sinto falta de um tédio gostoso, um tédio devagar, que escorregava pra tristeza da falta de ação, Nilo diria que só faltava mesmo acabar com o desejo, mas a gente sabia que esse não acabava e não acaba. Lambia o tédio, passava na cara e dizia que amava, chupava com melancolia tudo que esse estado me entregava. O que eu podia fazer naquele momento? Qual troca? Com quem? Eu escrevia e lia as coisas que meus amigos do Quarto escreviam e depois passava a limpo nas paredes, engraçado pensar em passar a limpo uma coisa sujando outra. Foi nesse mesmo dia que apareceu um tucano na casa dos meus pais, um tucano adulto, daqueles grandões, fiquei pensando: um tucano não pensa no tempo como algo utilitário, ele precisa do tempo pra poder criar. Doidadas.
São Paulo, bairro Campos Elíseos, 2025
No livro do Michael Harris, que durante um tempo eu pensei ser irmão do Thomas Harris do Silêncio dos inocentes, ele diz que: a última geração que ainda se lembra de um mundo pré-digital, onde a espera era, por definição, uma experiência off-line e o tempo morto era, ah, era morto, essa geração tá desaparecendo. Em quarenta ou cinquenta anos, as últimas testemunhas oculares, os últimos portadores da memória de como era a vida antes de ser mediada por uma tela, vai ter morrido. E junto com eles vai morrer também as experiências pessoais que dão peso e significado a essa diferença. E o que que vai sobrar? Adoro um drama assim. Uai, uma humanidade que não tem referencial, que nunca conheceu a pausa, que considera a distração constante como a sua condição natural. E, nesse mundo, a própria ideia de contemplar o ócio não será apenas rara, mas incompreensível. O livro do Michael Harris se chama O fim da ausência (The end of absence), não tem em português, tô traduzindo na unha que nem um monge, só que com esmalte vermelho pois tenho o Google Translator.
Pra piorar mais um bocadim eu acabei de assistir, aproveitando a folga que eu inventei de ter hoje pra escrever isso aqui e mais 1700 palavras no meu romance, o documentário Como a revolução digital tá matando os livros no youtube, também com uma legenda meio precária, mas a gente tem casca é pra isso mesmo né não?
O documentário é tipo uma genealogia. melhor, uma necrópsia do livro, esse venerável objeto de papel e tinta. Uma necrópsia que nos leva desde os pergaminhos do passado até o códex, na sua simplicidade incrível, permitiu a consulta aleatória, o folhear das páginas, a revolução do acesso instantâneo e, não menos importante, à prensa de tipos móveis, essa tecnologia que democratizou o que, por séculos, foi a prerrogativa de poucos. O cerne do trem é que por quinhentos anos o livro foi o centro de nossa órbita cultural. O ponto. Até que, do nada, ou, para ser técnico, em 2005, o marco zero para a nossa decadência, algo se quebrou. Foi nesse ano que as estatísticas mostram que os adolescentes, nossos invasores bárbaros, começaram a consumir mais silício do que celulose, mais telas menos páginas, mais internet menos biblioteca pública. Fico matutano aqui se essa nova forma de consumo não nos forçou a uma leitura de superfície, um voo rasante sobre um oceano de dados, sem nunca ter o ímpeto, a paciência ou, campanha da igreja universal do reino de deus do papel, a capacidade de mergulhar fundo.
Aqui eu vou copiar um trecho de uma reportagem sobre a agonia das editoras, mas vou improvisar no meio, daí nem vou citar a fonte nem nada. A indústria editorial, tadinha, a cada balanço financeiro, a cada anúncio de falência de uma livraria independente, tá no meio de uma revolução que ela não iniciou e que ela não controla. Dum lado, temos o kindle (and it seems to me you lived your life like a Kindle in the wind, desculpa Elton), essa entidade etérea e sem peso, que oferece uma produção rápida e barata, um golpe fatal para o modelo de negócios de séculos. De outro, o advento da autopublicação, a ideia de que qualquer um com um teclado e uma conta pode se autoproclamar autor, diluindo o que antes era um filtro, a curadoria editorial, numa torrente caótica de conteúdo. E as livrarias? E as bibliotecas? As livrarias, que me lembro eram templos do conhecimento, hoje forçadas a competir com a eficiência gelada da Amazon e a se reinventar como espaços sociais, cafés, lugares de encontro, eventos literários, qualquer coisa para justificar a sua existência física num mundo que se move inteiro para o digital.
E, pra mim, e o que é, afinal, uma publicação no substack se não for pessoal, ou se não bater em ninguém, se não for temperada pela nossa suposta bagagem existencial, a preocupação não é com a morte do livro. Umberto Eco já disse que o trem não morre, e eu confio no moço de chapéuzim caro. É com a morte da capacidade de ler com atenção. Talvez essa seja a tragédia real. O texto digital, frágil e volátil, corre o risco de ser sumido, ia escrever apagado, mas sumido é bom demais, com a obsolescência tecnológica. O conhecimento, que antes foi um bem público, tá sendo mercantilizado, privatizado por gigantes do Google. E ó: essa joia da coroa da cognição humana tá sendo estilhaçada, fragmentada em pedaços infinitesimais por notificações, likes e shares. Quando falei com um amigo hoje, ele até sugeriu, e a ideia é tão quixotesca que me tocou, que livros deveriam ser incluídos na cesta básica. Imagina. Mas a realidade é que o que a educação precisa fazer, desesperadamente, é ensinar o pensamento crítico, a capacidade de ir além de frangalhos de informação, de lutar contra a corrente, de construir significado em vez de apenas consumir bytes.
Não tenho tanta esperança, devo admitir. As evidências não são animadoras. Mas, como você disse, a gente tem que esperar alguma coisa, não é? A gente tem que se agarrar a alguma coisa, nem que seja a uma pequena, frágil esperança, para não sucumbir. Pronto, já posso voltar a escrever o meu romance, que de tão ruim, será considerado literatura.
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