Pruma criança crescendo numa casa de crente1 em 1990, a televisão2 era um portal pro inferno com boca-livre de garfada na bunda.
Fui alfabetizado pela minha mãe antes de ir pra escola, o diagnóstico comunitário seria, claro: altas habilidades. Na realidade era só ansiedade e tempo livre da minha mãe, que decidiu usar o alfabeto pra diminuir a hiperatividade do filho. Tanto ela quanto meu pai eram viciados em revistinha em quadrinhos, meu pai comprava voltando da metalúrgica e numa dessas um anúncio chamou a atenção. Imagino que seria algo parecido com isso aqui:
Papai e mamãe sofriam de um vício que ainda não tinha sido proibido pela igreja: os gibis, que lá em Contagem a gente chamava de revistinha. Meu pai que trazia, no trajeto de volta pra casa com o perfume de graxa e diesel, as revistinhas da turma da Mônica e da Disney. E foi no miolo duma dessas que o Círculo do Livro nos encontrou. Ainda não tenho certeza de que foi mesmo o Círculo do Livro, minha mãe diz que na caixa tinha livros, mas também tinha revistinhas e revistas, tipo Manchete, Amiga, sabe? Então devia ser alguma coisa entre o Círculo do livro e algum outro serviço de assinatura da editora Abril.
Contraste esse recato com a força dos anúncios na página central da revistinha, logo depois de algum Instituto Universal Brasileiro, qualquer acidente de manuseio faria a danada cair aberta na página do anúncio. Pelo relato da minha mãe, meu pai cresceu o olho no anúncio desde que o estoque da banca3 tinha acabado no último mês. O anúncio prometia uma caixa com material exclusivo e com desconto. Daí já viu né? O pobre não pode ver essas duas palavras juntas que já quer logo fazer um carnê4. Anos depois o carnê era finalmente de uma tv National 14 polegadas que fez a gente diminuir a leitura e entrar pro mundo dos zumbis.5
Neste momento, tenho a sensação de já ter escrito tudo isso em algum lugar, talvez aqui mesmo, será que eu tô me repetindo feito um maluco? É muito possível. Mas eu não vou conseguir escrever exatamente da mesma maneira e quem estiver lendo isso aqui também não será o mesmo, caso já tenha lindo alguma coisa que eu escrevi ante, duvido muito. Mas o que me fez pensar na repetição é o livro: Pirula, a porquinha do rabinho enroladinho. Este é um dos primeiros livros que eu li sozinho na vida.
Agora tenho 45 anos de idade e sinto que muito tempo vai passando quem poste de estrada quando a gente olha de dentro do ônibus. E tenho que fazer escolhas do que penso ser importante e do que as pessoas pensaram que é importante pra mim e ainda do que é importante porque alguém disse que é importante, mesmo eu nem achando tão importante assim. Percebo que a minha leitura virou um tipo de meditação, aqui poderia levantar o lema: ler bem sem olhar a quem. Ler qualquer coisa, bula de remédio, aqueles adesivos difíceis de tirar do isqueiro ou das canetas, costas de relógio de pulso, relevos de palhetas de guitarra, daquele mesmo estado que a gente fica quando tá aprendendo a ler, olha pra tudo procurando letra e vai encontrando letra em tudo e lendo sem parar em voz alta, na frente dos estranhos, apontando prum saco de cimento e quase gritando: secagem mais rápida. A responsabilidade te faz esquecer como reagir. Daí a gente apenas reage do jeito que dá.
É sempre um jogo, cê pode topar jogar ou não, há sempre consequências. Na trilha sonora eu topei o jogo, fiz o que pediam me divulguei, me vendi (até porque a única coisa que eu tenho pra vender sou eu e meu tempo), passei as raivas e humilhações já conhecidas do jogo, de todos os jogos, fiz amigos, inimigos e hoje vivo disso, de ter topado o jogo. Agora não escrita eu não vou topar o jogo.
Ontem, na casa de uma amiga, távamos lembrando dos coletivos artísticos dos anos 80, fiquei pensando porque não tem mais isso. Tudo agora é sobre o indivíduo, pelo menos parece muito, daí eu disse, vamo começar um coletivo?, e ela, não tenho tempo pra isso. Um coletivo artístico precisa de tempo.
Cheguei em casa e escrevi isso, nem coloquei título, mas poderia ser Tobias, no caderno grosso que comprei na Daiso:
· · ─ ·𖥸· ─ · ·
Ela não planejou o toque. Tobias tava ali, uma presença sólida e quente ocupando o espaço entre o sofá e a mesa de centro, exatamente onde o sol da tarde cortava a sala em uma diagonal alaranjada.
Observou o ritmo da respiração dele, uma cadência analógica, animal, sem as complicações das mensagens de trabalho ou das etiquetas de preço do supermercado. Enquanto digitava, sentiu a ponta do pé descalço roçar o pelo curto do dorso dele. Não retirou. Ficou ali, sentindo a vibração de um rosnado baixo que não era de ameaça, mas de reconhecimento.
O mundo lá fora, com sua metrópole e suas portas automáticas, parecia subitamente mudo. A temperatura da pele dela subindo em resposta àquela pele que não conhecia códigos ocultos. Era o início de uma tradução que não precisava de dicionário. A buceta umedecia num ritmo parecido com a respiração de Tobias. Parou de digitar e ficou se perguntando como era possível sentir aquilo apenas tocando a ponta dos dedos nos pelos espetados.
Pisou de leve, arrastou o pé até o pescoço, Tobias respondeu com um suspiro leve e depois uma lambida nos lábios. O som da língua dele trouxe saliva na boca dela.
O som daquela lambida, o estalar úmido da língua contra o céu da boca dele, ecoou nela como um comando. Fechou o laptop. O silêncio da sala agora tinha peso, uma pressão atmosférica que parecia empurrar tudo pro chão.
Ela escorregou do sofá, as costas raspando no tecido áspero até que seus joelhos encontrassem o tapete, no mesmo nível dele. Tobias não se moveu, mas as orelhas acompanharam o deslocamento dela. O cheiro, de bicho, de sol acumulado no pelo e de uma vida que não pede desculpas por existir, invadiu suas narinas, muito mais honesto que qualquer perfume caro.
Estendeu a mão, não prum carinho distraído na cabeça, mas para sentir a musculatura do peito dele. A palma da mão espalmada sobre o calor vibrante. Tobias inclinou a cabeça, o focinho úmido encontrando o vão do pescoço dela, um sopro de ar quente que fez os pelos dos seus braços se eriçarem. Não houve recuo. O susto que ela esperava sentir foi substituído por uma curiosidade carnal, uma urgência de entender onde terminava o adestramento e onde começava a fome.
Ele soltou um ganido curto, quase um sussurro, e a pata pesada dele repousou sobre a coxa dela, as unhas marcando levemente a pele. O carinho seguiu rumo ao pau do cachorro, uma pequena ponta vermelha já tinha saído e a mão delicada agradecia cada milímetro descoberto com um roçar no saco.
O contraste térmico era absoluto: a frieza dos dedos dela, vindos alumínio do laptop, contra a mucosa viva e latejante que se revelava. Tobias esticou o pescoço, os olhos perdendo o foco, entregue a uma inteligência sensorial que ignorava qualquer adestramento. Quando a mão dela envolveu a base, sentiu a pulsação do bicho, um motor de sangue e instinto que não precisava de nenhuma validação social.
Ela inclinou o rosto, a respiração agora curta, se misturou ao hálito quente dele. A saliva que antes era apenas um som na boca de Tobias agora era uma necessidade nela. Deslizou a outra mão pelo dorso dele, puxando pra mais perto, sentindo o peso bruto do animal contra o seu peito. O rosnado baixo voltou, mas agora tinha uma nota de urgência, uma vibração que ela sentia dentro dos próprios ossos.
Um choque elétrico percorreu sua espinha quando o primeiro contato úmido aconteceu, eliminando qualquer resto de dúvida: ali, entre os pelos espetados e o calor animal, ela finalmente falava uma língua que não exigia sotaque.
· · ─ ·𖥸· ─ · ·
Já andei com um grupo de pessoas que escrevia, isso foi lá em Contagem, gente que cês nunca vão saber o nome, gente que escreveu coisas que jamais serão lidas, mas também jamais terão essas capas feias da Todavia. Provavelmente se existisse Substéque na época que eu dizia que era escritor, essa seria a minha foto de divulgação. Um rapaz com uma camisa de alguma banda punk desconhecida, calçando um tênis dois números maior, uma calça tamanho 50, dormindo bêbado na rua com um cigarro apagado nos dedos. Eu era essa gente que jamais vai ter que fazer aquele papel ridículo de ler um trecho em voz alta no Entrelinhas da TV Cultura e nem vai ter seu livro na mão de um publicitário que não lê um livro inteiro desde a copa de 94 na Livraria da Vila.
Era uma turma que ia de skate pra academia de letras, fazia de conta que um dia seria lembrada, pra além do IPVA. Todos sabiam, enquanto dividiam um cigarro paraguaio, que aquelas folhas de caderno espiral, manchadas de Baré Tuttifrutti, terminariam exatamente onde terminaram: em caixas no sótão de algum parente, ração de traça. Por isso eram lindas aquelas coisas que escreviam, quase como gritar num travesseiro. Existe uma liberdade, ô palavrinha, terrível em saber que tá escrevendo pro vácuo absoluto. Ainda sobre o travesseiro, o esforço torácico é grande, mas o impacto acústico é zero.
Desisti de ser escritor profissional mês passado, quando descobri que não faço a Literatura (com L maiúsculo), apenas gosto de escrever e mostrar pras pessoa. A revelação veio com um momento de clareza hollywoodiano, aquela hora que entra o piano e o as cores do filme mudam de tom, sabe? Não sei se quero esse aplauso todo, ou melhor, o eco do aplauso. Aquela validação imediata, o olhar vagamente impressionado dum amigo em um café fingindo ler meus parágrafos enquanto pensa no extrato bancário. Não sei se quero tá na frente do meu texto, balançando os braço, gritando: olha como eu sô sensível e complexo e uso a palavra solipsismo de forma casual!
Acho que no fundo, só queria a sensação de 1990 de novo. A anestesia analfabeta, a ida pro edifício Maletta pra comprar livros na Crisálida, sentar no chão da sala e sentir o cheiro de graxa que meu pai trazia, abrir o livro da Pirula. Olhar pra tudo sem querer impressinar ninguém no Café com Letras da Savassi ou no Yerba de Campos Elíseos, essa coceira danada de ter que transformar o passado em literatura editável e virar um doutor em letras pela putaquepariu, (escritor e poeta, formado não sei onde, contato, agente, representação no exterior), Só ler e escrever. Ir até a cozinha, ver a marca de fita isolante que tá segurando a portinha do congelador, tentando lembrar se o solipsismo6 é uma filosofia legítima ou só um nome chique pro medo de tá sozinho. Só ler. Até minha mãe mandar eu ir dormir porque o diabo tá espiando pelo chuvisco da televisão.
Assembléia de Deus do bairro das Indústrias e do bairro Eldorado.
assim como os disco das Xuxa, o boneco do Fofão, as camisetas com o símbolo yin-yang, quem ria em algum momento do vinil A última trombeta ou rebolasse ao som de qualquer música, seja secular ou gospel. Lembro muito da tia Gisleis, fritando biscoitos de polvilho, gritar ao me ver com uma camiseta com o símbolo hippie Paz e Amor ☮, misericórdia, o filho da Cida com a camisa da nova era de satanás, labaxúrias, siricantales, tá repreendido em nome de jeová.
uma banca era um quiosque de meral nas calçadas, voltado pra a venda de jornais, revistas, gibis, palavras cruzadas e álbuns de figurinhas. As bancas foram o principal ponto de acesso à informação e cultura urbana antes da internet.
não vai ter nota pra carnê, mas deu saudade do Silvio Santos agora.
Faço parte de uma subespécie humana que adora observar as pessoas, mas detesta ser observada.
o voyeurismo clássico é espionagem, ou seja, observar pessoas que não sabem que você está ali enquanto essas pessoas se ocupam das pequenas atividades mundanas, porém eroticamente carregadas, da vida privada. É interessante que tanto voyeurismo clássico envolva a mídia de vidros emoldurados — janelas, telescópios, etc. Talvez o vidro emoldurado seja o motivo da analogia com a televisão ser tão tentadora. Mas assistir TV é diferente do verdadeiro voyeurismo. Porque as pessoas que estamos observando através da tela de vidro emoldurada da TV não ignoram de fato que alguém as está observando. Na verdade, as pessoas na televisão sabem que é em virtude dessa multidão verdadeiramente enorme de alguém que as observa com os olhos que elas estão na tela, praticando gestos amplos e nada mundanos. A televisão não proporciona a verdadeira espionagem porque televisão é performance, espetáculo, que por definição requer espectadores. Não somos voyeurs aqui. Somos apenas espectadores. Somos a Audiência, megametricamente numerosos, embora na maioria das vezes assistamos sozinhos: E Unibus Pluram. (David Foster Wallace)
uma palavra que eu provavelmente li na contracapa de um livro que comprei na Livraria da Vila e nunca terminei, usado apenas como calço intelectual para justificar o fato de que passei os últimos vinte minutos encarando o relevo da palheta da minha guitarra em vez de responder às mensagens de aniversário no WhatsApp.

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