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Entre o olhar e o gesto · Apr 30, 2026

O fantasma de arame farpado

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Barulhista · Entre o olhar e o gesto

A porta de vidro do Café não tem maçaneta, nem nada escrito, só um pequeno adesivo em forma de puxador, a silhueta de puxador antigo. Pensa se encosta o dedo no adesivo pra não marcar o vidro ou espera alguém passar pela porta pra entender o mecanismo. Só pode ser pra empurrar, essa porra.

Esse lugar não foi feito pra quem nunca entrou, entrar.

É a arquitetura da adivinhação, um teste psicotécnico. Fica ali parado, engordurando a mão no ar. Não dá pra ver direito o que acontece lá dentro, nem mesmo se é um Café, uma loja ou um bunker. Só descobriu depois que o senhor da banca apontou o dedo: ali tem café.

Empurra o vidro e recebe o banho sonoro de uma música que parece uma mistura de Belle and Sebastian e Kraftwerk. A mesa no canto perto do banheiro. Senta e percebe um pedaço de madeira com um QR code entalhado à mão. Aponta o celular e aproveita pra conferir o saldo no banco. O café coado custa o mesmo que três quilos de arroz Tio João. Os ombros flexionados pra cima, o cheiro de asfalto, o jeito de segurar o celular, o próprio celular, tudo parece não combinar com o espaço. Ao redor as pessoas conversando e rindo baixinho parecem ter nascido ali dentro, nasceram escutando a mistura de sintetizador com violão afinado em ré. Naquele bairro existem duas realidades bem definidas, quem serve e quem é servido. Olhando rápido pra ele, isso fica meio confuso: a roupa é de quem é servido, a cara é de quem serve.

Era tarde demais para ir embora. O letreiro vermelho vivo na parede de concreto aparente pulsava num ciclo hipnótico: um triângulo, depois um coração, uma estrela, um Mickey, como se o lugar tentasse sintetizar toda a gama de emoções humanas em ícones de geometria pop. Conseguiu olhar rápido para a mesa ao lado e captou o detalhe: uma garota de cabelo meticulosamente bagunçado segurava um pequeno cartão de fidelidade onde um laser havia queimado o formato de um coração. É mole? O laser, que em sua origem servia para cortar chapas de aço em fábricas barulhentas, tava ali domesticado para carimbar uma promessa de afeto, eita palavrinha, em troca de dez cafeínas acumuladas. Enquanto o barista se aproximava, ele sentiu o corte seco. O fantasma do arame farpado não estava mais no muro da fábrica da infância, nem na porta sem maçaneta. O arame agora tava enrolado na própria garganta, na percepção aguda de que aquele coração gravado a laser jamais bateria no mesmo ritmo que o seu. Tava num território onde até o carinho era processado por máquinas de alta tecnologia, enquanto ele, com sua cara de quem serve e seu saldo conferido em pânico, ainda era feito de carne, asfalto e a urgência de quem sabe exatamente quanto custa o quilo do arroz. Sabia que era o seu habitus gritando, aquela programação de fábrica que nunca recebeu o upgrade para ambientes com acústica tratada e garçons que não usam crachá.

Joan Miró - Blue II

Quando alguém entra num lugar rico, o seu habitus da periferia, do esforço, da funcionalidade, entra em choque com o habitus do lugar, do luxo, do desleixo planejado, do código oculto. Por isso ele se sente mal quando o corpo lê que não tem as instruções de uso daquele espaço. Alguém que cresceu num ambiente onde o erro pode custar caro desenvolve uma hipervigilância. Naquele café essa vigilância não desligava: foi monitorar as saídas, o tom de voz e o julgamento, o suposto julgamento que a garota do cabelo bagunçado pode ter feito ao olhar de relance. Estava exausto, cansado de operar no modo de defesa. Pedir um café não deveria cansar tanto.

O barista volta com o café em uma xícara de cerâmica artesanal, sem asa, uma peça propositalmente irregular que obriga os dedos a um contato térmico desconfortável, quase punitivo. Não existe pires, só um descanso de feltro cinza. A torra é tão clara que o líquido tem a cor de um chá de casca de cebola. Ele imagina que, se reclamar que o café está fraco, vai ouvir a gargalhada do fantasma do arame farpado, expondo sua ignorância diante da mesa ao lado. Dá o primeiro gole. A acidez explode na língua. Gosto de amora fermentada, ele não sabe se é ou não, tava escrito no cardápio. O paladar treinado no café da dona Gercina e na queimação de estômago das 16h entende que alguma coisa ali dentro azedou. É um sabor intelectual, que exige, de novo, um esforço pra ser apreciado. E é aí que o cansaço bate. Entende que tá trabalhando para gostar do que comprou. Fazendo hora extra emocional para validar um gasto que o seu eu de uns doze anos atrás consideraria um crime contra o salário. A garota do coração a laser toma o dela com uma naturalidade absurda. Pra ela, aquele sabor ácido é o natural, o café que toma em casa é também assim, é o ponto de partida de uma manhã, nada diferente, é como respirar oxigênio. Pra ele, é um projeto de pesquisa. Lembra da mãe dizendo que o que não mata, engorda. Como na vez que pediu pra levar uma bandeijinha de comida japonesa do Carrefour e convenceu a mãe de que gostava muito de comida japonesa. A mãe, que nunca nem tinha visto aquilo, pagou pra ver. Nem dez minutos depois tava com o coitado dentro do banheiro, ele vomitando e ela gritando: cê não disse que gostava? Pois agora vai comer tudo, nem pensa em desperdiçar comida. Nunca mais conseguiu sentir nem o cheiro de sushi, perdeu um encontro por conta disso, inclusive.

Então, nada de desperdício. Engole a mistura de Belle and Sebastian com Kraftwerk junto com o trem morno e sente o estômago contrair. Não, não é a cafeína, é a consciência de que pode até decorar as notas sensoriais, pode aprender a segurar a xícara sem asa e pode até sorrir pro barista de avental de couro, mas seu corpo sabe que a verdadeira satisfação ainda mora num copo americano de café com leite e açúcar, pão na chapa com muita Doriana e a liberdade de não precisar decifrar porra nenhuma antes de morder. Depois do último gole, deixa a xícara no feltro cinza com a precisão de quem manuseia uma peça radioativa. Olha de relance pra a garota do coração a laser, do cabelo bagunçado. Compreende que a verdadeira riqueza não é o saldo que permite pagar por aquilo, mas a ausência absoluta de qualquer necessidade de tradução simultânea. Ela não habita um café, mas um estado de espírito onde o mundo se molda aos seus desejos antes mesmo que ela precise formulá-los.

O fantasma do arame farpado, agora acomodado confortavelmente na base do seu crânio, dá um último puxão irônico. Caminha em direção à porta sem maçaneta, agora sabendo que é preciso empurrar, mas faz isso com uma força desnecessária, uma compensação física para uma insuficiência metafísica. A porta de vidro se despedaça. Ao sair, o ar pesado da metrópole atinge o seu rosto como uma correção ortográfica necessária. Corre. Ombros ainda flexionados, sentindo o sabor cítrico residual brigando com a memória do óleo diesel. O letreiro vermelho continua piscando na mente. Mais vermelho. Um pouco de azul além do vermelho, as cores se alternam: vermelho, azul, mais azul. O que resta é essa estranha e lúcida náusea de quem descobriu que pode comprar o ingresso para o espetáculo, mas que a peça é encenada em um idioma que você só fala com sotaque. A sirene da viatura paralisa suas pernas. Mais vermelho, mais azul. Vermelho, azul, vermelho.

· · ─ ·𖥸· ─ · ·

Trilha sonora do escrito:

The Boy with the Arab Strap — Belle and Sebastian

The Model — Kraftwerk

E o som de uma lavadora de alta pressão usada em lava-jatos que só toca na minha cabeça.

· · ─ ·𖥸· ─ · ·

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