NOTA DE AUTOSABOTAGEM EDITORIAL
A entrevista a seguir é uma mentira, foi integralmente redigida pelo próprio autor como um ato de legítima defesa literária. Leia por sua própria conta e risco.
[Entrevistador Falso]: Curvex no terceiro olho parte de um lugar traumático - uma cama de hospital sem saber de que doença se trata, seguida do encontro de quatro amigos num quarto cheio de beleza, pobreza, intelectualidade e caos - para desencadear uma profunda jornada emocional, sexual e existencial. Como a violência física e as inquietações interiores ajudam a entender a construção do narrador Ivo, ou melhor, Fulano?
[Barulhista]: Essa escolha de trabalhar traumas aconteceu em 2016 quando eu comecei a escrita do livro. É uma mistura de pessoas com quem eu convivi e que praticavam bastante violência física, mas principalmente psicológica. Foi muito tempo escrevendo sobre assuntos pesados, então eu descobri que na hora de escrever tinha que brincar um pouco com as frases, daí foi aparecendo o caos que, sei lá, contribuiu pra deixar a voz do Ivo mais doente. No longo prazo eu tentei fazer o leitor ficar amigo das parafilias, pelo menos no sentido de entender que elas existem que tem gente que vive dessa maneira.
[Entrevistador Falso]: Embora tenha publicado muitos artigos no Substack e alguns fanzines, seu romance demorou 10 anos pra ser escrito. Porque o livro demorou esse tempo?
[Barulhista]: Eu amo as coisas que faço, tanto na música quanto na escrita, então vira um casamento mesmo, fico convivendo com os trabalhos e tenho discussões, noites de núpcias, até que eu fique convencido de que devo assumir que outra pessoa deve ter acesso ao que a caneta acabou de parar de funcionar. Mas não pense que eu passei 10 anos com a caneta na mão, assim direto. Parei e desisti um bocado de vezes. Acho que é melhor assim, parando, passando raiva do que sem atenção e com pressa. Mas foram anos bem esquisitos também, mudei de estado, vim morar em SP, continuar escrevendo sobre Contagem exigiu disciplina.
[Entrevistador Falso]: A versão atual é muito diferente da que começou em 2016? Já tinha esse nome? De onde ele vem?
[Barulhista]: Passar uma década mexendo nas mesmas páginas faz a gente detectar nossas próprias mentiras. Na versão inicial, muito do que parecia radical ainda cheirava a truque literário para chamar a atenção. A versão atual é diferente porque foi despida do desejo de impressionar. Tive uma conversa com a Monica Toledo, que fez a preparação do livro, ela foi a primeira pessoa que leu inteirinho e cheio de cismas minhas. Tem horas que a gente se acha um gênio e é importante alguém olhar com sinceridade e baixar a nossa bola. Eu acatei muita coisa que ele me disse sobre o texto, e outras coisa eu mantive, tem coisas nesse livro que foram escritas pra mim mesmo, quase como um documento. Se for ler com a régua do mercado editorial, é um livro péssimo mesmo. Cada parágrafo que sobreviveu até 2026 teve que provar o seu direito de existir fora da lógica do espetáculo. O livro deixou de ser um objeto que quer ser admirado numa prateleira pra virar uma espécie de diário de trincheira.
[Entrevistador Falso]: Existem dois temas que são pouquíssimos explorados na literatura brasileira e que no livro tem bastante espaço, que são: zoofilia e cropofilia. Há um desejo de polêmica em dar tanto espaço para práticas tão absurdas?
[Barulhista]: O amor-comercial-de-margarina. A rebeldia política virou camiseta vendida em grande loja de departamento. Mas a coprofilia, pedofilia, zoofilia? O mundo não consegue digerir isso. São os resíduos radioativos da psique humana. Eu não tava buscando polêmica, tava buscando lugares de ruptura em que a lógica de consumo e do decoro entra em curto-circuito, porque essas coisas existem e tão bem pertinho da gente. Ao mesmo tempo é uma maneira de testar os limites da empatia do leitor. Devolvo perguntas: Cê consegue olhar prum personagem que vive nesse extremo de degradação e ainda assim ver alguma alma humana ou doçura? Ou a sua empatia só funciona com personagens limpinhos?
[Entrevistador Falso]: Porque não publicar por uma editora convencional e autoeditar em pleno 2026 com essa diversidade absurda de possibilidades de circular com o livro?
[Barulhista]: Porque eu sou músico. Essa seria a resposta mais rápida a essa pergunta. Eu fico vendo uns livros escritos com seus começos, meios e fins perfeitamente higienizados, e quando eu vou escrever tento me afastar disso. Por isso que um pouco antes de terminar a escrita do livro eu brincava com alguns amigos, e ainda brinco, dizendo que o livro era ruim. Tem umas liberdades que são meio impossíveis fora da autopublicação, desde 2016 o livro tinha uma capa, tava usando a mesma arte do meu primeiro disco (primeiro disco e primeiro livro com a mesma capa, parecia uma boa ideia). Mas aí um dia desses eu dei de cara com a fotografia do Gabriel Andrade de Paula, tomei um susto. Ela representava exatamente a atmosfera do livro, ele me deu a foto de presente, uma das coisas mais bonitas do livro pra mim é essa foto na capa. Se pensar que o livro é fragmentado, quase sabota a própria leitura. Juliana Feitosa, minha consorte, e eu temos uma nanoeditora chamada A menor editora do mundo, cuja ideia é publicar coisas nossas e de um jeito bem pequeno. Uma tentativa de fazer o livro circular de forma quase clandestina, torcendo para que ele caia nas mãos de leitores que também estão cansados do bombardeio comercial.
[Entrevistador Falso]: Hoje, algumas pessoas que escrevem se tornaram uma espécie de celebridade. Em quais aspectos a atual relação entre pessoas leitoras e autoras é positiva? Em quais é negativa?
[Barulhista]: Penso que quando uma pessoa que escreve vira uma celebridade, ela entra na lógica do mercado e da publicidade. E é sempre importante lembrar que o objetivo da publicidade é criar uma imagem atraente para vender algo. Quando essa pessoa começa a se preocupar com sua persona pública, para de buscar a verdade incômoda e passa a tentar seduzir o leitor. Escreve o que sabe que vai gerar aplausos, curtidas ou validação imediata. Acho que no fim isso vira uma literatura vazia, feita para agradar o ego de ambos os lados. Mas quando a relação entre pessoa leitora e pessoa autora funciona bem, ela serve pra que quem lê olhe pro que aquela pessoa escreveu e pense: achei que só eu sentia isso.
[Entrevistador Falso]: Em alguns momentos o livro parece que foi picotado ou, peço perdão pela expressão, escrito com certo desleixo. Pode falar um pouco sobre isso?
[Barulhista]: Se o escrito parece truncado, pode ser que tá exigindo que você jogue o jogo com ele. Esse desleixo na verdade é uma costura exposta de um livro que tenta te forçar a parar, reordenar as peças na sua cabeça e se conectar ativamente com o que escrevi, desculpa, em vez de apenas consumir passivamente. É importante lembrar que se trata de um idoso numa cama de hospital inventando memórias em cadernos, brindes do plano de saúde.
CURVEX NO TERCEIRO OLHO
Barulhista
Menor editora do mundo
344 págs.
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