essa coisa vasta, amorfa e vagamente sagrada que as pessoas tendem a discutir com aquele tom de voz sussurrado e reverente que reservamos para velórios ou para a seção de vinhos caros do Carrefour, a cultura gosta de se vender como o oposto polar da política e da economia. Cê já ouviu as frases de efeito; elas tão em todo lugar, estampadas em sacolas de algodão cru personalizadas e em prefácios de livros de capa dura, cultura como o despertar, como a ponte mística que une abismos humanos que, se não fosse ela, seriam intransponíveis. Neymarketing existencial muito bem executado. Mas, se você parar de olhar para o brilho da aura por um segundo e observar a mecânica real do Gran Mundo Literário, essa entidade que se comporta que nem um condomínio de luxo com cercas elétricas, percebe que o motor por baixo do capô é o mesmo modelo de combustão interna que move o resto do mundo. Tô falando de mecanismos de violência, exclusão e uma espécie de imperialismo de prestígio que faria um Faria Limer chorar de inveja. Algumas poucas pessoas, por meio de uma combinação de sorte, pedigree e uma disposição quase sociopática para o networking, conseguem concentrar vastas quantidades de capital cultural, enquanto a vasta maioria é mantida do lado de fora, olhando pela vitrine, com o acesso negado por guardiões de golas pretas e falam que a crise é estética para esconder o fato de que estão apenas administrando um monopólio de atenção.
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