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Entre o olhar e o gesto · Nov 15, 2025

Origami de papel moeda

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Barulhista · Entre o olhar e o gesto

De dentro do Uber o batuque dos dedos no volante acompanha a rádio Nova Brasil, já tinha dito aquela frase antes: “hoje ninguém vai estragar meu dia”. Imagino, pode ser que o dia já comece estragado, sem a necessidade de ter um culpado nisso. Um ninguém que finge ser um amigo e cisme de falar alguma coisa do tipo: mano, o cara é casado com a Malu Mader, quer mais troféu que isso, meu? Esse tipo de coisa que estraga o dia da gente. Outra frase minha: “só vou gastar energia pra beijar sua boca”. Lá vem a onda que vai levar todo mundo pro banco de areia.

A paz de espírito, essa âncora fugaz no doloroso do plano de fundo era, pra ele, um projeto de coerência interna, a tentativa de alinhar o eu da aspiração com o eu real, aquele desagradável. Daí a batida frenética dos dedos contra o volante de couro sintético, uma performance rítmica executada na esperança de algum reconhecimento externo pela pura criatividade de extrair timbres graves e médios de um objeto não projetado para tal fim.

Ou talvez, talvez cê deva ter em mente algum conhecido que já batucou em alguma coisa e por isso vai encontrar sentido no que vou dizer, tudo tenha começado, não na mesquinhez da tentativa individual de batucar, mas no escritório central da Renault, em Boulogne-Billancourt, onde o vice-presidente de design, Laurens van den Acker, resolveu, numa daquelas manhãs de domingo pós-cafeína, colocar um copo de vidro, com um desenho horroroso, se ele for um desses designers de verdade, sobre a madeira da mesa modular e percebeu, com aquela epifania de que só os moradores de Santa Cecília tem, que transforma o banal em estalo corporativo, que o toque simultâneo do aro, da lateral e da base contra a madeira era capaz de gerar um diapasão rico em frequências graves e médias.

E é nesse momento de convergência, entre o patrocínio corporativo e a neurose digital, que a minha vozinha diria, numa súplica: fica comigo, então. Não me abandona, não. Quem faz o seu melhor, faz tudo o que se pode esperar dele. Não sou tão mal quanto as pessoas pensam, mas também não coloquem toda a responsabilidade dos sorrisos nas minhas costas.

“Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro.” (Mateus 6:24)

Lá se vai mais uma alegria momentânea. Não espere das coisas, quecheiro de Caetano Veloso com autoajuda barata, mais do que elas podem te dar, é um aforismo feito sim, mas por quem afinal? Vozinha: Alguém te perguntou como é que foi seu dia? Eis outra, igualmente gasta, mas mais apropriada à física: a vida é uma senóide que sobe e desce, um ciclo cheio de acidentes e picos e vales. A tragédia, caríssima pessoa que lê, é que o humano, este ser contraditório e mal pagador, se posiciona na contramão desse trânsito cósmico, desse pulso fundamental da Natureza.

“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.” (Mateus 19:24 )

Peguemos o caso mais instrutivo e terrível de colaboração falha, um microcosmo da guerra de egos que é o tecido conjuntivo de toda interação humana significativa: Enzo, em seu isolamento produtivo e solipsista, faz X. Produz X. Aí, e o Aí agora tem o peso de uma fatalidade grega, um deus ex machina burocrático, cê introduz Valentina na equação. Eles deveriam, idealmente, somar e, através da sinergia, que fedor de PowerPoint desnecessário, potencializar 2X mais um Epsilon de otimismo. O que acontece de fato, e isso é a pedra angular da miséria humana, é que eles competem tanto, digladiam-se tanto no campo minado da vaidade mútua, que Enzo mais Valentina produzem X sobre dois. Quer dizer, eles entregam menos do que Enzo sozinho. O tanto que eles não conseguem somar é, na verdade, um déficit que atesta a incapacidade humana de se transcender, de se encaixar, de complementar. É um desperdício de energia termodinâmica. Juntos, aquecem em atrito menos do que protegeriam em união, separados. É a Contramão da Lei da Natureza.

“Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” (Lucas 12:15)

E a ironia, de coçar a cabeça, numa coceira filosófica e não de dermatite seborreica, disso tudo, é o que me leva de volta a uma anotação besta sobre uma... : a polêmica fascinante girava em torno do tempo em que as espécies humanas viveram na Terra, chegando inclusive a se mesclar a miscigenação como um subproduto da proximidade. Não se sabe bem por que o Sapiens prevaleceu ao Neandertal, mas um grupo de estudiosos levantou uma hipótese. Perceberam que, ao contrário da vossa incapacidade atávica de somar, o que possibilitou a sobrevivência do Sapiens foi uma extraordinária capacidade de colaboração. Eles sabiam, e isso é o que diferencia ocês ou sei lá né, trabalhar em conjunto com indivíduos que, ainda que não fossem ligados por laços de sangue a eles, pertenciam à comunidade. Tinham, óia procê ver, a capacidade de somar e de trabalhar juntos. Prevaleceu, portanto, a colaboração e a capacidade de unificação, e não a mera força bruta ou a inteligência isolada.

E, ocês, os herdeiros desse triunfo cooperativo, estamos hoje, faço uma pausa dramática para permitir que a pessoa aí sinta o tamanho da ironia, mais divididos do que nunca. Ainda tem gente que diz que a culpa é minha, recentemente tive a ocasião de observar que quando a beneficência não prejudica o benfeitor, mata o beneficiado.

“Então, quem pode ser salvo?” (Mateus 19:25)

“Jesus olhou para eles e respondeu: ‘Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis’.” (Mateus 19:26)

Vivem sempre em um isolamento constante, podem estar no meio de uma multidão pós-moderna, mas estão inerentemente isolados, cada um em sua senóide particular, batendo os dedos em couro sintético. Assim, acredito, com uma fé que é mais um projeto do que uma certeza, que o caminho da unidade é um caminho de volta para casa. Uma unidade que trabalha para unir, e não para subtrair, nem para aquecer por fricção estéril. O que coloca ocês, novamente, na posição ingrata de ter que escolher qual dos dois senhores o Ego ou a Comunidade — receberá, afinal, a vossa devoção.)

O êxito se faz, é a tese do meu irmão, sobre o fracasso dos demais. Percebo isso com precisão no meu amigo batucador de volantes. Ele convive com gente que é rica em um grau que desafia a categorização financeira, não dá nem pra dizer o quão ricos são, a riqueza deles não é apenas uma soma de dígitos, é um estado do ser, uma barreira ontológica. O batucador, por outro lado, ainda paga o aluguel, a grande ansiedade mensal que o acompanha como um parasita epistemológico e compra alguns livros na Amazon, nas livrarias do bairro é mais caro e não dá pra levar em consideração o mercado local, porque ele também é o mercado local e tá quase quebrado. Sobre as livrarias locais tinha o desejo secreto de colar nos livros adesivos com os dizeres: este livro não ganhou o Prêmio Jabuti.

É possível, através de uma empatia que exige esforço, entender como é doloroso querere não poder, e então olhar para o lado e ver que o seu amigo, o Rico com R maiúsculo e com contorno de canetinha, pode tudo, mesmo sem querer muita coisa, o que é, talvez, a pior humilhação. O batucador, que despertou, pensou diferente, meditou. E quem medita, convenhamos, já está procurando uma alternativa espiritual ao déficit financeiro e, quando volta à realidade, continua sem o dito cujo, o faz-me rir, o capital, o meio, a alavancagem; a essência do poder, ufa.

O amigo debocha e o convida para um rodízio. O batucador, numa tentativa patética de manter a dignidade e a agenda cheia, responde que tem compromissos ou que não sai muito, mas, suspiro, a curiosidade, essa fraqueza humana, é inevitável, pergunta num tom de voz que denuncia a esperança contra todas as evidências: quando será o evento? A resposta, que é dada com a mesma casualidade com que se comenta sobre o clima: será em Paris, 31 Rue du Faubourg Saint-Martin, daqui uma semana. Por isso, aliás, o convite foi feito agora, de última hora, o que reitera o abismo logístico entre eles. Para o rico, Rico, Paris é um rodízio; para o batucador, é colonizar Marte. Porque não diz apenas um não e obrigado, eita. A gratidão não é uma dívida que os filhos nem sempre aceitam no inventário?

“o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6:10)

E voltamos ao teorema central, do qual o episódio acima é apenas um corolário cruel: cê não aprende a ganhar junto, cê aprende a ganhar sobre. Se ocê chega para um amigo e diz que numa corrida chegou em primeiro lugar, a resposta é automática: eita que chique amigo, parabéns, que coisa boa de saber, mas em que lugar ficaram os outros? A simples ideia de responder, temos aqui o cenário Alice no País das Maravilhas que destrói a narrativa da Vitória, que todos ficaram em primeiro lugar destrói o conceito.

Acabou a graça.

A Vitória, o êxito, se faz sobre o fracasso dos demais. Vou me repetir um pouco. Vocês não sabem ganhar juntos. A graça mora, a tragédia mora, a literatura mora, em estar no alto de uma montanha de fracassados que cê teve que passar por cima. Essa mentalidade vai favorecer um egoísmo perverso, uma vaidade ainda mais perversa, onde as pessoas querem se afirmar muitas vezes não destacando seus próprios valores, mas desfigurando quem tá em volta, a estratégia de equalizar para baixo. O êxito, no final das contas, é apenas o resultado líquido de uma subtração social.

Minha voz de ator esquecido da novela da globo: “Vamos viver, vadiar. O que importa é nossa alegria.”

Bastidores do texto:

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