A uberização chegou ao Brasil em 2014 no Rio de Janeiro, época em que dava pra fazer turnês pelo país tocando em casas de coletivos e centros culturais tocando música experimental tendo na mala alguns objetos sonoros, uns controladores midi e um laptop. Digo a uberização mas a verdade é foi só a empresa Uber, dava pra tomar água e ganhar balinhas do motorista que se vestia de garçom de restaurante metido a besta com toalha de mesa acolchoada e não podia falar quase nada com o passageiro, imagina. De lá pra cá, e sim, isso parece nome de programa de humor da Globo que passa no fim do domingo, lá se foram o silêncio do motorista, as balinhas, a água, casas de coletivos, turnês, ficou só o laptop em que agora escrevo.
A descoberta da conversa de motorista de uber encantou algumas pessoas, em geral em Minas Gerais, que há muito tempo, carentes de uma prosa mesmo sem cafézim, davam falta dos comentários meteorológicos e resultados dos gols da rodada. As esquinas se tornaram iscas ficcionais pra qualquer tipo de: e o Lula, e as vacinas, e o banheiro unissex, e a mega da virada. (tudo com muitas interrogações)
Felipe, HB20 branco, nota 4,94.
Seta para direita fazendo tercinas, que em música são três notas iguais ocupando o espaço de dois tempos, melhor dizendo quiálteras compostas por três notas tocadas no mesmo intervalo de tempo que normalmente seria ocupado por duas notas, alterando a subdivisão binária padrão para uma ternária, na música do grupo Genesis e eu acompanhando com a unha no apoio de braço da porta. Quatro minutos dentro do carro e nenhuma palavra além do boa tarde.
Eis que uma mulher recebe a companhia do olhar atento de Felipe que pisca no ritmo de seu caminhar. Ao ver isso penso, lá vem. E o que veio foi um comentário que me acompanhou até aqui:
mulher gosta de sapato que faz toc-toc-toc, homem anda na surdina.
((Uepa! un pasito pa'lante María))
Como assim Felipe? Surdina? Tentei me lembrar se alguma vez na vida eu tinha escutado essa palavra em voz alta, talvez no teatro, só se for nalguma peça infantil que faz as crianças perguntarem ao chegar em casa: que que é surdina? no mesmo tom quem perguntam o que é prepúcio e escarlate. Daí anotei no verso do comprovante de pagamento do misto-quente do Estadão:
mulher toc-toc-toc, homem surdina. ideia pro substack
Com certeza tinha mais angu nesse caroço (virada de bateria), será que é isso? O corpo feminino precisa criar um alerta sonoro anunciando sua passagem, um aviso de que tá passando por ali e que de alguma maneira deseja que espectadores a observem. Tá a primeira vista pode ser isso, mas porque desejaria ser notada? Pra que ninguém saia de um outro prédio e esbarre ou pra que em caso de algum perigo, e um corpo feminino em movimento ou não tá sempre correndo perigo, por uma questão simples de que as fábricas de sapato não tem um setor de acústica?
E os sapatos masculinos? Seriam um tipo de camuflagem urbana que permitem entrar e sair sem ser notados? Usam desse artifício pra copiar o desenho e o ritmo do passo feminino a sua frente pra uma aproximação sorrateira e enfim perguntarem se o Poupatempo tá ali perto?
Minha curta pesquisa científica sobre o assunto teve como resultado o seguinte: Num salto agulha, todo o peso do corpo é concentrado em uma área de poucos milímetros quadrados. O núcleo da maioria dos saltos é feito de plástico rígido ou metal para garantir que o salto não quebre sob pressão. Pra aumentar a durabilidade, a ponta do salto costuma ser de um plástico muito duro. Quando esse material rígido encontra um piso de cerâmica ou madeira, não há absorção de impacto, resultando no som seco e alto.
Já os sapatos masculinos possuem solas largas e calcanhares amplos. O peso do corpo é distribuído por uma superfície maior, o que amortece o impacto. A maioria usa solas de borracha, PU (poliuretano) ou couro tratado, que são naturalmente mais silenciosos e flexíveis.
E aí eu descobri um troço muito doido chamado de Semiótica do Passo1. Parece que existe, claro que existe, uma discussão sobre o som do salto ser percebido como uma extensão da confiança. O ruído rítmico e firme seria associado à assertividade, principalmente em ambientes corporativos que são dominados pelos sapatênis com sola de borracha branca. Dizem, e quando eu digo dizem é o povo que eu encontrei estudando isso na internet, que essa ideia de anúncio da chegada é chamada de assinatura auditiva. O trem tem até nome. Enquanto o sapato masculino moderno foi desenhado para ser eficiente e silencioso, o homem de negócios discreto, o salto feminino carrega essa carga histórica de performance e visibilidade.2
O pior é que naquele momento eu não tinha nenhuma dessas informações, minhas companhias eram só o toc-toc-toc, a tercina da seta, o Phil Collins e o olhar do motorista Felipe da HB20 olhando pra mim como quem diz, cê não vai falar? Era mais fácil responder a um, parece que vai chover hoje, ou fazer de conta que eu torço pra qualquer time de futebol e lamentar uma derrota, valei-me São Caetano Galindo. Na minha mineiridade mais profunda, invoquei o personagem Astronauta Mineiro, soltei a mais extrema das frases aniquiladoras de assunto:
pois é, rapaz…
· · ─ ·𖥸· ─ · ·
Agora sobre o livro que tô escrevendo na frente de vocês:
O toró rebentou lá pelas dez da noite. Neusa escutou a chuva bebendo pequenos goles de vinho barato. Acabava de fazer cinquenta anos: existe crise dos cinquenta? Na tentativa de melhores condições de vida, as pessoas de cinquenta hoje tão em plena forma, a sua condição física é excelente, os primeiros sinais que indicam que acaba de ir prum patamar, que acaba de se encetar a longa descida em direção à morte, não se produzem o mais das vezes senão por volta dos cinquenta e cinco, ou até mesmo dos sessenta anos. Neusa era obrigada a pensar na paz, talvez diferente de como pensa um ganhador do prêmio Nobel que um dia antes precisa conferir seu discurso e combinar a meia com o cinto, respirava fundo de saber que ia pro estúdio encontrar seus ouvintes. De certo uma pequena montanha de presentes decorava a entrada da radiodifusora.
· · ─ ·𖥸· ─ · ·
Jean-Luc Godard não é apenas um criador de imagens, mas um lembrador, lembrava o espectador de que o que ele tava vendo era um filme. Acho que ele queria que a arte rompesse a solidão e conectasse seres humanos de forma sincera. Chavão: a maior solidão é a incapacidade de ficar sozinho.
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Ensaios sobre o inaudível. Microfonia da sujeira. E se ao encontrar uma celebridade a gente, ao invés de pedir uma foto, pedisse um áudio? Pode dizer alguma coisa pra eu guardar a sua voz por uns 10 segundos?
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Recebo um áudio de um colega perguntando que tipo de música eu faço. Dou a mesma resposta que inventei em 2009: música pra dançar sentado.
Penso que é uma bobagem isso de prosa, verso, poesia, gêneros no geral. Sempre tive dificuldade de me encaixar em gavetas. O efeito disso é hierarquizante, preconceituoso e limitador. Eu faço música e texto. O suporte da música no fim das contas é o mesmo que o do texto: é tempo. O que eu faço é tempo. O que se gasta de fato em ler um livro ou escutar uma música é tempo. Porque a arte tá, ou deveria tá, a anos-luz de distância de ser apenas mais uma commodity — algo que você empilha em prateleiras ao lado de detergentes ou planos de previdência privada.
O fato é que o seu trabalho pode muito bem acabar dissecado por um crítico de óculos de aro grosso numa revista de papel couché caro, ou ser o alvo dum anúncio de galeria que usa fontes sans-serif minimalistas para parecer importante. Mas o ponto crucial é que o artista precisa cultivar uma espécie de amnésia estratégica. Tem que ser capaz de habitar um espaço onde essa recepção futura não exista. No momento da criação, a obra precisa nascer com uma ignorância total sobre o próprio destino, como se fosse um segredo que não sabe que um dia será contado, livre dessa pressão de se tornar um objeto que satisfaz o apetite de alguém que já decidiu, de antemão, quanto ela vale em termos de capital cultural ou financeiro.
A questão é que existe essa tensão dialética e quase insuportável entre a necessidade humana básica do artista receber algum tipo de sinal de fumaça crítico, um opa, eu vi e entendi o que cê tentou fazer, e o perigo de deixar que o seu fazer seja colonizado por essa espécie de ciranda viciada que é o Mercado.
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A madrugada não quer voz bonita. Quer presença. Ela não gosta da própria voz, mas as pessoas ligam por causa dela. Não apesar da voz ser imperfeita, mas por isso. E ela não consegue ver presença em si mesma. Tem uma cena inteira só nessa contradição.
O livro começa com uma nota de jornal anunciando o falecimento de Neusa, penso que ela não deve encontrar a ouvinte, isso deixaria o livro pop demais. É pra ser um livro experimental. A busca pela ouvinte deixa não é pra ser thriller, mas algo perturbador, um testemunho. Neusa não vai salvar ninguém. Ela só vai ver. E ver, no livro, é o único gesto moral disponível num mundo que finge não enxergar.
Isso também resolve a convergência com os jovens justiceiros. Os dois núcleos não devem se encontrar num clímax de ação. Eles se tocam por ressonância:
2 grupos que decidiram que o silêncio era insuportável, cada um à sua maneira.
Quem narra?
Neusa, em gravações ou roteiros de programa que alguém encontrou depois. (fica meio parecido demais com o "Curvex", livro anterior)
A voz da rádio, como se o ar de Contagem lembrasse de tudo. (não soa muito filme da A24?)
Fragmentos sem fonte clara. (minha escolha preferida até agora)
Lista de materiais pra trabalhar:
Roteiros ou falas de programa de rádio
Pedidos de música dos ouvintes, incluindo uma lista de possíveis músicas que são pedidos de socorro.
O monólogo interno da Neusa entre uma música e outra.
Boletins de ocorrência ignorados.
Letreiros (outdoors) dos jovens justiceiros como texto visual, pensar um nome para os justiceiros, dado pela imprensa e não pelos próprios.
Quando e como Neusa entra em cena como voz? (não como assunto)
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ALUVIÃO
1 - Essa semana uma cena antiga não me saiu da cabeça. Eis a cena.
2 - Quando coço a cabeça com vontade de fazer coisas assim. Cê vai querer um trem desse também.
3 - Não tem educação, nem wifi no Brazil. Um dos memes em vídeo preferidos.
4 - O incrível livro do Budismo Tibetano.
5 - Um raro resumo de toda a Arte Mágica pelos mais famosos Mestres desta Arte. Apesar do ano mencionado no título, estudiosos sugerem que o livro foi escrito muito mais tarde, em 1775. Compendium Rarissimum trata de demonologia e tá escrito à mão em alemão e latim. Tem 31 ilustrações coloridas e três páginas de sinais e sigilos mágicos e cabalísticos, etc., mas o que mais chamou a minha atenção foi o “Não toque!” marcado na capa.
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Por enquanto, são essas as anotações na minha mesa. Uma tentativa de não deixar o livro ser apenas uma ideia na minha cabeça. Caso alguma coisa aqui ressoou nas suas próprias leituras ou inquietações, adoraria saber nos comentários.
inté o próximo fragmento.
Semmelhack, Elizabeth - Heights of fashion: a history of the elevated shoe.
Flügel, J.C. - A psicologia das roupas.

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