Quando pensamos em cyberpunk, é fácil cair numa imagem pronta. Cidade vertical, chuva, neon, gente de couro andando por ruas escuras, megacorporações, implantes tecnológicos e alguma placa em japonês piscando ao fundo. Eu gosto de neon, inclusive. O problema não é o neon, mas quando ele vira praticamente a definição inteira do gênero.
Foi sobre isso que conversei com Guilherme Rezk numa live sobre cyberpunk no Brasil. Guilherme é autor de 2063: Estado Artificial, livro que tive o prazer de editar, além de Contos do Apocalipse e A Condenação da Memória.
A pergunta que guiou nossa conversa era simples: dá para fazer cyberpunk no Brasil sem apenas importar uma cidade estrangeira e colocar personagens brasileiros dentro dela?
Acho que dá. E talvez seja mais fácil do que parece, porque basta olhar ao redor.
Durante a própria live, brincamos que a Pedra do Sal, no Rio de Janeiro, já parecia uma experiência cyberpunk. Samba, bebida barata, gentrificação, luzes, prédios, gente circulando por todo lado e um painel gigantesco da Conceição Evaristo observando aquela confusão. Quando estive lá, ainda apareceu um boneco de Olinda no meio do Rio de Janeiro. Em determinado momento você simplesmente aceita.
O Brasil já é muito bom em misturar coisas.
Uma expressão importante para entender o gênero é high tech, low life: alta tecnologia convivendo com condições degradadas de vida.
Guilherme citou Carbono Alterado, de Richard K. Morgan, como exemplo. No livro, as classes mais ricas praticamente alcançam uma forma de imortalidade, enquanto a maior parte das pessoas continua vivendo numa realidade marcada por subemprego, precariedade e desigualdade.
Só que falta uma terceira parte: o punk.
Não precisa ser alguém com moicano ouvindo rock. A atitude punk está na subversão, no questionamento, na relação conflituosa com o sistema. Pode existir uma revolução organizada, mas também pode aparecer numa escolha individual, na recusa de aceitar determinada ordem ou mesmo na forma como um personagem sobrevive dentro dela.
Se retirarmos esse elemento e deixarmos apenas a tecnologia avançada num futuro ruim, talvez tenhamos uma distopia tecnológica. Não necessariamente cyberpunk.
Essa distinção me interessa porque às vezes reproduzimos muito a estética das referências e pouco aquilo que as fazia funcionar.
Uma das grandes referências do gênero é Neuromancer, de William Gibson. O livro ajudou a cristalizar um imaginário que depois aparece em inúmeras obras. Só que Gibson estava olhando para o futuro a partir do mundo dele.
O Japão vivia uma expansão econômica e tecnológica que fazia cidades como Tóquio parecerem uma antecipação do amanhã. A verticalidade, os letreiros, o vidro, o neon e a presença asiática entraram nesse imaginário porque eram uma possibilidade de futuro naquele momento.
O erro seria acreditar que ainda precisamos imaginar exatamente o mesmo futuro.
Hoje, temos outras perguntas. Inteligência artificial já não é ficção. Crise climática também não. Temos eventos extremos, polarização política, religião e consumo se misturando, algoritmos interferindo na maneira como percebemos o mundo e uma quantidade assustadora de dados sendo produzida sobre cada pessoa.
Guilherme relacionou isso também às ideias de vigilância e performance discutidas em Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han. Em vez de apenas imaginar câmeras nos observando, podemos pensar num mundo em que nós mesmos produzimos, organizamos e exibimos continuamente informações sobre quem somos.
Se quero imaginar 2063, preciso perguntar o que acontece quando as forças do presente continuam avançando.
É aí que começa a nascer um cyberpunk no Brasil.
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Se estamos falando do Brasil, por que destruiríamos o Nilo numa crise climática? Temos Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica, litoral, petróleo, mineração e agronegócio para projetar algumas décadas para a frente.
Isso não significa preencher uma checklist de brasilidade.
Colocar o Cristo Redentor ao fundo não torna uma história brasileira. Também não basta passar uma bola de futebol pela cena e considerar o trabalho encerrado.
Brasilidade pode aparecer no espaço, mas também nos costumes, nas relações e na maneira como as pessoas enxergam o mundo. Está na vizinha que cuida do outro como se fosse parte da família, no convite para tomar um café, na relação com religião, política, dinheiro e comunidade.
No final das contas, mesmo quando um brasileiro tenta imitar uma obra norte-americana ou japonesa, ainda existe um brasileiro escrevendo.
Isso inevitavelmente aparece.
Uma coisa que me incomodou na conversa foi perceber como ainda buscamos primeiro referências estrangeiras.
Quando Guilherme começou a divulgar 2063: Estado Artificial, muita gente relacionou o livro a jogos e obras internacionais. Poucas pessoas lembraram de autores brasileiros.
Falamos, por exemplo, de Olhos de Pixel, de Lucas Mota, uma ficção científica brasileira que trabalha personagens, identidade e brasilidade de um jeito muito próprio. Também surgiu Brasil Despedaçado: Contos de um Futuro Distópico, organizado por Thiago Cabello, que imagina diferentes momentos de um Brasil futuro.
Em outro momento da conversa, lembrei ainda de John McLoving e a Busca do Mijo da Vida, de Mickael Menegheti, livro que editei anos atrás e que trabalha história alternativa misturando faroeste, Brasil, religiosidade e uma realidade política completamente reconstruída.
Nosso mercado literário não precisa funcionar como uma grande competição. Pode funcionar como uma rede. Quem lê um autor encontra outro.
A ficção científica brasileira continua muito nichada. Talvez justamente por isso precisemos conversar mais sobre ela.
Em 2063: Estado Artificial, Guilherme pega questões do presente e empurra um pouco para a frente.
Temos um assassino de aluguel com um passado trágico envolvido numa conspiração que mistura religião, inteligência artificial, poder político e agronegócio. A Ilha de Marajó se transforma num enorme data center. A Amazônia enfrenta uma transformação ambiental radical. O Rio de Janeiro mudou. Existem migrantes climáticos vindos do Sul do país.
O assustador é que, durante nossa conversa, chegamos à conclusão de que algumas coisas talvez nem precisem esperar até 2063.
Guilherme achava que estava sendo pessimista. Talvez estivesse sendo otimista.
A distopia também conversa com tradições anteriores do gênero, como 1984, de George Orwell, mas o livro busca trazer essas questões para uma realidade reconhecivelmente brasileira.
Mesmo assim, a tecnologia não é o coração da história. Há uma pergunta sobre perdão, memória e até onde alguém está disposto a atravessar seus limites éticos em nome de uma crença.
Isso importa porque nenhuma quantidade de hologramas salva uma história sem personagens.
Uma das coisas que sempre me interessam quando leio ficção científica é justamente essa possibilidade de vestir o personagem e experimentar um futuro através dele.
Podemos ter inteligências artificiais, megacorporações, cidades destruídas ou implantes no corpo. No fim, quero saber o que aquilo faz com alguém.
Guilherme trabalha muito com memória. Já fazia isso em A Condenação da Memória e continua em 2063: Estado Artificial. Quem somos é também aquilo que lembramos, a maneira como interpretamos o que vivemos e as marcas que essas experiências deixaram.
O futuro só importa porque alguém terá que viver nele.
Talvez seja esse o caminho mais interessante para escrever cyberpunk no Brasil: olhar para o país que já temos, identificar as forças que estão mudando nossa vida e perguntar onde elas podem chegar.
Depois, colocar uma pessoa no meio disso. Pode ter neon também.
***
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