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Vilto Reis · Aug 7, 2026

Como escrever personagens adolescentes sem infantilizar

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Vilto Reis · Vilto Reis

Cena do filme As vantagens de ser invisível, com bons personagens adolescentes.

Escrever personagens adolescentes parece simples até começarmos a observar quantas vezes a literatura cai em dois extremos. De um lado, há jovens que falam, pensam e compreendem o mundo como adultos experientes. Do outro, aparecem personagens completamente ingênuos, incapazes de perceber o que acontece ao redor e colocados na história apenas para receber alguma lição.

Nenhuma dessas versões representa bem a adolescência.

Um adolescente pode demonstrar maturidade diante de uma situação e agir de maneira impulsiva na seguinte. Pode compreender um problema intelectualmente sem possuir repertório emocional para lidar com ele. Isso também acontece com adultos, claro, embora na adolescência as contradições sejam mais visíveis porque quase tudo parece estar em formação ao mesmo tempo.

Foi sobre esse equilíbrio que conversei com Juliana Daglio, escritora e psicóloga, durante uma live no meu canal. O ponto de partida foi seu romance Os Seis Segredos da Minha Irmã, que acompanha personagens adolescentes atravessadas por luto, identidade, exposição online e uma investigação sobre a morte de uma jovem conhecida na internet.

Uma das primeiras observações de Juliana foi que o escritor não pode olhar para personagens adolescentes de uma posição de superioridade. Quando o autor se coloca como alguém que já compreendeu tudo e deseja apenas transmitir uma mensagem, a história começa a tratar o jovem como inferior. E o leitor percebe.

É comum que adultos escrevam adolescentes pensando apenas nas próprias memórias. Essas lembranças são importantes, mas o mundo mudou. Ser adolescente em 2004 não é igual a ser adolescente hoje. A internet, as redes sociais e a exposição constante criaram novos conflitos, embora algumas questões permaneçam.

A busca por identidade continua sendo central.

O corpo muda, os sentimentos se intensificam e o adolescente deseja ser reconhecido como adulto ao mesmo tempo que ainda recebe tratamento de criança. Cobra-se responsabilidade, mas nem sempre se oferece autonomia. Exige-se maturidade, mas muitas decisões continuam sendo tomadas por outras pessoas.

Essa confusão precisa aparecer nos personagens adolescentes. Eles querem pertencer a um grupo, mas também desejam construir uma identidade própria. Querem ser vistos, embora muitas vezes não saibam qual versão de si mesmos desejam apresentar.

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Existe uma tendência de limpar a adolescência na ficção. Personagens não falam palavrão, não entram em contato com drogas, não vivem a sexualidade e parecem protegidos de tudo aquilo que realmente circula entre os jovens.

Isso produz uma narrativa artificial.

Representar um comportamento não significa apoiá-lo. O papel do ficcionista não é distribuir cartilhas de boa conduta. É observar a realidade, transformá-la em conflito e permitir que as consequências façam parte da história.

Juliana comentou que uma das maiores dificuldades durante a escrita foi equilibrar o livro para que adolescentes se reconhecessem sem que adultos sentissem que a narrativa incentivava determinados comportamentos. Essa insegurança não estava exatamente no que ela havia escrito, porque as escolhas eram conscientes e passaram pela leitura de outras pessoas. O receio estava na recepção.

Na internet, qualquer trecho pode ser retirado do contexto e transformado em outra coisa.

Ainda assim, evitar temas difíceis para impedir uma interpretação equivocada enfraquece a ficção. Uma história não precisa explicar ao leitor o que ele deve pensar. Pode mostrar uma situação, criar desconforto e abrir espaço para a discussão.

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Quando escrevemos personagens adolescentes hoje, a internet não pode surgir apenas como decoração. Ela interfere na formação da identidade, nas relações e até na maneira como uma pessoa compreende a si mesma.

Juliana contou que começou a pensar em Os Seis Segredos da Minha Irmã depois de encontrar perfis de menores de idade falando sobre crimes violentos e outros temas que pareciam incompatíveis com aquela fase da vida. Isso a fez lembrar da própria adolescência, quando teve acesso a imagens terríveis na internet, entre elas fotos do acidente com os Mamonas Assassinas.

O acesso precoce a esse material mexeu com ela.

Hoje, além de consumir conteúdos assim, adolescentes também os produzem. Criam perfis, utilizam pseudônimos e formam comunidades nas quais as pessoas conhecem apenas uma versão daquela identidade. Fora da internet, o jovem pode ser tímido, silencioso ou inseguro. Atrás de um codinome, pode assumir outra personalidade.

Essa fragmentação ajudou Juliana a construir o romance. Vitória, a adolescente morta antes do início da história, possuía uma vida familiar e outra identidade no TikTok, onde era conhecida como Vick Salamandra. Depois da morte, a irmã Alice tenta provar que ela não se suicidou, enquanto Gabriela, amiga virtual de Vitória, apresenta informações que a família desconhecia.

A investigação não busca apenas descobrir quem matou Vitória. Ela também tenta descobrir quem Vitória era.

Ainda existe uma ideia equivocada de que livros para jovens precisam ser mais rasos. A linguagem pode ser acessível, mas isso não significa abandonar símbolos, ambiguidades ou conflitos complexos.

Juliana contou que ganhou segurança para publicar o livro depois de conversar com uma turma do terceiro ano do ensino médio. Os adolescentes só passaram a prestar atenção quando ela começou a falar com eles como pessoas capazes de compreender obras profundas e discutir terror sem condescendência.

Eles conheciam filmes clássicos, haviam assistido a diferentes franquias e queriam conversar seriamente sobre suas preferências.

Às vezes, o adulto se esquece da intensidade com que vivia as coisas na adolescência. Juliana lembrou de ouvir “Vento no Litoral”, da Legião Urbana, e visualizar toda a paisagem descrita na música. Não era apenas uma canção. Ela entrava naquela imagem e sentia a dor de quem estava ali.

Personagens adolescentes possuem essa intensidade.

Eles podem interpretar símbolos, viver emoções de maneira visceral e atribuir um peso enorme a uma música, uma amizade ou um comentário feito por alguém. Reduzir isso a ingenuidade é perder uma das características mais fortes dessa fase.

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Confesso que já torci o nariz para livros cheios de mensagens de WhatsApp. Minha primeira reação foi pensar que aquilo não era literatura, embora eu provavelmente tenha usado palavras menos gentis na época.

Paguei com a língua.

Em Os Seis Segredos da Minha Irmã, mensagens, e-mails, comentários e emojis fazem parte da narrativa. Não aparecem apenas porque adolescentes usam essas ferramentas, mas porque algumas informações só poderiam chegar daquela maneira.

Juliana planejou esses recursos com cuidado. Se tentasse reproduzir fielmente a rotina virtual de um jovem, quase todo o romance se passaria dentro de aplicativos. Ela precisava escolher quando usar uma conversa direta, quando resumir uma interação e quando permitir que comentários de um vídeo contassem uma história sozinhos.

Um emoji pode ter função narrativa.

Uma sequência de datas, respostas e símbolos pode revelar mudança de comportamento, perseguição ou intimidade sem que o narrador precise explicar nada. O recurso funciona quando contribui para a história, não quando aparece apenas para deixar o texto com uma aparência jovem.

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Outro desafio foi criar uma investigação conduzida por adolescentes sem transformar a história num episódio de Scooby-Doo. Jovens não possuem acesso livre a laudos, depoimentos policiais e documentos oficiais.

Por isso, a investigação precisa acontecer no campo ao qual eles têm acesso: relações pessoais, redes sociais, mensagens, lembranças, contradições e segredos escondidos pelos adultos.

A motivação também precisa ser forte.

Alice não investiga apenas por curiosidade. Ela deseja defender a memória da irmã e compreender uma pessoa que talvez nunca tenha conhecido de verdade. Gabriela traz a identidade online de Vitória, enquanto Alice conhece sua vida familiar. As duas precisam unir fragmentos de uma mesma pessoa.

Essa limitação fortalece a história porque obriga as personagens adolescentes a investigar de uma maneira coerente com quem são.

Juliana contou que o processo de edição foi importante porque revelou vícios de escrita que ela não pretende levar para o próximo livro. Ela estava preparada para uma experiência pior, embora tenha encontrado outro tipo de dificuldade.

Editar exige aceitar que existem profissionais trabalhando para fortalecer o texto. Muitos autores resistem porque sentem que cada frase representa uma decisão definitiva, mas a ideia não é apagar a voz do escritor. É eliminar ruídos que impedem o leitor de chegar até ela.

Como editor do livro, uma das coisas que mais me atraiu foi a construção de Vitória. A protagonista está morta, mas permanece presente durante toda a narrativa. Cada descoberta modifica a imagem que o leitor construiu dela.

Depois de certa experiência, fazer personagens sofrerem também se torna mais difícil. No começo, muitos escritores parecem gostar de lançar tragédias sobre suas criações. Com o tempo, passamos a pensar: essa pessoa realmente precisa passar por tudo isso?

Às vezes, precisa. Vitória passou.

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Escrever personagens adolescentes exige reconhecer que eles não são projetos incompletos de adultos. Eles já são pessoas, com desejos, contradições, medos e formas próprias de perceber o mundo.

A narrativa não precisa ensiná-los a viver, mas colocá-los diante de escolhas.

Quando o escritor observa a adolescência sem superioridade, aceita sua intensidade e compreende a internet como parte da vida, os personagens deixam de parecer versões reduzidas de adultos. Eles ganham voz, profundidade e autonomia.

Talvez o melhor caminho seja lembrar que nenhum adolescente quer abrir um livro e perceber que o autor está tentando educá-lo.

Ele quer entrar na história. E permanecer nela porque se reconheceu, mesmo sem perceber.

***

Se você escreve fantasia, terror, ficção científica ou outras vertentes da literatura fantástica e quer desenvolver personagens adolescentes com mais profundidade, fica o convite para conhecer o Laboratório de Escrita de Literatura Fantástica. É um espaço de aulas, prática, leitura e acompanhamento para quem deseja transformar ideias em histórias mais conscientes, evitando personagens rasos, conflitos artificiais e soluções moralizantes.

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Read the original on viltoreis.substack.com

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