Crimes ritualísticos, sociedades secretas, textos antigos, símbolos desenhados numa parede. A religião no suspense oferece uma quantidade enorme de elementos para construir mistério. Talvez por isso mesmo seja tão fácil cair no exagero e transformar a narrativa numa sequência de enigmas que parecem mais uma prova de conhecimento religioso do que uma história.
Em minha última live semanal no Youtube, foi sobre isso que conversei com Cristiano Alves, escritor e jornalista, autor de Décimo Primeiro Mandamento, livro que tive o prazer de editar.
A questão que mais me interessa não é simplesmente colocar religião dentro da história. É entender o que ela faz com os personagens. Fé pode justificar uma decisão, criar culpa, organizar uma comunidade, estabelecer hierarquias e até oferecer a alguém uma explicação moral para cometer algo terrível.
Quando isso acontece, a religião deixa de ser decoração e entra no conflito.
Às vezes encontramos uma cruz numa cena de crime, algumas passagens bíblicas, um manuscrito misterioso e pronto: aparentemente temos um thriller religioso.
Só que esses elementos precisam interferir na narrativa.
Cristiano lembrou de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, como um exemplo em que religião, poder e investigação estão realmente misturados. Não existe apenas uma ambientação religiosa. As crenças dos personagens influenciam suas ações e o próprio mistério.
Outro caminho interessante é trabalhar com personagens que acreditam sinceramente estar cumprindo uma missão divina. Eles não precisam se considerar vilões. Pelo contrário, talvez enxerguem suas ações como necessárias.
Essa diferença é importante.
Um antagonista que faz algo terrível apenas porque é mau costuma ser menos interessante do que alguém que construiu uma lógica capaz de justificar aquilo para si mesmo.
Foi justamente essa direção que Cristiano seguiu em Décimo Primeiro Mandamento. O antagonista interpreta a própria fé de maneira distorcida e transforma os Dez Mandamentos na linha condutora de seus crimes.
Confesso que gosto muito de organizações que nem precisam ser oficialmente religiosas, mas começam a ganhar essa configuração. Existe um líder, um ritual de entrada, símbolos próprios, uma crença compartilhada e alguma ideia capaz de organizar o comportamento dos membros.
Isso oferece muita coisa para o suspense.
Em A Oitava Garota, de Willian Bezerra, por exemplo, existe uma seita que não vou detalhar porque estragaria a experiência de quem ainda pretende ler. O importante é perceber como uma organização desse tipo oferece não apenas ameaça, mas também uma rede de pistas.
Nós pensamos simbolicamente. Uma marca deixada numa parede pode produzir perguntas imediatamente: quem fez aquilo? O que significa? Onde apareceu antes? Quem reconhece aquele símbolo?
Em Décimo Primeiro Mandamento, os crimes estão associados aos mandamentos, mas durante nossa conversa Cristiano comentou que determinado numeral deixado numa cena acabou adquirindo um peso ainda maior.
Isso é interessante porque a pista não precisa explicar. Ela precisa fazer o leitor procurar uma explicação.
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Uma referência que apareceu durante a live foi Seven. Os sete pecados capitais sustentam toda a lógica dos crimes, mas o filme não precisa ficar explicando religião o tempo inteiro.
Você acompanha um psicopata e uma investigação.
A estrutura religiosa continua ali por baixo.
Esse talvez seja um dos caminhos mais interessantes para usar religião no suspense. Em vez de declarar cada significado, podemos permitir que símbolos e crenças apareçam por meio das ações.
O próprio reconhecimento do leitor pode trabalhar a nosso favor. Uma cruz ou os Dez Mandamentos carregam informações anteriores à história porque fazem parte de um repertório cultural compartilhado.
Só precisamos tomar cuidado para não escolher o símbolo mais conhecido e repetir exatamente a interpretação que todo mundo espera.
O desafio continua sendo fugir do literal.
Essa pergunta apareceu no chat e não existe uma resposta simples.
Religião é um elemento cultural enorme da humanidade. Deixar de escrever sobre ela para evitar qualquer conflito seria ignorar uma parte fundamental das sociedades que tentamos representar.
Ao mesmo tempo, algumas crenças, símbolos e tradições exigem pesquisa. Quando não fazemos esse trabalho, corremos o risco de misturar elementos que não pertencem àquela cultura ou construir uma representação baseada apenas em preconceitos.
Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, surgiu na conversa justamente porque mostra como uma obra literária pode extrapolar completamente a discussão estética e provocar consequências muito concretas para o autor.
Não estou dizendo que devemos escrever com medo.
Estou dizendo que precisamos saber sobre o que estamos escrevendo.
E, dependendo da história, conversar com alguém que conheça aquela religião pode evitar erros que o autor simplesmente não consegue enxergar sozinho.
Isso aconteceu durante meu trabalho em Décimo Primeiro Mandamento.
Havia uma cena envolvendo o assassinato de uma personagem religiosa que Cristiano mesmo definiu durante nossa conversa como escrita “com o fígado”. O trecho estava pesado, mas o principal problema não era a violência.
O ódio presente na cena parecia direcionado à religião da vítima, quando o conflito deveria estar direcionado àquela pessoa.
Foi quando acendi a luz vermelha.
Não precisávamos eliminar a cena nem descaracterizar a história. Precisávamos ajustar a maneira como aquilo estava sendo dito e criar contrapontos para que uma personagem não passasse a representar, sozinha, toda uma religião.
Esse tipo de situação também mostra por que é tão difícil editar o próprio livro. Cristiano contou que havia lido o manuscrito mais de cem vezes e achava que estava tudo certo. Quando o texto passou por outros profissionais, vários pontos apareceram.
Eu também preciso mostrar aquilo que escrevo para outras pessoas.
Existe uma cegueira natural diante do próprio texto. Às vezes enxergamos facilmente o problema no livro de outra pessoa e passamos cinquenta vezes pelo mesmo problema no nosso.
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Outra coisa de que gostei em Décimo Primeiro Mandamento é que a história acontece em Joinville.
Cristiano trabalhou como jornalista de segurança pública na cidade. Conhecia procedimentos, acompanhava o trabalho policial e teve contato com profissionais do IML. Um deles acabou servindo de inspiração para um personagem do livro.
Ele escreveu sobre um espaço em que tinha experiência.
Isso parece óbvio hoje, mas durante muito tempo escritores brasileiros pareciam acreditar que um policial interessante precisava estar em Nova York ou Londres. Nossa própria imagem do investigador vem muito de referências como Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle.
Só que podemos transformar essas referências.
Mandrake, de Rubem Fonseca, foi uma referência importante para Cristiano justamente porque transporta a investigação e o noir para uma realidade brasileira.
Também lembrei durante a conversa de Dentro do Bosque, de Ryūnosuke Akutagawa, construído a partir de diferentes depoimentos sobre um crime. É uma lembrança de que as formas de contar mistérios sempre foram mais variadas do que o modelo policial anglo-americano que consumimos com tanta frequência.
Talvez o ponto central seja separar religião de simples iconografia.
A fé pode fazer uma pessoa suportar algo terrível. Pode também convencê-la de que está autorizada a fazer algo terrível. Pode gerar comunidade, culpa, esperança, controle, sacrifício, pertencimento ou fanatismo.
Tudo isso é material narrativo.
Usar religião no suspense funciona melhor quando a pergunta deixa de ser “qual símbolo assustador posso colocar nesta cena?” e passa a ser “no que este personagem acredita e o que essa crença é capaz de fazê-lo escolher?”.
Aí começamos a construir suspense de verdade.
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