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Vilto Reis · Jul 31, 2026

As principais dúvidas ao escrever um livro

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Vilto Reis · Vilto Reis

Muita gente começa a escrever de um jeito bastante intuitivo. Surge uma ideia, aparece uma vontade difícil de ignorar e a pessoa simplesmente começa. Não há método, planejamento ou muita consciência técnica. Existe apenas o impulso de contar uma história.

Penso que isso faz parte do processo.

Todos nós temos algum tipo de contador de histórias dentro de nós. Contamos acontecimentos para amigos, exageramos detalhes, criamos suspense antes de revelar uma notícia, mudamos a ordem das informações para provocar uma reação. Mesmo quem não escreve ficção utiliza recursos narrativos no cotidiano.

As dúvidas ao escrever costumam aparecer depois. Elas chegam com a leitura, com a prática e, principalmente, com o momento em que começamos a perceber que contar uma história exige mais do que ter uma boa ideia. O escritor passa a perguntar se possui talento, se o texto tem qualidade, se deveria escrever em primeira ou terceira pessoa, se precisa planejar uma trilogia, se está sendo original ou se deveria abandonar aquela ideia e começar outra.

Essas perguntas não significam que você está piorando. Em muitos casos, significam justamente o contrário.

Este artigo foi desenvolvido a partir de uma live em que respondi às principais dúvidas ao escrever, reunindo questões que recebo de alunos e escritores há vários anos.

Essa talvez seja uma das dúvidas ao escrever que mais recebo. Ela costuma vir acompanhada de outra pergunta: o que escrevi é bom o suficiente para ser publicado?

Minha resposta curta para quase tudo na escrita é: depende.

Sobre talento, porém, costumo pensar de maneira mais direta. Todos somos capazes de contar histórias. A verdadeira questão não é se você nasceu com uma espécie de dom secreto, mas se está disposto a aprender como uma narrativa funciona.

A escrita criativa é uma técnica. Isso não significa que ela seja uma fórmula ou que exista apenas uma maneira correta de escrever. Significa que há ferramentas, escolhas e caminhos que podem ser estudados. Você pode aprender a construir personagens, controlar informações, organizar cenas, trabalhar a linguagem e perceber por que determinado trecho funciona enquanto outro não produz o efeito desejado.

Costumo falar do ciclo de aprendizagem do escritor. Ele começa pela leitura, mas não apenas pela leitura de livros. É também a leitura da vida, das pessoas, dos conflitos e das coisas que acontecem ao redor. Depois vem o estudo, que pode envolver cursos, entrevistas, eventos literários, livros sobre escrita e conversas com outros escritores.

A prática vem em seguida. Não adianta desejar ser escritor e escrever uma vez por ano. Por fim, existe o feedback. Uma boa leitura crítica não serve para decretar se alguém tem ou não talento. Ela mostra o que está funcionando, o que não está e quais caminhos podem fortalecer o texto.

O parâmetro de qualidade aparece aos poucos. Quem está começando ainda não possui ferramentas suficientes para avaliar tudo o que escreveu. Isso não é um defeito. É apenas uma etapa.

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Publicar significa tornar algo público. Nesse sentido, qualquer pessoa pode publicar um texto independentemente da qualidade.

Quando alguém pergunta se o texto está pronto para entrar numa editora, a questão já fica mais complexa. Editoras são empresas. Elas avaliam qualidade literária, mas também público, potencial de venda, posicionamento, currículo, alcance e adequação ao catálogo.

Existem autores pouco habilidosos que publicam porque já possuem fama. Existem livros muito bons que permanecem anos sem encontrar uma casa editorial. O mercado não é um juiz absoluto de qualidade.

Por isso, em vez de buscar uma certeza impossível, vale desenvolver critérios. Você consegue perceber o conflito da história? Os personagens têm objetivos claros? As cenas avançam? A linguagem está adequada à proposta? Outras pessoas leram e apontaram problemas semelhantes?

Quanto mais você lê, estuda, pratica e recebe retorno, mais condições terá de responder às próprias dúvidas ao escrever.

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Um livro que costumo recomendar para quem está começando é Sobre a Escrita, de Stephen King. Ele motiva bastante e também oferece boas orientações práticas.

Outro livro muito importante para mim é Como Funciona a Ficção, de James Wood. Li várias vezes e foi fundamental para meu desenvolvimento, especialmente para entender focalização, voz narrativa e discurso indireto livre.

Minha grande referência, porém, é Escrever Ficção, de Luiz Antonio de Assis Brasil, que foi meu professor. Ter estudado com ele é uma das realizações de que mais me orgulho no meio literário. Não vejo esse livro apenas como um manual. Ele é uma obra para reler depois de um ou dois anos, porque novas camadas aparecem conforme a experiência do escritor aumenta.

Há também um motivo particular para valorizar autores brasileiros que pensam a escrita criativa. Muitos manuais conhecidos foram escritos em inglês e partem das características daquele idioma. Assis Brasil pensa a ficção em português há décadas, o que faz diferença.

Também gosto de Escrita em Movimento, de Noemi Jaffe, O Lugar das Palavras, de Vanessa Ferrari, e A Preparação do Escritor, de Raimundo Carrero. São livros que ajudam a pensar linguagem, escolha vocabular e processo criativo dentro da nossa língua.

Outra indicação que apareceu durante a conversa foi A Arquitetura da Ficção, de Lua Aranha, uma leitura mais acessível para quem ainda se sente intimidado por manuais extensos.

Eu mesmo tenho um livro sobre escrita quase finalizado há mais de um ano. É um pouco hipócrita dizer que estou escrevendo, porque ele está parado, mas tenho sentido vontade de finalmente lançá-lo. A ideia é oferecer algo mais acessível para quem está começando. Se Escrever Ficção funciona como graduação, mestrado e doutorado, o meu seria o ensino médio e o pré-vestibular.

Talvez falte justamente esse degrau intermediário.

Costumo repetir que o conto é uma escola. Ele ensina a dizer muito com pouco, a controlar o ritmo e a compreender que uma narrativa curta não é apenas um romance reduzido.

O conto possui uma lógica própria. Sua construção é diferente da crônica e do romance. Ao estudar o gênero com profundidade, o escritor aprende a selecionar melhor o que entra na história, perceber o peso de cada cena e trabalhar com maior precisão.

Por isso, começar por contos pode ser muito útil. Não porque sejam necessariamente mais fáceis. Em alguns aspectos, podem ser até mais exigentes. A vantagem é que o escritor consegue terminar projetos, observar o resultado e partir para outra tentativa em menos tempo.

Terminar histórias também é uma forma de aprender.

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A escrita criativa oferece caminhos, não mandamentos. Estruturas como a Jornada do Herói podem ajudar, desde que não sejam tratadas de maneira literal.

Gosto de alguns elementos apresentados por Christopher Vogler em A Jornada do Escritor, principalmente os papéis assumidos pelos personagens secundários. Um personagem pode funcionar como guardião do limiar, protegendo uma informação, um objeto ou uma entrada. Esses papéis são transitáveis e podem ajudar a pensar a função narrativa.

O problema aparece quando o escritor acredita que cada etapa precisa surgir exatamente na mesma ordem. Em arte, não existe um certo e errado absoluto, mas conhecer as soluções que outros escritores usaram ajuda a fazer escolhas conscientes.

Antes de quebrar uma regra, entenda por que ela existe.

Às vezes, alguém apresenta uma suposta grande inovação e basta olhar para a história da literatura para descobrir que os gregos já haviam feito algo parecido. Isso não diminui a ideia. Apenas mostra que a originalidade raramente nasce da invenção de algo completamente novo.

Ela nasce da combinação.

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Durante a faculdade de Publicidade e Propaganda, parei por um tempo para pesquisar o que era criatividade. A síntese a que cheguei foi bastante simples: criar é unir dois ou mais elementos que ainda não haviam sido pensados juntos daquela maneira.

Uma das referências que encontrei nesse período foi Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem, de Marshall McLuhan. Pensar numa cadeira, por exemplo, significa unir uma estrutura de madeira à necessidade de manter o corpo numa posição mais elevada. Depois que a combinação existe, ela parece óbvia, mas alguém precisou enxergar pela primeira vez a relação entre esses elementos.

Na ficção, você pode pegar um drama familiar e colocá-lo na Lua. Pode combinar política, vampiros e universidade. Pode misturar fantasia épica com um conflito muito íntimo.

A combinação, porém, precisa ter sentido.

Misturar coisas aleatórias não basta. A originalidade se fortalece quando essa união toca numa questão humana, social ou emocional relevante. A percepção particular do escritor é o que transforma referências conhecidas numa história própria.

Em vez de se preocupar demais em provar que possui talento ou que inventou algo inédito, observe o que acontece quando suas referências se encontram.

Não existe uma opção melhor.

Há escritores que executam melhor a primeira pessoa e outros que se sentem mais confortáveis na terceira. Eu prefiro escrever em terceira pessoa, especialmente usando o discurso indireto livre.

Nesse recurso, a focalização fica tão próxima do personagem que o narrador quase desaparece. A história está em terceira pessoa, mas o vocabulário, as comparações e a percepção pertencem ao personagem focalizado.

Aprendi muito sobre isso em Como Funciona a Ficção.

Desde meu primeiro livro, Um Gato Chamado Borges, tento trabalhar dessa maneira. Cada capítulo focalizava um personagem diferente. Por isso, eu mudava o vocabulário, as metáforas e a forma de perceber o mundo.

Quando saiu a primeira resenha do livro no YouTube, o rapaz comentou que era possível perceber que eu era um escritor iniciante porque a voz mudava a cada capítulo. Achei curioso, porque era exatamente o que eu pretendia fazer.

Cada capítulo possuía outra voz porque acompanhava outra consciência.

A focalização é uma das grandes forças da literatura. No cinema, vemos os personagens agindo. Na literatura, podemos acompanhar o que eles pensam, sentem e escondem. Essa interioridade é um recurso especial, desde que não transforme a história numa sequência interminável de pensamentos.

Quando comecei, escrevia personagens de 18 ou 20 anos muito parecidos comigo. Eles pensavam demais e eram muito chatos. Com o tempo, aprendi que o personagem também precisa agir, reagir e demonstrar sentimentos por meio dos gestos.

Uma narrativa também pode ser escrita em segunda pessoa. O começo de Clube da Luta, de Chuck Palahniuk, é um exemplo marcante desse recurso. Ainda assim, a segunda pessoa tende a cansar mais facilmente e exige bastante controle para se sustentar por uma obra longa.

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Muitos escritores querem começar por uma trilogia porque cresceram lendo séries. Eu também leio séries e gosto de universos amplos, mas isso não significa que toda história precise de três livros.

Atualmente, por exemplo, tenho lido Os Relatos da Guerra das Tempestades, de Brandon Sanderson. Entre um volume e outro, parei para ler Warbreaker, porque me disseram que seria interessante fazer essa leitura antes de continuar a série. Até o momento, ainda estou seguindo essa recomendação na fé.

Também li recentemente mais um volume das Crônicas Vampirescas, de Anne Rice. Gosto do fato de que, apesar das conexões entre os livros, muitos deles conseguem funcionar individualmente.

É esse modelo que mais me interessa.

Prefiro pensar em histórias independentes que conversem dentro do mesmo universo. Foi o que fiz com Nascida para o Trono, a HQ Fim do Império e o livro de contos Raiz de Sangue Ancestral. Eles compartilham um mundo, mas podem ser lidos separadamente.

Estou seguindo uma lógica parecida no universo de vampiros que desenvolvo com Mari Vieira. Entrevista com o Vampiro Mafioso conta a fundação da Universidade de Vampiros, enquanto outras histórias se passam em períodos diferentes, com novos protagonistas e conflitos próprios.

Os livros se conectam, alguns personagens retornam e há uma sequência possível, mas cada obra precisa se sustentar.

Esse formato facilita a entrada do leitor e também dá liberdade ao escritor. Uma série longa exige planejamento, tempo e compromisso. Antes de prometer três ou cinco volumes, escreva um livro que funcione.

Depois você pensa no império.

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Quase todos os meus alunos dizem que possuem ideias demais. Eu também.

Quando uma ideia surge, ela parece extraordinária. Então eu anoto e tento esquecê-la. Se continuar crescendo, recebendo personagens, cenas e conexões, talvez exista uma história ali.

Gosto de imaginar um balão enchendo. A ideia vai acumulando elementos até chegar o momento em que precisa ser escrita.

O problema é que, quando começamos a trabalhar numa história, o cérebro envia ideias de outras. Minha estratégia é anotar tudo, reconhecer que aquilo não é prioridade e voltar para o projeto atual.

Às vezes, ao terminar um livro, descubro que outra ideia já está quase pronta graças a essas anotações.

É uma forma de hackear o cérebro.

Durante muito tempo, evitei escrever livros em conjunto porque pessoas diferentes podem ter processos criativos muito distintos. Uma gosta de planejar tudo, enquanto a outra prefere descobrir a história durante a escrita. Uma trabalha rapidamente, enquanto a outra precisa de mais tempo para decidir.

Esse desalinhamento pode provocar problemas.

Algumas duplas dividem os personagens e alternam capítulos. Outras escrevem e revisam tudo juntas. Não existe um modelo universal. Assim como numa relação, o que vale é aquilo que funciona para as pessoas envolvidas.

Minha decisão de escrever com Mari Vieira nasceu da sensação de que havia ali uma pessoa com quem eu realmente precisava criar. Temos diálogo, planejamento e compromisso com a mesma história.

Ainda assim, escrever em conjunto exige conversa. Muita conversa.

O melhor horário é aquele que funciona para você.

Minha criatividade é pior à tarde. Pela manhã, consigo escrever melhor, inclusive começando às sete ou oito horas. À noite, às vezes funciona. Quando entro pela madrugada, o cansaço começa a prejudicar bastante.

Também não acredito que o escritor precise estar triste para produzir algo bom. A tristeza pode facilitar o acesso a uma parte emocional e sensível, mas não recomendo que ninguém corra atrás de decepções para melhorar um capítulo.

É possível acessar uma emoção por meio de música, memória, imaginação e envolvimento com os sentimentos dos personagens.

Também é importante descansar. Falo muito sobre prática contínua, mas escrever exige esforço mental. A cabeça pesa. Manter conexão com a história é importante, mas se afastar dela por algum tempo também pode ser.

Tenho o hábito de beber bastante café durante o trabalho. Não sei se deveria recomendar isso, especialmente porque já cheguei a tomar café quase como água. Prefiro recomendar que cada escritor encontre um pequeno ritual que ajude na concentração sem prejudicar a saúde.

Também gosto de celebrar quando termino uma etapa importante. Finalizar a primeira versão de um livro merece uma pizza, um café especial ou outra recompensa que marque aquela conquista.

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Com o tempo, algumas perguntas deixam de incomodar. Outras se tornam mais específicas.

Você pode parar de perguntar se possui talento e começar a se perguntar se determinada focalização funciona. Pode deixar de ter medo da primeira versão e passar a analisar se o conflito sustenta o final. Isso não significa que as dúvidas desapareceram. Significa que você aprendeu a formular perguntas melhores.

Escrever envolve leitura, estudo, prática, feedback e persistência.

Não há um momento em que o escritor finalmente sabe tudo e trabalha sem insegurança. O que existe é uma confiança maior no processo, nas ferramentas e na capacidade de revisar aquilo que não funcionou.

As dúvidas ao escrever fazem parte do caminho. O importante é não permitir que elas sejam usadas como desculpa para evitar a escrita.

Se você escreve fantasia, terror, ficção científica ou outras vertentes da literatura fantástica e quer aprender ao lado de pessoas que também estão desenvolvendo seus projetos, fica o convite para conhecer o Laboratório de Escrita de Literatura Fantástica. É um espaço de aulas, prática, leitura e acompanhamento para quem quer transformar dúvidas em decisões narrativas mais conscientes.

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Read the original on viltoreis.substack.com

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