Sempre que pensamos em folclore brasileiro, voltamos à escola. Lembramos dos desenhos coloridos, das atividades de agosto e daquela lista de criaturas com suas características mais conhecidas. O saci tem uma perna só, a mula sem cabeça solta fogo, o curupira possui os pés virados para trás e a cuca sequestra crianças. Conhecer essas descrições, no entanto, não significa compreender a força narrativa de uma lenda.
O terror não nasce apenas da aparência da criatura. Ele nasce do que aquela história representa, da forma como circulou entre as pessoas e do medo que ajudou a organizar dentro de uma comunidade. Uma lenda pode orientar comportamentos, proteger um lugar, justificar um acontecimento, esconder uma violência ou dar forma a algo que as pessoas ainda não conseguiam explicar.
Por isso, transformar folclore em terror exige mais do que pegar uma criatura conhecida e colocá-la numa cena escura. É preciso entender o que aquela figura carrega, que tipo de medo ela concentra e de que maneira pode interferir na vida dos personagens.
Este artigo nasce de uma conversa que tive no YouTube com Pedro Martins, autor de Do Outro Lado do Folclore e A Velha Casa do Descanso. Tive o privilégio de acompanhar a escrita dos dois livros. No primeiro, trabalhei conto a conto com Pedro. No segundo, além de editar o texto, tenho uma parcela de culpa pela existência da história. Chegaremos a isso.
Antes, precisamos entender por que uma lenda sozinha não segura uma narrativa.
É possível escrever uma cena em que uma mula sem cabeça surge no meio da noite, com fogo saindo do pescoço e os cascos destruindo tudo pelo caminho. A imagem pode ser forte, mas uma imagem forte não mantém o leitor em um livro inteiro.
Quem encontra essa criatura? O que essa pessoa deseja? O que teme perder? Por que estava naquele lugar? Que decisão precisará tomar depois do encontro? Como a presença da mula interfere nos conflitos que já existiam?
Uma narrativa não é apenas uma sequência de aparições extraordinárias. Ela acontece quando personagens tentam alcançar alguma coisa, encontram resistência e são transformados nesse processo. A lenda pode ser o elemento que desestabiliza, ameaça, seduz, protege ou revela alguma verdade, mas precisa entrar numa história que já tenha tensão humana.
Pedro trouxe como exemplo Vozes do Joelma, livro que reúne histórias inspiradas no incêndio do Edifício Joelma, ocorrido em São Paulo. Entre elas está Os 13, de Marcus Barcelos, construída em torno da lenda das treze almas.
Após o incêndio, treze corpos sem identificação foram enterrados em túmulos próximos. A lenda conta que algumas pessoas ouviam gritos vindos desses túmulos e que os sons paravam quando alguém jogava água sobre eles. Com o tempo, visitantes também começaram a fazer pedidos e agradecer pelas graças recebidas.
Pedro já visitou esses túmulos. Perguntei se ele havia jogado água. Ele garantiu que não, embora tenha visto placas de agradecimento deixadas por pessoas que acreditavam ter sido atendidas pelas treze almas.
O mais interessante, porém, é que a novela não se limita a recontar a lenda. Ela acompanha Hamilton, um jovem de origem humilde que perdeu a mãe, não conheceu o pai e começa a trabalhar no cemitério. A presença das treze almas encontra a revolta dele e modifica sua relação com o mundo.
As almas importam, claro. Só que Hamilton também.
Quando pensamos em histórias com grandes monstros, às vezes esquecemos que a narrativa costuma ser sobre as pessoas atingidas por eles. Drácula não é apenas uma história sobre o conde. É uma história sobre os personagens que encontram o vampiro, sofrem sua influência e precisam reagir àquilo que ele representa.
O mesmo acontece em muitos livros de Stephen King. Existe uma criatura, uma assombração ou uma força difícil de explicar, mas a permanência da história depende das pessoas que circulam ao redor dela. Das amizades, famílias, culpas, perdas e feridas que já existiam antes do horror aparecer.
Isso também vale para o folclore. O escritor pode se encantar pela aparência da criatura e esquecer que o leitor precisa se importar com alguém. A lenda pode ameaçar, seduzir, proteger, punir ou revelar alguma coisa. Sua função é colocar pressão sobre os personagens e obrigá-los a mostrar quem são.
O monstro movimenta a história, mas o conflito humano dá sentido a esse movimento.
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Uma das maiores forças do folclore brasileiro está na relação entre as criaturas e as comunidades que mantiveram essas histórias vivas. Lendas não surgem isoladas. Elas refletem crenças compartilhadas, relações de poder, formas de repressão e tentativas de explicar aquilo que uma sociedade não queria ou não conseguia nomear diretamente.
Durante a conversa, lembrei de Xuxa Preta, de Alan de Sá. O livro reúne quatro contos em torno de uma lenda urbana sobre uma mulher negra que sequestrava crianças. Por trás da figura assustadora, surgem discussões sobre cor, marginalização, infância e violência social.
Pedro também falou de um conto de Do Outro Lado do Folclore inspirado no velho do saco, chamado de papa-figo em algumas regiões. Crianças começam a desaparecer, a polícia não consegue encontrar o responsável e a comunidade direciona sua suspeita para um homem inocente.
O medo exige um culpado, e nem sempre a pessoa escolhida possui qualquer relação com o crime.
A lenda, nesse caso, permite discutir a facilidade com que uma comunidade transforma alguém em monstro. O sobrenatural não apaga a violência social. Ele a revela.
É nesse ponto que o folclore em terror ganha força. A criatura deixa de ser apenas uma figura assustadora e passa a carregar o medo coletivo que a criou.
A cuca costuma ser apresentada como uma bruxa com aparência de jacaré. Quando olho para essa figura, penso também numa benzedeira que foi transformada em monstro. Uma mulher afastada do centro da comunidade, vivendo perto da floresta, conhecendo ervas, rituais e práticas que outras pessoas não compreendem.
Quantas mulheres reais não foram perseguidas ou condenadas porque detinham algum conhecimento que escapava ao controle institucional?
O boto também carrega uma violência escondida. A lenda conta que ele se transforma num homem sedutor, aparece nas festas e engravida mulheres antes de retornar ao rio. Durante muito tempo, essa história ofereceu uma explicação mágica para gravidezes sem paternidade reconhecida.
Só que a ausência do pai pode esconder abandono, abuso, relações proibidas ou o exercício de uma liberdade feminina que a comunidade não aceitava. A fantasia não elimina a realidade. Muitas vezes, ela é a forma encontrada para falar da realidade sem falar diretamente.
Quando um escritor pesquisa o contexto de uma lenda, encontra muito mais do que uma criatura. Encontra conflitos capazes de sustentar personagens, decisões e consequências.
Uma história contemporânea não precisa reproduzir cada característica de uma lenda como se estivesse preenchendo uma ficha escolar. Ao mesmo tempo, também não pode mudar tudo sem critério.
É preciso encontrar um equilíbrio entre reconhecimento e novidade. O leitor precisa perceber a origem da criatura, mesmo quando ela aparece sob outra forma. Alguma transformação, porém, deve justificar a existência daquela nova narrativa.
Pedro citou o filme Céu Vermelho-Sangue. Nele, o vampirismo é tratado de maneira próxima a uma doença. A protagonista utiliza um medicamento para controlar a transformação e viaja em busca de um tratamento mais eficaz.
A lógica religiosa tradicional perde espaço. O alho e a cruz já não ocupam o centro da defesa. Diante de um medo contemporâneo ligado ao corpo, à doença e à ciência, a resposta também passa pela ciência.
Essa mudança funciona porque conversa com o nosso tempo. Há cem anos, o vampiro poderia representar a noite, o desejo proibido e aquilo que deveria ser combatido pela religião. Hoje, pode representar contaminação, transformação genética ou perda de controle sobre o próprio organismo.
As criaturas mudam porque os medos também mudam.
Isso vale para qualquer tentativa de transformar folclore em terror. A criatura precisa continuar reconhecível, mas também deve conversar com a época, o cenário e os personagens da nova história.
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Durante a conversa, Pedro usou como contraponto os vampiros brilhantes de Crepúsculo. Ele reconheceu a coragem da mudança, mas admitiu que nunca conseguiu comprar a ideia de um vampiro que brilha como diamante sob o sol.
Eu precisei lembrá-lo de uma coisa simples: o público de Stephenie Meyer gostou. Nós é que não somos necessariamente o público dela.
Isso mostra que a relação entre tradição e mudança também envolve expectativa. Uma transformação pode parecer absurda para determinados leitores e funcionar perfeitamente para outros. O importante é que exista coerência com a proposta, o tom e o público da obra.
Mudar apenas para parecer original costuma produzir uma ideia vazia. Mudar porque a história exige outra função pode fortalecer a criatura.
A pergunta não deve ser apenas “o que ainda não fizeram com essa lenda?”. É melhor perguntar “o que essa nova versão permite dizer sobre o mundo em que vivemos?”.
Outra leitura interessante do contexto social aparece no começo de Drácula. Jonathan Harker viaja para o Leste Europeu e recebe vários avisos de moradores locais. As pessoas dizem que ele não deveria seguir para o castelo.
Mesmo assim, ele continua.
Para um leitor contemporâneo, a decisão pode parecer apenas estúpida. O personagem recebeu alertas suficientes e escolheu ignorá-los. Quando observamos a posição social de Harker, porém, a situação ganha outra camada.
Ele é um homem instruído, vindo de um centro considerado civilizado, viajando a trabalho. Os avisos partem de pessoas simples, ligadas a crenças locais e tratadas como supersticiosas.
Harker não ignora os alertas por falta de informação. Ignora porque não reconhece aquelas pessoas como fontes legítimas de conhecimento.
O terror começa também nessa arrogância.
Esse conflito aparece em muitas narrativas ligadas ao folclore. Uma pessoa chega de fora, despreza a tradição da comunidade e descobre tarde demais que os moradores sabiam exatamente do que estavam falando. A lenda, nesse caso, também protege um saber local.
Tenho uma relação pessoal com as histórias de bruxas do litoral catarinense. Minha mãe cresceu em Tijucas, perto de Florianópolis, e eu passei a infância ouvindo causos que vinham da cultura açoriana da região.
Não eram apenas as bruxas genéricas dos contos europeus. Havia a história de que, quando alguém deixava uma tesoura aberta sobre a mesa, a primeira pessoa que a fechasse poderia ser uma bruxa. Também se dizia que mariposas eram bruxas disfarçadas.
Uma vizinha da minha mãe teve um bebê doente, e alguém afirmou com toda a certeza que aquilo era obra de bruxaria.
Essas histórias não estavam num livro didático. Circulavam entre pessoas que contavam os fatos como possibilidades reais.
Durante uma das conversas de acompanhamento de Do Outro Lado do Folclore, contei alguns desses causos ao Pedro. Ele guardou aquilo. Escritor é assim. Uma história entra na cabeça e pode ficar anos esperando até encontrar o lugar certo.
Mais tarde, uma amiga lhe enviou O Fantástico na Ilha de Santa Catarina, de Franklin Cascaes, uma importante pesquisa sobre as lendas e crenças da região. A semente começou a crescer.
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A primeira ideia de Pedro era escrever um conto. Só que a história foi aumentando enquanto ele organizava os personagens, o cenário e os conflitos. Em determinado momento, ficou claro que aquele material exigia uma narrativa mais longa.
Assim nasceu A Velha Casa do Descanso.
Pedro também viajou para Florianópolis. Não apenas para pesquisar, porque escritores também precisam admitir que gostam de passear, mas aproveitou a viagem para observar espaços e conhecer mais de perto as histórias locais.
Uma das lendas que mais o impressionaram foi a do Salão das Bruxas de Itaguaçu. Segundo o causo, as bruxas organizaram uma festa na praia e esqueceram de convidar o diabo. Em algumas versões, deixaram o chefe de fora de propósito, o que me parece a maneira correta de organizar uma boa festa.
Quando descobriu, o diabo apareceu furioso e transformou todas elas em pedras.
A praia de Itaguaçu possui formações rochosas que passaram a representar essas bruxas petrificadas. A lenda está incorporada ao espaço. Há estátuas e placas contando a história, numa relação em que paisagem e memória já não podem ser separadas.
Esse material ajudou Pedro a construir seu romance.
A Velha Casa do Descanso acompanha seis jovens de Curitiba que viajam para Florianópolis. Eles passam alguns dias na casa da falecida avó de Ricardo, localizada numa vila fictícia e isolada da parte urbana da ilha.
Ricardo ainda está abalado pela morte da avó. Quando chega ao lugar, descobre que talvez seja possível trazê-la de volta.
Enquanto ele se aproxima dessa possibilidade, André, seu namorado, começa a investigar a vida da mulher e percebe que ela não era quem parecia. A avó escondia segredos, mentiras e uma parte da vida que a família desconhecia.
As duas linhas acabam entrando em rota de colisão.
O livro reúne o folclore das bruxas catarinenses, a estrutura dos filmes slasher e aquilo que costumo chamar de histórias sobre grupos de jovens indo fazer besteira. Só que Pedro transportou esse modelo para uma paisagem mais próxima da nossa realidade.
Em vez de uma cabana norte-americana isolada nas montanhas ou à beira de um lago, temos uma casa numa vila litorânea. A transposição funciona porque não muda apenas a decoração. Muda a cultura, o clima, o espaço e o tipo de ameaça.
O romance é protagonizado por um casal gay. Isso não deveria ser uma novidade, mas ainda é quando olhamos para determinadas tradições do terror.
Durante décadas, personagens gays apareceram como as primeiras vítimas, como figuras secundárias ou como alívio cômico. Estavam na história para morrer, fazer uma piada ou ajudar o protagonista heterossexual.
Ricardo e André não ocupam esses lugares. Eles são pessoas contraditórias, com desejos, medos, erros e conflitos próprios. A relação entre os dois interfere na trama. Eles também enfrentam tensões com Caio, o famoso hétero top do grupo, levado para a viagem pela namorada.
Essa escolha não está separada do terror. Ela atualiza quem pode ocupar o centro de uma narrativa desse tipo.
Pedro lembrou uma temporada de American Horror Story que homenageia os slashers dos anos 1980. A série revisita uma cena típica do gênero, em que um homem observa mulheres tomando banho por uma fresta, e troca o objeto do desejo. Agora, um personagem gay observa outros homens.
Não se trata apenas de inverter uma piada. A mudança revela quem sempre teve permissão para desejar e quem costumava permanecer fora do enquadramento.
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Quando perguntei a quem Pedro recomendaria A Velha Casa do Descanso, ele respondeu que o livro é para quem gosta de terror, de cultura brasileira e está disposto a desafiar alguns dos próprios pudores.
Todos carregamos tabus internalizados. A escrita pode ser uma forma de encontrá-los, testá-los e perceber de onde vieram. O escritor coloca alguma coisa íntima no texto, mesmo quando trabalha com monstros, bruxas, fantasmas ou mortos que talvez retornem.
Escrever é se despir, não no sentido de contar toda a própria vida, mas de revelar escolhas, medos, desejos e perguntas que talvez não aparecessem em outra situação.
O terror amplia esse processo porque nos obriga a olhar para aquilo que tentamos esconder.
Transformar folclore em terror não é copiar uma lenda e acrescentar sangue. Também não é descrever uma criatura com mais detalhes ou colocá-la num cenário escuro.
É entender o que aquela história organizava dentro de uma comunidade. Que medo ela representava? Quem protegia? Quem culpava? Que violência escondia? Que comportamento tentava controlar? Por que continuou sendo contada?
Depois, precisamos encontrar personagens capazes de atravessar esse conflito.
A mula sem cabeça, a cuca, o boto, o velho do saco, a Matinta Pereira e as bruxas do litoral não devem entrar numa narrativa apenas para provar que o autor conhece o folclore brasileiro. Elas precisam interferir nas escolhas, nas relações e nas perdas dos personagens.
A criatura deve trazer algo que nenhuma outra traria da mesma maneira. Quando isso acontece, o folclore em terror deixa de ser uma combinação de palavras-chave e passa a ser uma estratégia narrativa.
A lenda deixa de ser decoração e volta a ser uma história viva.
Se você quer estudar folclore, terror, construção de personagens e outras formas de literatura fantástica, fica o convite para conhecer o Laboratório de Escrita de Literatura Fantástica. É um espaço de aula, prática, leitura e troca para quem quer transformar pesquisa e ideias em histórias que funcionem na página.

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