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BIANA · Oct 19, 2025

Se a arte não nasce do humano, não transforma o humano — e não é arte.

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BIANA · BIANA

Vivemos um momento em que a tecnologia expande vertiginosamente as possibilidades de criação — mas, junto com elas, aprofunda dilemas políticos e existenciais. Walter Benjamin já advertia que, na era da reprodutibilidade técnica, sem nenhum valor ritual tradicional, a arte seria inerentemente baseada na prática da política. Em outras palavras, toda arte — sobretudo quando circula em massa — é também um campo de disputa ideológica.

É nessa encruzilhada entre tecnologia e comunicação que me coloco: sou cientista social, artista e comunista. E foi a arte, antes de qualquer teoria, que me transformou. Ela me deu uma fome de mundo — uma urgência de compreender e agir sobre a realidade — que permanece até hoje, mesmo quando mergulho nos textos mais abstratos. Provavelmente foi justamente o que impulsionou tal mergulho. E essa fome é o que me move hoje, e é também o que me faz temer o risco que corremos: o de perder, junto com o potencial revolucionário da arte, a própria experiência de transformação que ela carrega.

É por isso que volto o olhar à dimensão formativa da comunicação política. Em breve, veremos campanhas políticas inteiras compostas por imagens geradas por inteligência artificial — e talvez, com um gosto amargo, as compartilhemos, sentindo que já perdemos a batalha antes mesmo de lutar. Este texto nasce como uma tímida tentativa de resistir a essa sensação de impotência. Não é um diagnóstico frio, mas uma tentativa de pensar por que o modo como nos comunicamos — e as formas visuais que escolhemos — moldam os sujeitos políticos que queremos formar. Afinal, não existe arte nem comunicação neutra. Toda imagem, todo som, todo gesto carrega uma intenção, uma visão de mundo. O problema, portanto, não é apenas o conteúdo das mensagens políticas, mas o processo que as produz.

Antes de seguir, é preciso uma breve ressalva: este texto não se propõe a debater as questões éticas do uso de imagens geradas por IA — debate urgente e longe de ser simples. Há argumentos sólidos que questionam as condições em que essas imagens são geradas: desde a violação de direitos autorais de artistas que jamais consentiram em ter suas obras usadas como base de dados, até a reprodução acrítica de estereótipos coloniais, racistas, capacitistas e misóginos por parte de algoritmos construídos por grandes corporações privadas com interesses próprios, frequentemente muito distantes (quando não diametralmente opostos) dos nossos. E não são poucos os relatos de artistas, sobretudo do sul global, que tiveram seus trabalhos apropriados, diluídos e replicados por máquinas que não conhecem sua história, seus contextos ou suas dores. Isso tudo sem falar do impacto social e ambiental dos usos massivos das inteligências artificiais generativas. No entanto, por mais importante que tudo isso seja — e é — , esse não é o foco do que quero desenvolver aqui. Não por descuido ou desinteresse, mas porque acredito que há uma camada anterior, mais estrutural, que precisa ser enfrentada se quisermos reconstruir os sentidos da comunicação na luta política e da arte como experiência revolucionária.

O que me interessa discutir é como o uso naturalizado — e até entusiasmado — de imagens geradas por IA dentro dos próprios movimentos sociais revela uma concepção empobrecida da arte e da comunicação. Quando tratamos a imagem como simples adorno, como ilustração de uma ideia já pronta, aceitamos que a forma não importa — que ela pode ser terceirizada a um software sem prejuízo político. Mas é justamente aí que mora o perigo: imaginar que o conteúdo pode continuar revolucionário mesmo quando a forma que o veicula já perdeu todo vínculo com a experiência humana e coletiva.

Quero, portanto, discutir a arte enquanto comunicação e a comunicação enquanto processo formativo, não como mero instrumento de convencimento. Interessa-me pensar o que significa criar imagens que não nascem de corpos, de histórias, de territórios, mas de um cruzamento estatístico de pixels — e o que se perde quando o gesto criador deixa de ser vivido.

A arte não representa o real: ela participa da luta pelo real. Produz sentidos, afetos, identidades e formas de ver o mundo. Quando reduzida a produto, perde o que tem de mais político: o processo.

Este texto, portanto, é um convite a lembrar que a forma importa tanto quanto o conteúdo, e que a arte — longe de ser um ornamento final — é um processo vivo de construção coletiva e revolucionária. Porque, se a arte pode ser fabricada por qualquer robô anônimo, indiferente às dores e contradições humanas, então o que resta não é arte — é o colapso do sentido político da arte. Porque a arte é política não pelo tema que aborda, mas pela maneira como se enraíza na experiência humana, pela sua capacidade de dar figura ao invisível, de tornar sensível o que o discurso não dá conta de dizer. No fim, o que resta é a ausência de política travestida de técnica.

E é contra essa ausência que escrevo.

Entre todas as dimensões do fazer político, poucas são tão reiteradamente subestimadas — e tão determinantemente centrais — quanto a comunicação. Dentro da tradição revolucionária, ela nunca foi um campo neutro. Desde os jornais operários do século XIX até as experiências contemporâneas com vídeos curtos e memes de combate, a comunicação sempre foi disputa, pedagogia, convocação e invenção.

Na trajetória dos movimentos comunistas e socialistas do século XX, havia uma compreensão nítida: agitação e propaganda não eram simples ferramentas de divulgação de ideias. Eram, na verdade, formas distintas e complementares de formar consciência revolucionária. A agitação, voltada a públicos mais amplos, buscava acender a centelha do conflito, o desconforto com a ordem vigente, o desejo urgente por mudança. A propaganda, mais densa, buscava aprofundar conceitos, sedimentar visões de mundo, forjar convicções ideológicas duradouras.

Mas se essa clareza existiu, de modo geral, em determinados momentos históricos, ela nem sempre se manteve. Ao longo do tempo, as tarefas comunicacionais foram se burocratizando, se esvaziando, se deslocando do centro da práxis para o seu entorno. A militância passou a tratar a comunicação como “função auxiliar”, como “recurso técnico”, como algo que vem depois: primeiro a linha política, depois o post; primeiro a análise, depois a arte. Como se a forma fosse um acessório, e não uma dimensão fundante da própria política.

Esse rebaixamento da comunicação não aconteceu por acaso. Ele está ligado à própria crise de projeto que assola a esquerda há décadas. À medida que perdemos inserção social, abandonamos a produção de cultura viva. À medida que nos tornamos mais marginais, buscamos nas estéticas hegemônicas uma forma de compensação — uma promessa de visibilidade, de alcance, de legitimidade. E assim, sem perceber, começamos a terceirizar nossa linguagem, nossas cores, nossos gestos, nossas formas de dizer o mundo. Começamos a abrir mão daquilo que comunicava não só o que queríamos, mas quem éramos — ou quem poderíamos nos tornar.

Esse deslocamento tem implicações políticas profundas. Quando se transforma a comunicação em apêndice técnico da estrutura organizativa, perde-se sua função mais radical: a de produzir sujeitos revolucionários, não apenas simpatizantes de uma causa. Não tensiona, não provoca, não convoca. Ao contrário: confirma o já sabido, reforça o já aceito, pacifica onde deveria perturbar. E nesse processo, vai se desconectando da realidade concreta das massas populares, que vivem outras linguagens, outras dores, outras temporalidades e outras referências.

Mais do que isso: essa comunicação reiterativa abandona a imaginação política como terreno de disputa. Se limita a repetir o que já se sabe, ao invés de ousar criar o que ainda não existe. Torna-se desinteressante, porque não arrisca. E uma política que não arrisca no modo de se comunicar não tem potência para arriscar o mundo.

Essa é a dimensão mais perigosa do empobrecimento simbólico: ele não é apenas um problema estético — é um problema formativo. Porque a forma comunica tanto quanto (ou mais que) o conteúdo. Uma estética que não provoca sensações, uma imagem que não carrega vida, um vídeo que não diz nada de novo — mesmo quando fala de revolução — está falhando em sua tarefa essencial: criar brechas na subjetividade dominante para que o novo possa emergir.

É nesse terreno já frágil que a inteligência artificial entra. E o que ela faz não é instaurar uma crise — é aprofundá-la. A IA generativa surge oferecendo respostas rápidas a uma demanda reprimida: “precisamos de imagens”, “precisamos de impacto”, “precisamos de algo visual”. E ela entrega. Mas a que custo?

O custo, muitas vezes, é o apagamento completo do processo de criação. Ao pularmos diretamente para o resultado — um cartaz, uma ilustração, uma cena — abandonamos o caminho que leva até ele. E nesse caminho é onde se dão os principais aprendizados. É ali que os sujeitos se formam: debatendo o que dizer, escolhendo palavras, decidindo símbolos, revirando referências populares, escutando o território, testando composições, errando e refazendo. É ali que a política se comunica não como imposição, mas como construção coletiva.

A IA corta esse processo pela raiz. Porque ao gerar uma imagem “pronta”, ela oferece a ilusão de que o conteúdo visual pode existir sem experiência, sem autoria, sem dor, sem contradição. É o contrário do que a arte revolucionária e independente propõe: não há sujeito, não há memória, não há corpo. Há apenas a estética da eficiência — uma estética vazia de vivência. E por mais que a imagem gerada “funcione” (no sentido de gerar curtidas, engajamento, repercussão), ela não forma consciência. Ela não convoca ninguém a refletir sobre a própria realidade. Ela não faz ver o mundo de outra forma. Ela não cria afetos políticos. Ela não forma sujeitos — forma consumidores de conteúdo.

A política sem forma viva é uma política que perde sua potência mobilizadora. Quando todas as imagens se tornam intercambiáveis, quando todas as vozes soam iguais, quando toda estética é genérica, a comunicação se torna ruído. E o que deveria ser faísca se torna cinza. O gesto revolucionário é, antes de tudo, um gesto de ruptura também na linguagem. Ele exige uma estética que provoque deslocamentos, que inquiete, que desarrume o que parecia certo.

A comunicação militante não pode seguir replicando estéticas publicitárias, imagens sem autoria, frases sem corpo. Não pode continuar tratando a forma como enfeite. A forma é a própria política da comunicação. Quando abrimos mão dela, abrimos mão da possibilidade de transformar afetos, desejos, subjetividades. E esse não é um debate apenas para designers ou comunicadores. É um debate político de primeira ordem. Porque comunicar não é adornar a política — é praticá-la. Cada imagem que usamos, cada escolha de cor, cada narrativa que repetimos ou criamos, forma ou deforma. Alimenta ou enfraquece. Mobiliza ou anestesia.

Por tudo isso, é urgente recuperar a comunicação como processo. Recolocá-la no centro do trabalho político. E isso não se faz apenas com cursos ou diretrizes — se faz no cotidiano da militância: criando espaços de criação coletiva, convocando a escuta do território, reaprendendo a olhar, a sentir, a criar com os outros. Recusando o atalho fácil da IA quando ele significa apagar a experiência que move nossa luta.

Fazer um cartaz, uma imagem, um post, pode ser um exercício formativo e político profundo — se o tratarmos como tal. Se aceitarmos o risco do processo, a lentidão, o conflito. Se entendermos que é ali que o sujeito revolucionário se forja. Que é ali que o desejo de mudança ganha forma.

Se a comunicação for só técnica, ela não nos transforma. Se for só produto, não nos emancipa. Mas se for vivida como prática política sensível, coletiva, poética e conflitiva — então ela pode ser uma das mais poderosas ferramentas de formação revolucionária que temos.

E nenhuma inteligência artificial poderá ocupar esse lugar.

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Fontes:

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