Este texto vai ser um pouco diferente. Diferente, principalmente, porque eu também me sinto diferente. Se os textos que escrevi até agora tinham um tom mais informativo, analítico e distante — ainda que eu sempre tenha me posicionado dentro — , este continua sendo analítico, mas sem qualquer distanciamento. E, como o título já antecipou, este não é um texto sobre o meu gato (eu confesso que detesto usar “meu”, porque a falta de contexto sugere que ele é uma posse, mas uso porque ele é parte da minha família). Não é sobre ele, mas escolhi começar por ele.
Este texto fala sobre morte, sofrimento, adoecimento e experiências emocionais intensas. Ele aborda temas que podem funcionar como gatilhos, especialmente para quem está atravessando processos de luto, ansiedade ou fragilidade psíquica. Se você sentir que não está em condições de lidar com isso agora, este é um bom momento para parar.
Adotei Belchior e Skylab durante a pandemia. Foi um período bastante difícil, como foi para a maioria das pessoas, e eu jamais imaginei o quanto minha vida seria transformada por essa adoção. Skylab e Belchior me ensinaram e me transformaram muito mais do que eu devo ter transformado a vida deles. Se, por um lado, ofereci carinho, amor e cuidado, eles me devolveram a possibilidade de redescobrir a minha própria existência. Até aquele momento, eu nunca tinha amado um outro ser tão profundamente quanto aprendi a amar os dois. E foi quase imediato.
Adotei ambos já adultos e, como tantas vezes repetem que gatos são frios e distantes, minha expectativa era apenas construir uma convivência pacífica e respeitosa. Eu não poderia estar mais enganada. Eles já eram uma família antes de mim, mas me acolheram no bando, e aprendemos a conviver juntos muito além do que era necessário. Aprendi a me comunicar com eles, e eles comigo. Mudei até a forma de me movimentar pela casa: quando eu me movia rápido, como sempre fiz, eles se assustavam, por causa do histórico de maus-tratos. E eu desacelerei.
Uma vez, minha amiga Maria Isabel, durante uma de nossas conversas mais sensíveis, disse: “o sofrimento é o preço que a gente paga por amar e, se você for pensar bem, é um preço muito baixo”.
Desde o começo do ano, descobri que o Skylab era um gatinho renal e, desde então, a saúde dele vem se deteriorando dia após dia. Na última semana, o quadro agudizou de vez — como alguns de vocês acompanharam no Bluesky/Mastodon — e isso resultou em uma internação com risco sério de vida. Eu nunca perdi para a morte alguém com quem tivesse um vínculo tão profundo; já perdi familiares, sim, mas o tipo de relação era totalmente diferente. Trazer isso é significativo porque, no começo do ano passado, desenvolvi um transtorno de ansiedade de morte, e acredito que nunca ter enfrentado um luto tão íntimo tenha sido parte da razão. E não, o Skylab não morreu. Ele está sendo o gato mais guerreiro do mundo, e todos nós, aqui em casa, também estamos lutando com ele e por ele.
Mas esse transtorno não surgiu do nada. Ele começou em um lugar específico: Gaza.
Em 2023, eu era uma usuária pesada do X (antigo Twitter). No final daquele ano, principalmente, fui bombardeada por vídeos do massacre em Gaza, compartilhados por militantes pró-Palestina na tentativa de denunciar o genocídio em curso. Eram vídeos e fotos de crianças decapitadas, de mães abraçadas aos corpos dos filhos encontrados sob os escombros, de homens e mulheres morrendo em hospitais que também haviam sido alvos dos ataques inescrupulosos de Israel. Tudo isso brotava na minha tela sem qualquer aviso de conteúdo sensível — e foi ali que eu quebrei, sem nem perceber.
Quando me dei conta, já era um pouco tarde. Eu estava deitada na minha cama, abraçada com meu marido e rodeada pelos meus três gatos — o que eu poderia facilmente chamar de um momento perfeito. Eu congelaria a vida ali, naquele instante, para sempre, se fosse possível. Foi, de fato, um dos momentos em que mais me senti feliz na vida. E, de repente, fui tomada por uma tristeza absurda e comecei a chorar. Percebi que aquele momento não seria eterno e que, mais cedo ou mais tarde (a menos que eu tivesse a “sorte” de ser a primeira a morrer), eu teria que lidar com a partida de algum deles. “Pra morrer basta estar vivo” — esse pensamento começou a rondar a minha cabeça o dia inteiro. Passei a registrar num app de monitoramento de humor cada vez que o tema “morte” surgia de forma intrusiva, e houve dias em que cheguei a anotar dezesseis vezes.
Aqueles vídeos sobre Gaza me mostraram, de forma crua, o quanto a vida é frágil e o mundo é cruel — e o quanto não temos controle nenhum sobre contextos muito maiores do que a nossa própria existência. Aquelas crianças, que sequer compreendiam por que bombas eram lançadas sobre suas casas dia após dia, perderam suas vidas. Pessoas amadas tiveram suas histórias arrancadas por motivos torpes e perversos. A morte, que até então era para mim uma ideia abstrata — algo que eu sabia, racionalmente, que aconteceria — passou a ser literal. Eu a revisitava todos os dias, na minha cabeça, por meio das lembranças das imagens que saltaram na minha tela, entregues por um algoritmo, sem que eu tivesse qualquer escolha sobre vê-las ou não, e pensava: poderia ser qualquer um.
A violência como fluxo começa justamente quando deixamos de assistir ao horror como um acontecimento e passamos a consumi-lo como um formato. Não foi apenas Gaza na minha tela; foi também o massacre no Rio, com corpos alinhados ao chão e fotografados à luz do dia; foi a revelação horrenda de que turistas estrangeiros pagavam para atirar em civis na guerra da Bósnia; foram vídeos de tiroteios em larga escala, relatos de feminicídios, enchentes devastadoras, crianças soterradas, mães desesperadas, corpos arrastados entre escombros. Tudo isso surgia em sequência, sem respiro, como se cada tragédia fosse apenas mais uma peça de conteúdo encaixada cuidadosamente pelo algoritmo na engrenagem infinita do feed. O que essas imagens tinham em comum não era o contexto, nem a política, nem a escala do sofrimento — mas a forma como eram entregues: em fluxo, em choque, em velocidade. A plataforma não me pedia consentimento, não me perguntava se eu estava emocionalmente apta a testemunhar a dor alheia naquele momento. Apenas me mostrava. E seguia mostrando. E seguia. E seguia.
Essa experiência produz algo que é, ao mesmo tempo, íntimo e social: o horror perde espessura. Ele deixa de ser um acontecimento singular, atravessado por vidas e contextos concretos, e se converte em um estímulo entregue em série. Susan Sontag observa que imagens de atrocidades podem “tornar-nos mais insensíveis”, e que tanto “a indignação moral” quanto “a compaixão” têm limites, pois “não podem determinar um rumo para a ação”. Em outras palavras, o excesso de exposição não aprofunda a consciência — desgasta. Também há, diz ela, “a sensação de que existe algo moralmente errado na ementa da realidade oferecida pela fotografia” e de que se paga “um preço humano (ou moral) demasiado alto” ao experimentar à distância o sofrimento dos outros. Sontag nos alerta para a ilusão de que observar — mesmo de forma incessante — equivale a compreender ou agir. Nas plataformas, essa ilusão se intensifica: não apenas assistimos ao horror, mas o consumimos em fluxo, sem pausa, sem mediação, sem tempo para a elaboração. O resultado é o esgotamento afetivo que corrói nossa capacidade de resposta. É esse processo de dessensibilização pela repetição que transforma a violência em fluxo.
É nesse esgotamento que nasce aquilo que alguns chamam de colapso da compaixão, ou saturação moral. Sontag não usa esses termos diretamente, mas sua obra os fundamenta: ela insiste que há um limite para o que podemos suportar emocionalmente, e que a repetição de imagens extremas rompe esse limite de forma silenciosa e perigosa. O excesso de dor alheia, quando empilhado sem trégua, vira uma espécie de anestésico perverso. Não porque deixamos de sentir, mas porque sentimos demais, rápido demais, sem espaço para elaborar. A sensibilidade cria calos para não se romper — mas calo, como sabemos, não é cicatriz. É defesa. E viver permanentemente em defesa cobra um preço alto.
Essa transformação do horror em fluxo muda também a forma como organizamos nossa memória moral. Gaza, Rio, Bósnia, favelas brasileiras, enchentes, chacinas — cada um desses eventos deveria ocupar um lugar específico na nossa consciência, exigir perguntas diferentes, acionar formas distintas de empatia e compreensão. Mas, entregues na mesma velocidade, sob a mesma estética de urgência e sob o mesmo gesto de scroll, eles se tornam equivalentes no plano da experiência sensorial. É isso que Wendy Chun chama de habituação: o algoritmo nos treina não a compreender o mundo, mas a esperar uma certa cadência afetiva. Ele não nos organiza pela razão, e sim pelo ritmo. E esse ritmo é o do choque contínuo.
Nesse ritmo, não existe profundidade: o horror chega, nos fere, e imediatamente é substituído por outro estímulo — talvez um vídeo de humor, talvez um anúncio, talvez mais cadáveres. Sontag argumenta que ver a dor incessantemente, sem contexto, sem pausa e sem elaboração, empobrece nossa imaginação moral. Tornamo-nos espectadores saturados, incapazes de distinguir nuances éticas, incapazes de elaborar o que acabamos de assistir, incapazes, até, de perceber a diferença entre tragédia e espetáculo.
E é nesse estado — saturada, exausta, emocionalmente fragmentada — que a doença do Skylab invade minha vida. O horror distante e o horror íntimo se encontrou no mesmo corpo: o meu. O sofrimento do mundo, gigante, devastador, impessoal — encontrou o sofrimento doméstico — pequeno, cotidiano, mas igualmente avassalador. O macro e o micro colidiram dentro de mim, e eu simplesmente não tinha espaço mental para armazenar nada. A morte, que eu tinha visto tantas vezes em vídeos, se insinuava pela primeira vez no meu cotidiano concreto. E ali, diante do corpo frágil do Skylab, eu percebi que minha mente já estava esgotada de mortes antes mesmo de ter vivido um luto real.
E, ainda assim, a vida produtiva não parou. As plataformas não pararam. O fluxo não parou. Enquanto eu preparava ração de sonda, administrava medicação, monitorava sinais clínicos, eu respondia e-mails, participava de reuniões, redigia demandas. A lógica da produtividade não reconhece sofrimento, ela o trata como interrupção. A lógica algorítmica tampouco reconhece dor — ela trata sofrimento como conteúdo, e conteúdo como dados, e dados como tempo de tela.
Byung-Chul Han descreve isso como a sociedade do desempenho, na qual tudo deve ser otimizado, expressivo, eficiente; e aquilo que é lento, frágil, vulnerável — como o sofrimento — é visto como erro. Um erro humano, mas tratado como defeito técnico. A dor perde seu caráter social e vira problema individual. E o indivíduo, já saturado pelo sofrimento do mundo via plataforma, se culpa por sofrer demais diante da sua própria vida real. É uma dupla violência: primeiro, as imagens do horror global nos esmagam emocionalmente; depois, a estrutura produtiva nos convence de que sentir esse esmagamento é falha nossa.
É por isso que, quando penso nesse período, vejo claramente como Gaza desencadeou o que o Skylab intensificou. Não foram experiências isoladas. Foram camadas sobrepostas de dor num ambiente que não nos dá tempo, nem espaço, nem linguagem para sentir. O mundo digital nos treinou a testemunhar, mas não a elaborar. A vida contemporânea nos treinou a produzir, mas não a parar. A cultura do desempenho nos treinou a esconder o sofrimento, mas não a vivê-lo.
O resultado é este: aprendemos a sofrer de um jeito mutilado — demais por dentro, de menos por fora. Sofremos sozinhos, silenciosos, culpados. E, pior, acreditando que isso é normal.
Por isso, quando penso na frase da minha amiga — “o sofrimento é o preço que a gente paga por amar e, se você for pensar bem, é um preço muito baixo” — , eu percebo que a luta hoje não é apenas para amar, mas para poder sofrer. Para que a dor encontre um lugar legítimo. Para que o sofrimento não precise ser escondido, comprimido, acelerado ou interrompido. Para que não seja engolido pelo feed, nem punido pelo trabalho, nem silenciado pelo medo de parecer inadequado.
Reivindicar o sofrimento é reivindicar humanidade. É reivindicar tempo. É reivindicar pausa. É reivindicar profundidade em um mundo que nos oferece apenas velocidade. É reivindicar a possibilidade de parar — parar de rolar a tela, parar de produzir, parar de fingir — e finalmente sentir. Sentir com dignidade. Sentir com verdade. Sentir com o corpo inteiro. Porque, no fim, o que o capitalismo de plataforma tenta nos tirar não é só tempo — é o próprio direito de ser afetado. Recuperar esse direito talvez seja o ato mais subversivo e mais necessário deste tempo; e isso só vai acontecer quando transformarmos radicalmente nosso modo de produção neoliberal e hiperprodutivista.
Não tenho muito mais a desenvolver. Eu gostaria de ir mais fundo nessa relação entre a velocidade da informação e a nossa exposição permanente ao horror, com o rigor que o tema merece. Mas, neste momento, é isso que consigo oferecer — e talvez essa impossibilidade também faça parte da história que estou tentando contar.
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Fontes:
Susan Sontag — Diante da dor dos outros.
Susan Sontag — Sobre a fotografia.
Roland Barthes — A câmara clara.
Judith Butler — Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?
Wendy Hui Kyong Chun — Updating to remain the same: habit, memory, and history in the age of big data.
Byung-Chul Han — Sociedade do cansaço.
Brasil de Fato — Os dois anos de um genocídio que expôs o confronto colonial ao mundo.
Carta Capital — Itália investiga ‘turismo de snipers’ na guerra da Bósnia.
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