Eu não queria ser a pessoa a estragar a festa, causando desconforto generalizado. Mas, já que não vejo muitos na esquerda dispostos a assumir esse papel, que seja eu. Não escrevo aqui apenas como pesquisadora, e sim como alguém abertamente de esquerda que luta por justiça social — ainda que, da metade para baixo deste texto, a análise assuma um tom mais analítico do que propriamente valorativo. E vale lembrar o óbvio: não sou dona da verdade. No fim, cada um seguirá fazendo o que achar melhor. Mas sejamos francos: a única razão para permanecer no X hoje, sendo alguém ligado politicamente à esquerda, é não ter noção do tamanho do buraco em que se está metido — ou, tendo, simplesmente não se importar.
Este texto não é um sermão. É um apelo. Talvez também um registro — para que, quando as consequências chegarem, ninguém possa dizer: “não sabíamos”.
Já se passou um ano desde que Elon Musk decidiu usar seu novo brinquedo — o X (antigo Twitter) — como instrumento para questionar a soberania brasileira. Entre 31 de agosto (exatamente há 1 ano atrás) e 8 de outubro de 2024, o X ficou temporariamente suspenso no Brasil. A decisão partiu do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do descumprimento de determinações judiciais pela empresa — entre elas, a exigência de indicar um representante legal no país e de retirar do ar perfis acusados de propagar desinformação. O acesso à plataforma foi restabelecido somente após o pagamento de uma multa de R$ 28,6 milhões e o atendimento às obrigações impostas
Mais adiante, discutirei em detalhe o processo de radicalização pessoal de Elon Musk e seus efeitos sobre a compreensão do papel do X na conjuntura política global — eixo central deste texto.
Antes, gostaria de abordar um outro problema que não será o foco desta análise, mas necessita menção: durante o bloqueio do X e logo após, algumas figuras públicas da esquerda passaram a defender, muito convenientemente, a suposta “necessidade” de “furar a bolha”. Algumas chegaram a desqualificar o Bluesky e outras plataformas descentralizadas como simples “câmaras de eco” e, a partir desse argumento, incentivaram suas bases a retornar ao site de Elon Musk e a outras plataformas sob o controle das big techs — sempre sob o pretexto de “combater o nazismo”, “falar com as massas” e justificativas semelhantes.
Como exemplo, Breno Altman escreveu, durante o bloqueio do X no Brasil, em uma publicação no Bluesky: “tomara que logo o X retome seu funcionamento no Brasil. Além de possuir mais ferramentas que o Bluesky, permite o choque de opiniões entre bolhas diversas e até antagônicas. Essa nova plataforma é modorrenta, uma conversa sempre entre iguais, cada qual no seu pedaço, sem vitalidade e confronto”.
E ele, infelizmente, não foi o único a fazer esse tipo de comentário saudoso do X, defendendo que criadores e públicos deveriam concentrar-se nas trincheiras, digo, nos feeds das plataformas de massa controladas pelas big techs, em vez de apostar em alternativas menores e descentralizadas, que acabaram sendo reduzidas por esses ferrenhos defensores do X ao estigma de “bolhas”.
Foi nesse cenário que me dei conta de algo que transformou radicalmente minha forma de pensar — e também minha atuação política — no último ano: há um conflito de interesses inegável entre aqueles que dependem da produção de conteúdo direcionado ao público de esquerda para garantir sua sobrevivência e os próprios usuários de esquerda comprometidos com a causa, que nada recebem das plataformas além do papel passivo de consumidores, e que buscam se libertar do domínio das big techs. Aprofundei esse ponto no texto “Um esquerdista contra 20 big techs conservadoras”, que acabou gerando polêmica e desconforto entre comunicadores de esquerda. Assim, assumir o papel de “estraga-festa” não é exatamente novidade para mim, e nesse espírito seguirei apresentando meus argumentos.
Minha intenção aqui, como disse, não é me deter nessas figuras e nas contradições que as cercam — ainda que seja inevitável mencioná-las, pelos motivos já expostos — , mas discutir por que o X é qualitativamente diferente das redes da Meta e por que não há justificativa plausível para permanecer ali sendo um criador de conteúdo que produz materiais “formativos” de esquerda, voltados para uma base de esquerda, a não ser por descompromisso político ou pelo interesse em monetização e engajamento algorítmico.
Antes de seguir, preciso abrir um parêntese: quando menciono “descompromisso político”, não estou apontando para a esquerda como um todo, mas para casos específicos — que detalharei nos parágrafos seguintes.
No estágio atual do capitalismo, ser artista, prestador de serviços ou alguém que vive da venda de produtos — refiro-me aqui a pessoas cuja atuação profissional não está vinculada a um projeto político — não significa apenas criar e produzir. É também gerir uma “marca”, desempenhar o papel de assessor de imprensa, de social media e de estrategista de si mesmo, sempre submetido às regras opacas e instáveis dos algoritmos. Por mais bem-intencionados que sejamos, continuamos sendo trabalhadores que precisam sobreviver da própria força de trabalho e que, nas brechas do tempo livre cada vez mais escasso da vida, sacrificam tempo de descanso para tentar intervir e transformar o que nos cerca. Essa condição — a de ser apenas mais um na máquina de moer gente chamada capitalismo, somada ao desejo de participar das lutas em que acreditamos — produz um peso constante: o de lidar com crises recorrentes e com a culpa de ocupar espaços que, para outros, não são questão de sobrevivência, mas de conveniência.
Por isso, entendo sem dificuldade a escolha de algumas pessoas à esquerda que decidiram (mesmo com demasiado incômodo) permanecer no X por necessidade — artistas que dependem da visibilidade para sustentar sua obra, criadores de conteúdo em busca de público, profissionais que precisam vender seus serviços e produtos, entre outros. Mas é importante marcar uma diferença: uma coisa é usar a plataforma de forma pragmática, apenas como vitrine; outra, bem distinta, é a atitude de certas figuras que se apresentam como de esquerda ou “revolucionárias” e que, em vez de incentivar a construção e a disputa de alternativas como o Bluesky e outras redes descentralizadas — justamente quando havia disposição coletiva de abandonar o X em massa — preferiram reforçar a legitimidade política desse espaço, estimulando suas bases a permanecer nele.
Além disso, é importante reconhecer que não cabe aplicar a mesma régua a todos. Criadores de conteúdo que produzem materiais voltados à esquerda vivem uma contradição muito diferente daquela enfrentada por pessoas de esquerda que atuam em outros nichos e dependem das redes apenas como meio de sustento mais amplo. Confundir essas posições só serve para embaralhar o debate e invisibilizar onde há uma escolha política consciente e onde existe, simplesmente, uma necessidade de sobrevivência.
Quando alguém se apresenta publicamente como criador de conteúdo político de esquerda, ou ocupa uma posição de liderança em espaços da esquerda, a responsabilidade é outra: não se trata apenas de gerir a própria visibilidade, mas de reconhecer que cada gesto de permanência ou retirada de uma plataforma carrega implicações coletivas. Voltar com entusiasmo para o X — sobretudo num momento em que tanta gente buscava alternativas e havia uma janela real de deslocamento — não é apenas uma decisão individual; é um posicionamento que legitima ou enfraquece certas estruturas de poder. Nesse sentido, assumir ou não esses lugares significa escolher entre reforçar a lógica das big techs ou apostar na construção de ecossistemas de comunicação mais autônomos e comprometidos com as lutas sociais.
Além dos já mencionados, estendo a crítica também às pessoas que se apresentam como de esquerda, mas que não dependem do X para sobreviver ou para sustentar seu trabalho. Nesses casos, permanecer na plataforma não é fruto de necessidade, e sim de escolha — a escolha de seguir alimentando um espaço estruturado pelo ódio, pela desinformação e pelo poder corporativo.
Fiz esse grande parêntese para definir com clareza quem é o interlocutor deste texto.
Antes de entrar nos pontos centrais, cabe uma última breve ressalva: não sou exatamente a maior entusiasta do Bluesky — mas por razões muito distintas daquelas apresentadas pelas figuras de esquerda mencionadas anteriormente. Este texto é o primeiro de uma série em duas partes; na próxima semana, publicarei um texto exclusivo sobre o Bluesky, no qual apresentarei minhas críticas e preocupações em relação à plataforma. Ainda assim, não tenho dúvidas: hoje, diante da comparação com o X, o Bluesky se mostra incomparavelmente superior — é, de longe, a melhor opção.
Feitas as ressalvas necessárias, vamos aos pontos centrais.
Começo abordando o processo de aquisição do então Twitter por Elon Musk. No meu texto “As big techs sabem o que você fez no verão passado — e você deveria se preocupar”, especialmente na seção intitulada “Entendendo o conceito de capitalismo de vigilância”, apresento um panorama histórico da evolução dos modelos de negócio das plataformas digitais ao longo dos últimos 20 anos. Recomendo a leitura desse texto como complemento, já que ele fornece a base para o que discutirei a seguir.
Como era previsível, o modelo de negócios das big techs, sustentado quase inteiramente pela publicidade, começou a dar sinais de esgotamento diante da saturação de anúncios, do fortalecimento de regulações em diferentes partes do mundo e do aumento das preocupações com privacidade. Esse é justamente o ponto de inflexão em que nos encontramos hoje. O próprio Jack Dorsey, em entrevista ao Pirate Wires, admitiu que a dependência de grandes anunciantes deixava o Twitter vulnerável e sem autonomia real — revelando, assim, que a prioridade da plataforma nunca foi a experiência dos usuários, mas sim a manutenção do fluxo de receita corporativa.
Jack Dorsey chegou a apoiar a compra do Twitter por Elon Musk por acreditar que ele seria capaz de solucionar este impasse que o próprio Dorsey havia reconhecido: a falta de autonomia estrutural da plataforma frente a anunciantes, investidores e ao mercado financeiro. Na sua visão, Musk encarnava uma figura “excêntrica” e com poder suficiente para romper a lógica de dependência da publicidade e reposicionar o Twitter em um modelo menos submisso a pressões externas. Em outras palavras, via em Musk um possível guardião da “liberdade” da plataforma — alguém disposto a assumir riscos que uma empresa de capital aberto (ou seja, listado na bolsa) dificilmente poderia enfrentar. Não por acaso, uma das primeiras medidas de Musk ao assumir o controle foi justamente retirar o Twitter da bolsa de valores.
A aquisição do Twitter por Elon Musk, no entanto, não pode ser compreendida apenas como uma decisão de investimento ou uma aposta em retorno financeiro. Ainda que fatores econômicos estivessem em jogo, sua motivação foi atravessada principalmente por interesses políticos, ideológicos e simbólicos. Musk enxergava na plataforma um espaço estratégico de influência pública, onde poderia reforçar sua imagem de defensor irrestrito da “liberdade de expressão” e, ao mesmo tempo, moldar os rumos do debate político-cultural em escala global. Mais do que diversificar seu portfólio de negócios, a compra lhe ofereceu a oportunidade de controlar um espaço central de circulação de informações, opiniões e controvérsias — o que explica por que suas primeiras decisões de gestão estiveram muito mais ligadas a disputas de narrativa e poder do que a uma racionalidade econômica convencional.
Um dos pontos centrais para compreender a transformação recente do Twitter em X é a migração de comunidades que antes se restringiam a espaços marginais da internet — como fóruns do 4chan e “subculturas” digitais voltadas ao ódio e ao assédio — para o centro do debate público global. Esse deslocamento não ocorreu de forma espontânea: foi impulsionado por mudanças nas políticas de moderação, pela lógica algorítmica que privilegia engajamento negativo e, mais recentemente, pela intervenção política direta de Musk após a aquisição da plataforma. O que antes permanecia confinado a nichos anônimos ganhou legitimidade e visibilidade, a ponto de pautar atores institucionais, da mídia tradicional à própria Casa Branca, como bem mostra Mike Wendling em seu livro Alt-right: from 4chan to the White House. Inclusive, no último período, tenho me dedicado em minhas pesquisas justamente a tentar compreender esse processo de reorganização sociotécnica em que circuitos da extrema-direita, antes confinados a espaços marginais da internet, encontram nas grandes plataformas a infraestrutura necessária para se difundir em escala massiva — um movimento que conecta a trajetória da alt-right às disputas de poder que hoje atravessam o núcleo da política institucional.
Ao perceber as intenções de Musk no comando do Twitter, após a aquisição, Jack Dorsey chegou a afirmar que se arrependeu de ter apoiado a compra.
Em outro plano, é importante destacar como o ambiente sociotécnico molda não apenas a forma como nos comunicamos dentro das plataformas, mas também o próprio conteúdo da comunicação — definindo quais formatos de discurso são favorecidos, quais estilos de linguagem conseguem se expandir e de que modo certos temas são amplificados ou silenciados. Essa questão, que ultrapassa a simples dinâmica do “como falamos”, toca no núcleo da disputa pela forma do espaço público digital. É um debate que merece ser aprofundado em outro momento — algo a que pretendo me dedicar em um texto específico. Por ora, deixo como sugestão a leitura do livro Twitter: A Biography, de Jean Burgess e Nancy Baym, obra que oferece um panorama fundamental para compreender essas transformações.
Desde o início de sua gestão, Musk não fez qualquer esforço para disfarçar seus objetivos: transformar o X em uma ferramenta tecnopolítica a serviço do projeto ideológico e econômico que defende. Suas decisões — da reconfiguração da moderação de conteúdo ao favorecimento algorítmico de certas vozes — não foram apresentadas como medidas de neutralidade, mas assumidas como intervenções diretas no ecossistema comunicacional da plataforma. Ao mesmo tempo em que se autoproclamava defensor da “liberdade de expressão”, Musk moldava as regras do espaço digital de acordo com seus próprios interesses, reforçando alianças políticas específicas e ampliando a centralidade do X como campo de disputa simbólica e de poder.
Algo semelhante ocorreu com Mark Zuckerberg após a posse de Trump. No entanto, é crucial reconhecer que a posição que a Meta ocupa no capitalismo digital é incomparavelmente mais estruturante do que a do X. O ecossistema formado por WhatsApp, Instagram e Facebook não apenas organiza grande parte da comunicação cotidiana, mas também concentra publicidade digital, comércio eletrônico, práticas de vigilância e mecanismos de sociabilidade que se tornaram quase inescapáveis. Deixar de usar o WhatsApp implica enfrentar barreiras severas no trabalho e na vida social; abandonar o Instagram significa abrir mão de circuitos inteiros de visibilidade cultural e econômica; e até mesmo o Facebook, em declínio relativo, segue funcionando como infraestrutura política e comunitária em diversos contextos. Esse nível de penetração confere à Meta um poder de moldar práticas sociais, políticas e econômicas que o X jamais alcançou. O projeto de Elon Musk de transformar sua plataforma em um everything app revela justamente a ambição de atingir essa centralidade — mas trata-se de uma realidade, felizmente, ainda distante, uma vez que sair do X não acarreta impactos estruturais na vida cotidiana, ao contrário do que ocorre com os aplicativos da Meta.
Pessoalmente, meu maior desejo seria poder excluir o WhatsApp; tenho convicção de que, no dia em que isso se tornar possível, não só eu, mas a sociedade como um todo, estará mais saudável e mais livre. Mas esse é um tipo de escolha de outra ordem: sair do X é relativamente simples e não altera de forma decisiva a vida cotidiana de quem o abandona, enquanto abrir mão do WhatsApp, do Instagram ou do Facebook significa enfrentar obstáculos concretos de comunicação, trabalho e sociabilidade. Justamente por isso, reduzir a dependência em relação à Meta é um desafio muito mais complexo — e, ao mesmo tempo, mais decisivo — do que abandonar o projeto tecnopolítico de Musk.
Reduzir o poder das big techs sobre nossas vidas não é apenas desejável: é uma necessidade histórica. A esquerda não pode se dar ao luxo de alimentar, de forma acrítica, plataformas estruturadas na extração de dados, na mercantilização da comunicação e na amplificação de discursos reacionários. É verdade que algumas empresas são mais difíceis de enfrentar do que outras, mas o X tornou-se, hoje, o alvo mais acessível: sua relevância cotidiana é limitada e sua força política está ligada muito mais à aura de “centralidade” do que exerce de fato. Essa aura, no entanto, se sustenta também pela presença de criadores progressistas que, ao permanecerem, contribuem involuntariamente para manter a ideia de que ali é um espaço incontornável. Migrar para alternativas descentralizadas pode parecer um gesto pequeno, mas tem valor estratégico — sobretudo quando feito por figuras públicas capazes de influenciar percepções coletivas e abrir caminho para outros seguirem.
Aos que este texto se dirige, deixo uma pergunta direta: vocês querem mesmo seguir alimentando a plataforma de Elon Musk, sabendo exatamente o projeto que ele busca expandir com ela?
Se a resposta for sim, então me parece inevitável — e urgente — redefinir o que entendemos por “aliado” no campo daqueles que dizem lutar por transformação social daqui em diante.
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Fontes:
Shoshana Zuboff — The Age of Surveillance Capitalism.
Mike Wendling — Alt-right: from 4chan to the White House.
Jean Burgess; Nancy K. Baym — Twitter: A Biography.
Van Dijck, Poell e De Waal — A Sociedade de Plataforma.
Pirate Wires. The End of Social Media: An Interview With Jack Dorsey.
Bloomberg Línea. Após apoiar compra do Twitter por Musk, Jack Dorsey agora diz: ‘deu tudo errado’.
CNN. Moraes abre inquérito contra Musk após ameaças de descumprimento de ações judiciais.
Agência Brasil. Moraes determina suspensão da rede social X no Brasil.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. STF intima Elon Musk e X a indicarem representante legal em até 24 horas, sob pena de suspensão de atividades no Brasil.
Medium (BIANA). 1 esquerdista contra 20 big techs conservadoras — contribuição para a formulação de uma postura política.
Medium (BIANA). As big techs sabem o que você fez no verão passado — e você deveria se preocupar.
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