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BIANA · Sep 7, 2025

Ciberlibertarianismo e descentralização: X/Twitter, Bluesky, Nostr e o Fediverso

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BIANA · BIANA

Em março de 2025, ao subir ao palco para falar sobre o futuro da rede Bluesky, a CEO Jay Graber usou uma camiseta preta com a frase latina “Mundus sine caesaribus”, que traduzida significa “um mundo sem Césares”. A estampa era uma provocação direta a Mark Zuckerberg: meses antes, o CEO da Meta havia aparecido com uma camisa “Aut Zuck aut nihil” (“ou Zuck ou nada”), brincando com o lema romano “Aut Caesar aut nihil” e equiparando-se a Júlio César. Graber inverteu a lógica, sugerindo que as plataformas de redes sociais deveriam existir sem imperadores que centralizam poder, simbolizando a promessa do Bluesky: uma rede social descentralizada, livre do controle de grandes empresas e de “chefes” digitais. A camiseta, que vendeu rapidamente, representava a esperança de uma internet mais livre, onde o poder seria dividido e a liberdade de expressão, total.

No entanto, para entender essa promessa de verdade, precisamos analisá-la com uma visão crítica e classista. O objetivo aqui não é negar o potencial da tecnologia, mas sim mostrar as contradições que surgem quando ela é usada dentro do sistema capitalista e questionar se a descentralização tecnológica, por si só, pode realmente mudar as estruturas de poder e dominação de classe. O problema é complexo: há uma grande diferença entre o ideal de autonomia que se prega e a realidade de como as coisas funcionam, que é sempre influenciada pela busca por lucro no capitalismo. É a partir daí que pretendo destrinchar a ideologia por trás do ciberlibertarianismo e mostrar suas limitações na luta de classes global.

O Twitter, criado por Jack Dorsey, Biz Stone, Evan Williams e Noah Glass em 2006, rapidamente se tornou um dos principais meios de comunicação do mundo. Sua simplicidade — a possibilidade de enviar mensagens de até 140 caracteres (posteriormente expandidas para 280) — deu voz a milhões de pessoas e influenciou eventos importantes, desde a Primavera Árabe até movimentos como #BlackLivesMatter. Mas essa ascensão veio com um problema estrutural: o controle era totalmente centralizado. Uma única empresa decidia sobre a infraestrutura, os algoritmos de recomendação e as regras de moderação de conteúdo. Com o tempo, isso gerou preocupações crescentes sobre censura, polarização e manipulação da informação. A ideia de uma “praça pública digital” se chocava com a realidade de uma empresa privada que tinha o poder unilateral de decidir o que podia ou não ser dito.

O ponto alto dessa centralização e das contradições do Twitter foi sua compra por Elon Musk, conforme abordei no meu último texto “Não dá mais para adiar: é hora de sair do X”. Em abril de 2022, após meses de tensas negociações e tentativas de desistência, Musk comprou o Twitter por aproximadamente 44 bilhões de dólares. Essa aquisição, finalizada em 27 de outubro de 2022, marcou o fim do Twitter como empresa de capital aberto e o início de uma nova fase, com a visão de Musk de transformá-lo em “X, an everything app”. Essa mudança de proprietário e de identidade não só concentrou ainda mais o poder nas mãos de uma única pessoa — Musk — mas também indicou uma mudança ideológica radical, com a promessa de “liberdade de expressão absoluta” e redução drástica da moderação.

Ironicamente, essa busca por liberdade total, justificada pela oposição a supostos “governos autoritários de esquerda” e políticas de moderação “woke”, resultou em um controle ainda mais personalizado e arbitrário, onde as decisões de um único indivíduo moldam o futuro de uma das maiores plataformas de comunicação do mundo. A ferramenta que prometia ser um símbolo de liberdade se tornou um instrumento de poder concentrado nas mãos de um bilionário. Isso evidencia claramente que a tecnologia, por si só, não garante a liberdade em um sistema onde a propriedade dos meios de produção é privada. A tecnologia, nesse caso, é subordinada ao capital: o potencial comunicativo da internet é adaptado para servir aos interesses de acumulação, transformando a comunicação em mercadoria e o usuário em força de trabalho não paga que gera dados e valor para as plataformas.

Diante de sua crescente desilusão com os modelos centralizados, Jack Dorsey, que já havia criticado publicamente a centralização do Twitter antes mesmo da compra por Musk, apostou inicialmente no Bluesky como a oportunidade de criar algo diferente. Com o tempo, porém, distanciou-se da equipe do Bluesky e passou a concentrar seu apoio no Nostr, projeto que considera mais fiel ao ideal de uma rede verdadeiramente aberta e resistente a formas de controle corporativo.

Antes de entrarmos nos dilemas da descentralização, é crucial diferenciar protocolo de plataforma. Um protocolo é um conjunto de regras técnicas que define como sistemas se comunicam, como o HTTP/HTTPS, que permite navegar na internet de forma segura; ele não é um site ou aplicativo em si, mas sim a infraestrutura de comunicação subjacente. Uma plataforma, por outro lado, é um serviço completo oferecido por uma empresa, com infraestrutura própria, regras de uso específicas e controle direto sobre o que acontece em seu ambiente, como o Twitter ou Facebook.

O Bluesky, embora se apresente como rede social, é na verdade um cliente construído sobre o AT Protocol (Authenticated Transfer Protocol). Assim como diferentes sites e navegadores usam o HTTP/HTTPS, múltiplos clientes e serviços podem, em teoria, ser criados sobre o mesmo protocolo, formando um ecossistema mais aberto e interoperável. O AT Protocol opera “por cima” de protocolos de comunicação existentes, como o HTTP/HTTPS, mas define especificamente como os dados de rede social são estruturados, transmitidos e federados. Sua federação permite que diferentes servidores (ou instâncias) se conectem, reduzindo teoricamente a dependência de um ponto central e tornando a rede mais resistente à censura e ao controle corporativo.

O Nostr (Notes and Other Stuff Transmitted by Relays), por sua vez, é um protocolo ainda mais simples e radicalmente descentralizado. Qualquer pessoa pode operar um relay (servidor retransmissor) ou criar um cliente, e a distribuição de mensagens depende da rede de relays, sem moderação centralizada. Enquanto o AT Protocol busca conciliar descentralização técnica com algum nível de governança e controle da experiência do usuário — permitindo múltiplos clientes e servidores interoperáveis, mas mantendo moderação de feeds e regras de visibilidade de conteúdo — o Nostr prioriza liberdade técnica máxima, ao custo de moderação e controle praticamente inexistentes.

A relação de Dorsey com o Bluesky deteriorou-se progressivamente, culminando em sua saída do conselho da plataforma em maio de 2024. Em entrevista ao Pirate Wires, ele justificou a decisão afirmando que o Bluesky estava “repetindo todos os erros que cometemos no Twitter”. Sua crítica se concentrava na crescente centralização da rede e na adoção de políticas de moderação que, em sua visão, não diferiam das práticas das redes sociais tradicionais. Para Dorsey, o Bluesky havia deixado de ser um protocolo verdadeiramente aberto e neutro para se transformar em mais uma empresa com uma “estrutura de governança” problemática.

Nesse contexto, Dorsey se tornou um grande defensor e financiador do Nostr, doando milhões de dólares para o desenvolvimento de aplicativos dentro do ecossistema. Para ele, o Nostr encarna a promessa de uma internet realmente livre, imune à censura de governos e corporações. É importante, no entanto, perceber que esse diagnóstico reflete a lente ciberlibertária de Dorsey: sua concepção de descentralização pressupõe que qualquer mecanismo de governança coletiva ou moderação compromete a natureza “verdadeiramente” descentralizada de um protocolo. Para Dorsey, a liberdade de expressão deve ser garantida pela arquitetura técnica, não por decisões políticas coletivas, revelando uma visão que naturaliza a ausência de regulação como neutralidade, quando na verdade essa ausência é também uma escolha política que beneficia determinados grupos em detrimento de outros. Essa visão, ao mesmo tempo em que denuncia corretamente os limites das plataformas centralizadas, obscurece o dilema central: sem estruturas de responsabilidade, a descentralização pode não significar democratização, mas apenas a redistribuição caótica — e igualmente desigual — do poder entre aqueles que dispõem de mais recursos, infraestrutura e capacidade técnica.

Por mais atraentes que sejam as promessas do Bluesky e do Nostr, uma análise a partir de uma perspectiva de classe exige que olhemos além da tecnologia e entendamos as relações sociais e econômicas por trás dela. A crítica principal está na diferença entre descentralização técnica e emancipação social. O ciberlibertarianismo de Dorsey, em sua forma ideológica, foca quase que totalmente na descentralização técnica, propondo soluções tecnológicas para problemas que são, na verdade, sociais, políticos e econômicos. Isso representa uma forma de falsa consciência tecnológica: a ideia de que a tecnologia pode resolver problemas que são inerentes ao sistema capitalista, desviando a atenção da necessidade de uma mudança radical nas relações sociais.

Para o materialismo histórico, no entanto, a tecnologia nunca é neutra. Ela é sempre um produto das relações sociais de produção e, ao mesmo tempo, uma ferramenta que as molda, as reproduz e as reforça. Os ambientes digitais, sejam eles centralizados ou construídos sobre protocolos descentralizados, não surgem do nada; eles são criados, desenvolvidos, financiados e operados dentro do sistema capitalista. A infraestrutura que os sustenta — servidores, centros de dados, redes de fibra óptica, dispositivos — pertence, em sua maioria, a grandes empresas transnacionais. O trabalho para construí-los, mantê-los e inová-los é trabalho assalariado, submetido à lógica da exploração capitalista.

A “liberdade” e a “descentralização” prometidas por Dorsey, bem como pelos demais defensores de uma perspectiva ciberlibertária, nesse contexto, são estruturalmente limitadas pela busca por lucro. A liberdade de expressão, por exemplo, depende do acesso à infraestrutura e da aceitação das regras dos provedores de serviço, mesmo que esses serviços sejam tecnicamente distribuídos. A ideia de que a tecnologia é algo autônomo, separado das relações sociais que a criam, é uma forma de fetichização que esconde a verdadeira natureza da dominação. A tecnologia, no capitalismo, se torna uma força produtiva que, em vez de libertar o trabalho, o submete a novas formas de controle e exploração, gerando mais-valia para o capital. A própria inovação tecnológica é impulsionada pela necessidade do capital de crescer e superar suas crises, e não por um desejo intrínseco de liberdade humana.

A ideia de que a descentralização tecnológica automaticamente levará à liberdade social é uma forma de determinismo tecnológico que o marxismo sempre criticou. Como observa Langdon Winner em “Do Artifacts Have Politics?”, os artefatos têm dimensões políticas, mas não de forma autônoma ou determinística. Em um sistema capitalista, o poder não está apenas na localização física dos servidores; ele está, principalmente, na propriedade dos meios de produção e na capacidade de acumular capital.

Mesmo em redes distribuídas como o Nostr, é altamente provável que surjam grandes grupos de relays controlados por grandes empresas ou por indivíduos com significativo poder econômico. Quem vai financiar a manutenção dos relays mais robustos e confiáveis? Quem vai investir no desenvolvimento dos aplicativos mais sofisticados e fáceis de usar? A resposta, invariavelmente, aponta para aqueles que detêm o capital e têm interesse em aumentar sua influência e controle. A moderação de conteúdo, um dos grandes problemas das plataformas centralizadas, não desaparece em um ambiente descentralizado; ela se fragmenta, tornando-se mais opaca e, consequentemente, mais vulnerável a pressões econômicas e políticas disfarçadas de “autonomia da comunidade” ou “liberdade de expressão”.

Aqui, a questão da regulação se torna ainda mais complexa. É fundamental distinguir regulação de censura. Regulação é o estabelecimento de regras e limites para garantir um ambiente digital seguro e justo, protegendo os usuários de abusos e crimes. Censura, por outro lado, é a supressão arbitrária de ideias e informações. A “liberdade de expressão” tem sido frequentemente instrumentalizada como pretexto para a proliferação de discursos de ódio, desinformação e incitação à violência.

Na prática, a alegação de que o criador do protocolo não é responsável pelo conteúdo funciona como um artifício juridicamente conveniente, mas socialmente problemático. Embora Dorsey e outros defensores apresentem protocolos abertos como alternativas libertárias à moderação centralizada, essa arquitetura cria zonas de irresponsabilidade que podem ser exploradas por atores mal-intencionados. Por exemplo, assim como o criador do HTTP/HTTPS não é responsabilizado por sites que hospedam conteúdo extremista, em protocolos como o AT Protocol a responsabilidade formal recai sobre o administrador do cliente ou servidor que publica o conteúdo, não sobre os arquitetos do protocolo.

Críticos como Christine Lemmer-Webber e Michał Woźniak identificam uma contradição fundamental na arquitetura do AT Protocol: a separação entre “camada de fala” (onde posts são portáveis) e “camada de alcance” (onde algoritmos controlam visibilidade). Essa estrutura permite que implementações como a Bluesky Social evitem responsabilidade legal direta sobre conteúdo, mantendo simultaneamente controle significativo sobre quais vozes são amplificadas. O resultado é uma forma sofisticada de ter o melhor dos dois mundos: a narrativa libertária da descentralização com a realidade prática do controle algorítmico.

O caso do Nostr é ainda mais explícito. Ao deslocar moderação para relays voluntários e distribuídos, o protocolo pode tornar-se refúgio para discursos extremistas. O próprio Fiatjaf, criador do Nostr, admitiu publicamente que “nazistas ou racistas” poderiam usar o protocolo para propagar ódio, reconhecendo sua incapacidade de impedi-los. Essa franqueza revela o paradoxo central: a “liberdade” prometida inclui necessariamente a liberdade de oprimir grupos vulneráveis, contradizendo demandas históricas de movimentos por justiça social.

Em contraste com as abordagens do AT Protocol e do Nostr, o Fediverso — representado principalmente pelo Mastodon e outras plataformas baseadas no protocolo ActivityPub — apresenta um modelo distinto de descentralização. Enquanto o AT Protocol mantém elementos centralizados disfarçados de federação e o Nostr prioriza a ausência quase total de moderação, o Fediverso combina descentralização técnica com uma forma de governança distribuída, em que cada instância define suas próprias regras de moderação coletivamente, ainda que de maneira independente da infraestrutura global. Cada instância do Mastodon pode, assim, federar-se ou desfederar-se de outras instâncias com base em critérios políticos, éticos ou de segurança comunitária.

Essa arquitetura permite que comunidades marginalizadas criem espaços relativamente seguros, sem depender de algoritmos corporativos ou da benevolência de bilionários, ao mesmo tempo em que possibilita ação coletiva contra instâncias que hospedam conteúdo prejudicial. Diferentemente do modelo ciberlibertário, que fetichiza a “neutralidade” tecnológica, o Fediverso reconhece que toda moderação é política e busca democratizar essas decisões em nível comunitário, em vez de escondê-las atrás de protocolos supostamente “neutros”.

No entanto, uma análise marxista rigorosa mostra que o Fediverso, apesar de seus avanços relativos, não escapa às contradições fundamentais do capitalismo digital. Primeiro, ele depende fortemente de infraestrutura privada — servidores da Amazon Web Services, Google Cloud ou Microsoft Azure, redes de fibra ótica privadas e dispositivos produzidos por corporações transnacionais — , o que limita sua autonomia real.

Segundo, grande parte de seu funcionamento repousa sobre trabalho voluntário não remunerado — administração de instâncias, moderação de conteúdo, desenvolvimento de software — que, embora não gere lucro direto, subsidia uma infraestrutura que beneficia indiretamente o capital tecnológico.

Terceiro, o Fediverso reproduz desigualdades de classe de forma mais sutil: instâncias com mais recursos técnicos e financeiros tendem a oferecer melhor experiência de usuário, maior estabilidade e moderação mais eficaz, criando hierarquias informais que refletem desigualdades sociais existentes. A “democratização” da moderação, na prática, significa que comunidades com mais capital cultural e técnico conseguem criar espaços mais seguros e funcionais, enquanto grupos marginalizados podem ficar relegados a instâncias precárias ou isoladas.

Por fim, o Fediverso não questiona a lógica fundamental da comunicação como mercadoria nem propõe alternativas ao modo de produção capitalista. Ao reproduzir arquiteturas de sociabilidade baseadas em performance pública, métricas de engajamento e lógicas publicitárias, ele normaliza formas de comunicação que servem aos interesses do capital, mesmo quando tecnicamente descentralizado. No máximo, oferece uma gestão mais democrática da comunicação digital dentro dos limites do sistema existente, sem desafiar as relações de propriedade que subordinam a tecnologia aos interesses do capital.

O ciberlibertarianismo, ao se opor ao poder do Estado, o vê como o principal obstáculo à liberdade digital. Uma perspectiva marxista, contudo, entende o Estado não como inerentemente bom ou ruim, mas como um instrumento da dominação de classe, frequentemente descrito como o “braço da burguesia”, refletindo as contradições estruturais próprias da sociedade capitalista. Ao mesmo tempo, o Estado não é totalmente autônomo: ele constitui um campo de disputa entre classes, no qual a classe trabalhadora pode e deve lutar para conquistar e defender direitos.

A ausência de regulação estatal em plataformas “descentralizadas” pode, ironicamente, fortalecer o poder do capital privado, permitindo que grandes empresas e indivíduos ricos operem com ainda menos fiscalização e responsabilidade social. A verdadeira liberdade de expressão e associação não pode ser garantida apenas pela tecnologia; ela exige uma transformação radical nas relações de propriedade e poder na sociedade. A luta por direitos digitais, privacidade, acesso universal à internet e por uma moderação de conteúdo que sirva aos interesses da maioria trabalhadora, e não do capital, faz parte da luta de classes contemporânea.

Essa luta não pode ser delegada apenas à inovação tecnológica, mas deve ser travada no campo político, com a organização e a mobilização da classe trabalhadora para impor suas demandas ao Estado burguês e, em última instância, superá-lo através de uma revolução socialista. A construção de um Estado operário, que sirva aos interesses da maioria, é condição essencial para uma verdadeira democratização do ciberespaço, onde a tecnologia possa ser usada para o desenvolvimento humano e não para a exploração.

Jack Dorsey e os ciberlibertários, com sua fé inabalável na tecnologia como solução para todos os problemas sociais, caem na armadilha da utopia tecnológica. Essa visão, que promete a liberdade através de inovações digitais, desvia a atenção da necessidade fundamental de uma revolução social que acabe com a propriedade privada dos meios de produção e crie uma sociedade sem classes. A descentralização tecnológica, por si só, não derruba o capital; ela pode, no máximo, reorganizar como ele se manifesta (inclusive, para melhor ou para pior, do ponto de vista da classe trabalhadora), criando novas formas de concentração de poder e novas contradições.

Contudo, isso não significa que a luta no terreno digital seja secundária ou que devamos aguardar uma vitória revolucionária para começar a construir alternativas. A disputa sobre as formas de comunicação digital é parte constitutiva da luta de classes contemporânea, não uma etapa preparatória para ela. Construir e apoiar ambientes digitais mais democráticos — como certas experiências no Fediverso — é simultaneamente uma necessidade presente e uma condição para fortalecer a capacidade organizativa da classe trabalhadora. Essas iniciativas, mesmo com suas limitações estruturais, podem criar espaços de experimentação política, organização coletiva e desenvolvimento de consciência crítica que são fundamentais para qualquer processo revolucionário.

A verdadeira descentralização não é técnica, mas social: é a distribuição do poder econômico e político entre todos os membros da sociedade, garantindo que as decisões sobre tecnologia, comunicação e desenvolvimento sejam tomadas democraticamente e no interesse coletivo. Essa transformação não acontece de uma vez, mas através de lutas concretas e cotidianas que incluem, necessariamente, a disputa pelos meios de comunicação digital. Projetos como o Fediverso, apesar de suas contradições, representam tentativas reais de criar formas de comunicação que escapem parcialmente à lógica do capital e das big techs, oferecendo laboratórios para experimentar relações sociais mais democráticas.

Assim, a análise crítica sobre a questão da descentralização não deve nos levar ao imobilismo, mas sim a uma compreensão dialética: a luta por uma internet verdadeiramente livre e democrática é inseparável da luta mais ampla por uma sociedade justa e igualitária, mas também é uma de suas condições de possibilidade. A tecnologia pode ser uma ferramenta poderosa para a emancipação humana quando estiver a serviço da classe trabalhadora organizada, e essa organização passa, hoje, necessariamente pelos meios digitais. Construir alternativas democráticas no presente não é reformismo, mas parte da estratégia revolucionária: criar as condições materiais e subjetivas para que a classe trabalhadora possa se organizar, comunicar e coordenar suas lutas de forma autônoma em relação ao capital.

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