Quando publicou 1984, em 1949, George Orwell pretendia alertar contra o que via como o “perigo do totalitarismo”. Movido por frustrações pessoais e pelo clima político de sua época, ele imaginou um mundo em que a concentração absoluta de poder eliminava a autonomia individual, controlando a memória, a linguagem e até os pensamentos.
O problema, no entanto, se fazia presente na própria noção de autoritarismo mobilizada por Orwell: construída dentro de uma gramática liberal, ela se centra na perda da liberdade individual como bem supremo ameaçado, deixando em segundo plano as dimensões sociais e materiais que estruturam o poder. Essa formulação, ao privilegiar a figura do indivíduo frente a um Estado opressor abstrato, abriu caminho para que 1984 fosse facilmente apropriado pela propaganda da Guerra Fria como denúncia da “ameaça comunista”.
A ironia histórica é que, décadas depois, ao transformar a figura do “Grande Irmão” em metáfora da vigilância e do controle centralizado, Orwell acabou antecipando, ainda que de forma indireta, os mecanismos de poder que hoje se consolidam, não sob um regime comunista, mas, ao contrário, sob o próprio capitalismo em sua era digital. A distopia que ele descreveu contra a concentração estatal de poder reaparece, de forma ainda mais sofisticada, nas estruturas corporativas que coletam e monetizam dados de bilhões de pessoas, convertendo a vigilância não em coerção política explícita, mas em modelo de negócio globalizado.
O totalitarismo do século XXI não é o da planificação burocrática, mas o da extração contínua de dados: uma vigilância travestida de conveniência e prazer, que captura a vida cotidiana não apenas para controlar, mas para mercantilizar cada gesto, palavra e desejo.
Mas, como de costume, vamos por partes:
Dando nome aos bois: redes sociais, plataformas e big techs
Embora sejam popularmente conhecidos como “redes sociais”, serviços como Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, LinkedIn e X/Twitter podem ser compreendidos de forma mais rigorosa como plataformas sociotécnicas. Essa distinção é relevante: enquanto a noção de “rede social” remete prioritariamente à ambientes digitais que têm por função estrita possibilitar a conexão entre pessoas e à mediação de interações, a noção de plataforma diz respeito a uma infraestrutura sociotécnica que não apenas conecta múltiplos grupos de usuários, mas também organiza essas interações por meio de uma combinação complexa de elementos: dados, algoritmos, interfaces gráficas, modelos de negócio e de propriedade, além de regras contratuais que regulam usos e condutas. Sua arquitetura técnica — isto é, o modo como sistemas são concebidos, conectados e escalonados — e suas affordances — as possibilidades de ação percebidas pelos usuários em função do design — são dimensões centrais, pois condicionam aquilo que é priorizado, incentivado ou mesmo permitido em determinado ambiente digital.
Nesse sentido, a própria ideia de plataforma pressupõe um grau de controle estrutural: as interações, os discursos e as práticas cotidianas não surgem de maneira espontânea, mas são constantemente modelados por escolhas técnicas e econômicas que determinam o que pode, deve ou tende a aparecer no ambiente digital.
Quando falamos em big techs, referimo-nos às corporações que concentram poder econômico, político e cultural por meio do controle de plataformas digitais em escala global. Em sentido estrito, trata-se de Google, Meta, Amazon, Apple e Microsoft — as chamadas GAFAM — , que operam como infraestruturas centrais da vida digital contemporânea. Em sentido ampliado, podemos incluir empresas como o X/Twitter ou o TikTok, cuja influência sobre a esfera pública e os fluxos de informação excede em muito seu porte econômico. Essas corporações não são apenas empresas de tecnologia: são atores que moldam mercados, regulam visibilidade e interferem diretamente na configuração do debate público.
Em resumo, redes sociais podem ser definidas estritamente como ambientes digitais voltados à conexão entre pessoas; plataformas, por sua vez, vão além dessa função, atuando como infraestruturas sociotécnicas que organizam, modulam e exploram tais interações; e as big techs são as corporações que concentram a propriedade dessas plataformas em escala global, transformando sociabilidade em mercadoria e em instrumento de poder político.
Entendendo o conceito de “capitalismo de vigilância”
O modelo de negócios das plataformas digitais se consolidou a partir da descoberta, por parte da Google, de que os rastros deixados pelos usuários — cliques, buscas, curtidas, deslocamentos — poderiam ser apropriados como matéria-prima para além da prestação e aprimoramento dos serviços. Esses excedentes de dados, que Zuboff em A era do capitalismo de vigilância (2019) chama de “excedente comportamental”, passam a ser convertidos em mercadorias que alimentam mercados de previsão, nos quais o valor está em antecipar e comercializar probabilidades de ação futura.
Esse processo redefine a publicidade: não se trata mais de exibir anúncios de forma ampla, mas de construir perfis detalhados e dinâmicos, capazes de direcionar mensagens específicas a públicos específicos (microsegmentação). A lógica é a de uma personalização radical, em que cada interação cotidiana pode ser explorada como oportunidade de venda, modulando preferências e orientando escolhas sem que o usuário perceba claramente esse processo.
Com o tempo, o objetivo deixa de ser apenas prever comportamentos e passa a interferir ativamente neles, ajustando interfaces, feeds e recomendações de modo a induzir práticas de consumo, engajamento ou até posicionamentos políticos. Nesse sentido, o capitalismo de vigilância não é apenas uma forma mais sofisticada de propaganda, mas um novo regime de acumulação, que transforma a vida cotidiana em um fluxo contínuo de dados a serem capturados, processados e instrumentalizados para gerar lucro e poder.
Com tudo isso em mente,
O “verão passado” é todos os dias
Você está sendo vigiado, e o que faz online é mais valioso do que imagina — não para você, mas para os que governam o presente através de dados. No capitalismo digital, até o silêncio se torna informação, e até a distração é mercadoria. Ouvi semana passada a frase “até parece que o Mark Zuckerberg tem interesse em quantas vezes eu fui no banheiro ou se eu ‘tô chifrando’ minha namorada” e, a má notícia é que sim, ele tem. E não só ele. Um júri na Califórnia determinou, neste ano (2025), que a Meta violou a lei ao coletar intencionalmente dados íntimos do app de monitoramento menstrual Flo — informações sobre ciclos, fertilidade, humor — usando-os para alimentar algoritmos de publicidade segmentada.
É, sim, ingênuo supor que você só está sendo monitorado caso represente algum risco à ordem estabelecida — embora, convenhamos, isso já seria assustador o bastante. A realidade, porém, é ainda mais assustadora: a vigilância não se restringe a opositores ou ameaças, mas abarca a vida cotidiana de todos, transformando cada gesto, por mais trivial que seja, em dado útil para o acúmulo de poder.
Se a distopia orwelliana parecia distante e exagerada, hoje ela se realiza de forma difusa e sedutora. O controle não se impõe pelo medo da repressão explícita, mas pelo fascínio da conveniência e pelo prazer do engajamento. Ninguém é obrigado a aderir: adere-se “livremente”, convencido de que os serviços das big techs oferecem benefícios indispensáveis. Mas essa adesão é enganosa — o usuário acredita estar ganhando, quando na verdade é ele o produto. Como diz o ditado, “todo dia sai de casa um malandro e um otário”: na economia digital, o “otário” é aquele que crê estar no controle, quando é apenas mais um ponto de dados a ser explorado.
Cada curtida, busca ou clique é integrado a sistemas de coleta que, invisíveis ao olhar cotidiano, alimentam mercados globais de dados. Não se trata apenas de observar o que fazemos: trata-se de orientar silenciosamente o que desejamos, pensamos e até acreditamos ser escolhas livres.
A narrativa dominante sobre as empresas de tecnologia é a de que elas representam o progresso: a cada nova atualização, produto ou serviço, venderia-se a ideia de que a humanidade avança para um futuro mais eficiente, mais conectado e, portanto, melhor. Essa retórica, porém, encobre o fato de que muitas vezes a chamada “inovação” significa apenas um aumento da capacidade de extrair, processar e monetizar dados em escala crescente — não um avanço social. Michel Foucault chamou de “regimes de verdade” os discursos que, em determinado contexto histórico, definem o que pode ser aceito como verdadeiro. No campo tecnológico, esses regimes se expressam em slogans como “melhorar a experiência do usuário”, “conectar pessoas” ou “facilitar tarefas”. Sob o verniz da neutralidade técnica, tais narrativas conferem legitimidade a práticas predatórias, transformando vigilância e extração de dados em algo natural, até desejável.
O mito da neutralidade tecnológica, portanto, atua como barreira para críticas estruturais. Ele sustenta a crença de que plataformas digitais estão apenas “a serviço” dos indivíduos, auxiliando suas tarefas cotidianas, quando na prática operam como sistemas de coleta e modulação comportamental. É nesse ponto que progresso e inovação deixam de ser apenas promessas de futuro e se tornam mecanismos de legitimação para uma lógica de controle invisível, mas profundamente enraizada.
Comunicar-se, trabalhar, acessar informações ou mesmo circular por certos espaços urbanos passou a depender de sistemas mantidos por corporações que concentram poder econômico e informacional sem precedentes. Nesse cenário, a linha entre vigilância corporativa e vigilância estatal torna-se cada vez mais tênue. Governos recorrem a dados coletados por plataformas para monitorar populações, controlar fluxos migratórios, prevenir protestos ou perseguir dissidentes.
A vigilância digital não permanece apenas como uma possibilidade teórica ou uma metáfora distópica: ela já é uma realidade. Diversos episódios recentes mostram como dados, algoritmos e dispositivos de rastreamento têm sido usados para conter revoltas populares, perseguir opositores políticos e censurar discursos críticos.
Durante protestos progressistas nos EUA, como os do movimento Black Lives Matter, plataformas digitais serviram como meio de vigilância e repressão. Relatórios indicam que autoridades utilizaram desde ferramentas de rastreamento geográfico (geofencing) até reconhecimento de comunicações por meio de Stingrays, muitas vezes sem mandado judicial — monitorando e mapeando manifestantes fora de qualquer transparência. No início deste ano (2025, para quem ler este texto no futuro), dezenas de funcionários da Microsoft protestaram publicamente contra o uso da infraestrutura da empresa (Azure) por parte das Forças Armadas de Israel em operações de vigilância e repressão em Gaza. Eles foram duramente reprimidos: protestos levaram a prisões e, em alguns casos, demissões — evidenciando que a própria empresa reprime internamente dissidências de esquerda que questionam seu alinhamento político e econômico.
Assim, esse novo regime de poder não se limita a empresas individuais, mas opera em aliança com governos e instituições que possuem interesse na coleta e a análise de informações populacionais para fins de dominação. Se Orwell temia a figura do “Grande Irmão” estatal, hoje lidamos com um ecossistema fragmentado, porém onipresente, em que algoritmos, design e contratos de uso se articulam para regular a sociabilidade em escala global.
É importante dizer que não se trata, aqui, de uma leitura tecnofóbica. As plataformas não são apenas instrumentos de dominação unilateral, nem os usuários meros sujeitos passivos. Como lembra Donna Haraway, a tecnologia está sempre emaranhada em relações de co-produção com a sociedade: somos moldados por ela, mas também a moldamos, em um processo contínuo de negociação e hibridização. De forma semelhante, Burgess e Baym mostram que a vida nas plataformas envolve trocas, criatividade e agência: usuários produzem sentidos, constroem vínculos e até resistem às arquiteturas de controle, explorando brechas e reapropriando ferramentas para seus próprios fins.
Ainda assim, é fundamental reconhecer que essa relação é profundamente assimétrica. As big techs detêm a infraestrutura, os algoritmos e os modelos de negócio que estruturam o campo de possibilidades de ação. Se os indivíduos podem criar, adaptar e até resistir, fazem-no dentro de ambientes desenhados para extrair valor de cada gesto. O engajamento que parece espontâneo é filtrado por sistemas de recomendação, a criatividade é canalizada em métricas de visibilidade, e a sociabilidade é transformada em mercadoria. A agência dos usuários existe, mas não elimina o desequilíbrio de forças: é uma agência condicionada, constantemente modulada pelas escolhas técnicas e econômicas das corporações. É nesse ponto que a promessa de “autonomia digital” se revela ambígua. O que poderia ser espaço de cooperação e pluralidade torna-se um circuito fechado, onde os caminhos de interação são pré-programados para reforçar a lógica da acumulação. A tensão entre a inventividade dos sujeitos e o controle estrutural das plataformas é, assim, o motor e também o limite da vida digital contemporânea.
Cada clique, inclusive este que o trouxe até aqui, já se converteu em dado — capturado, processado e posto a circular em mercados invisíveis. A vigilância não opera como um episódio pontual, mas como um fluxo permanente que transforma cada gesto cotidiano em mercadoria. Eu gostaria de me deter mais profundamente sobre cada dimensão do capitalismo de vigilância, mas até isso é condicionado pela forma como as interações são moldadas dentro dos próprios ambientes digitais: textos precisam ser curtos, conteúdos precisam ser “engajáveis”, ideias precisam ser traduzidas em formatos compatíveis com os algoritmos de visibilidade.
Essa limitação não é neutra. Ela revela como o desenho das plataformas define não apenas o que aparece e o que desaparece, mas também como pensamos, como escrevemos e como participamos do debate público. O capitalismo de vigilância, portanto, não age só sobre nossos dados: ele age sobre nossas formas de expressão, restringindo a possibilidade de crítica enquanto transforma até a resistência em métrica de engajamento. O desafio é romper essa lógica, recusando a ilusão de que só podemos existir online dentro das regras impostas pelas big techs e disputando o desenho de infraestruturas digitais que não nos reduzam a um estoque inesgotável de dados.
O que os que temiam um “Grande Irmão” talvez não pudessem prever é que, em vez de resistirmos, seríamos nós mesmos a alimentar esse sistema — voluntária, entusiástica e até esperançosamente, acreditando que dele tiramos benefícios. O desafio que se impõe, portanto, não é apenas admitir que estamos sendo vigiados, mas disputar o sentido dessa vigilância e lutar para reconfigurar as infraestruturas digitais de modo que sirvam ao interesse público, em vez de se manterem a serviço da acumulação privada.
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Fontes:
Shoshana Zuboff — The Age of Surveillance Capitalism.
Donna Haraway — Manifesto Ciborgue.
Jean Burgess; Nancy K. Baym — Twitter: A Biography.
Van Dijck, Poell e De Waal — A sociedade de plataforma.
Rodrigo Ochigame — Informática do Oprimido.
The Verge. Meta illegally collected Flo users’ menstrual data, jury rules.
The Guardian. Microsoft workers occupy HQ in protest against company’s ties to Israeli military.
NatLawReview. Jury finds Meta liable for collecting private reproductive health data.

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