Num cantinho do quintal, ignorando todos os pardais que vinham ciscar a memória de Dona Emília que acostumou o bando com fubá e miolo de pão de sal velho, batendo o rabo na calota, a única coisa que sobrou, da Vemaguet do Seu Jura e coçando a nuca com as orelhas dando pulinhos, estava Frai Alki pensando que naquela noite era dia de dormir no quente. A cozinha da Cubatão na hora do almoço parecia uma cena de O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, aquele filme do Peter Greenaway que os meninos assistiam no Quarto entre espasmos de nojo e fascínio. No filme, a brutalidade vulgar e tirânica de um ladrão mafioso se mistura à sofisticação da alta gastronomia num restaurante barroco, onde o sexo clandestino, os odores de comida e a carne humana cozida no final viram um banquete ritualístico de vingança e fetiche. Na casa do Seu Jura acontecia a nossa versão daquela ópera escatológica: enquanto a pimenta forte ardia nas panelas, os marmanjos misturavam o cheiro do almoço com o suor das bundas gigantescas da Buttman na TV de tubo, devorando a precariedade da periferia como se estivessem num restaurante de luxo europeu. Era como o cachorro chamava o fato de, nas quintas, César o chamar para o quarto dele e passar a noite dormindo na cama. Era quase a hora da mãe ir pro encontro de casais acompanhada do pai, Catarina fazer o curso de flor de sabonete no Sesi e Quaia, ninguém sabia do Quaia tinha uns três dias, estavam aliviados, um tempo sem o rapaz dormir na sala e almoçar vendo as fitas pornô da Buttman, desde que os amigos do irmão começaram a frequentar a casa, quando por coincidência passavam pela sala na hora do almoço viam as bundas gigantes na TV e do outro lado o prato de comida com cheiro forte de pimenta e de boca cheia: isso é que é arte, olha o tamanho do Tarkovsky desse cara, soca forte demais, vai Tarkovsky.
Era uma missão confidencial essa de dormir no Quarto, César era o único que conseguia encostar no rosário da avó pendurado no pescoço do cachorro, mas tirar de lá, nunca. Os amigos saíram muitas vezes das sessões de filmes coçando a perna ou as costas e César alegava que era piolho de pombo porque a janela tinha ficado aberta. Frai Alki tinha vindo ainda filhote pra lá e foi treinado por todos, Quaia o ensinou a rolar, Catarina o ensinou a morder sendo mordida e correndo sempre dele, Seu Jura o ensinou que jamais iria ter ração e César o ensinou que o ser humano faz carinho de um jeito muito diferente dos outros membros da família. Era seu hábito pensar naquela família como um bando de pardais sem asas e grandes demais pra ele comer. Seu comportamento era baseado em como estava sua fome, sabia que de preferência Seu Jura lhe daria um bom pedaço de osso de galinha aos domingos porque ficava com o maior pedaço e que César no fim da tarde iria jogar um pão doce com creme amarelo em cima. Odiava ouvir o rádio do vizinho que lavava e encerava o carro aos sábados, ficava meio enjoado com o cheiro da cera Grand Prix, ainda assim ficava ali no cantinho do muro escutando o programa Extra Beat da Extra FM com o melhor do funk embora sua preferência parecesse mais por Arvo Pärt e John Cage. Quando ouvia lá do seu cantinho Cantus in memory of Benjamin Britten, sabia que era o momento que César iria assobiar para a brincadeira do Quarto, os três primeiros toques do sino tubular da música o fazia pensar sobre sua audição, no menor toque do instrumento na versão ao vivo, fechava os olhos e esperava o carinho de César.
Aprendi a presteza canina e ouvir a música com esse rapaz que agora toca a minha barriga, sabe que eu gosto de música, a única vez que ele não colocou pra tocar ficou sangrando um pouco pelo dedo, desde então sempre tem música. Por duas vezes usei o focinho para pressionar a tecla repeat, fiz parecer sem querer mudando também o modo equalizador de jazz para rock. E qualquer delicadeza maior que eu tivesse entregava o ouro, por sorte a expressão do meu rosto com os olhos fechados é disfarçada pelo ato do rapaz comigo. É uma troca, ele precisa de mim pra sentir prazer sexual e eu dele pra ouvir a música que gosto. Já experiente em Arvo Pärt, aprendi também a diferenciar Chopin de Mozart e este último de Beethoven, resultando num uivo que guardo na mente, jamais ousaria cantar em público, mas penso que Pierre Boulez iria adorar o meu alcance de agudos, treino com frequência, mas não com frequência suficiente pra cantar em voz alta. Gostaria de registrar esse relato de alguma outra maneira que não um pensamento sobre esse rapaz, esses ataques que me faz no meu sexo precisam ser mais frequentes para que eu possa ouvir mais música, lá do canto tudo se confunde, a enxada do pedreiro que tá comendo a mulher do Seu Orlando, o lápis do Marco Aurélio de oito anos fazendo o dever de casa, que imagino seja algo parecido com o que faço quando coço a nuca, o banho da Catarina, esse caos não me deixa atenção no sino tubular, penso na voz do meu pai como esse sino, uma voz marcante e repetitiva, o sino como um latido esperançoso de que todo ruído possa ser música, latido-canto em memória de meu pai, nunca soube o nome dele, mas esse rapaz disse que devo ter herdado o tamanho do sexo do meu pai, ele chama meu sexo de pau. Ele adentra também a minha parte atrás, chama de rabo e chama também a minha cauda de rabo, deve ser confuso, ofereceu o meu sexo, meu pau, para a Soraia, prefiro quando ele coloca a boca, ela não coloca música e não posso morder ela por conta da minha ética, a única fêmea humana que eu mordo é Catarina ou alguma que pular o muro. Penso no que eles fazem comigo durante a escuta de Arvo Pärt como um tipo de cerimônia religiosa. Há cantos, hinos, posturas, posições, falas, gemidos, o rosário da Dona Emília, minha verdadeira dona, no meu pescoço e alegria, uma alegria divina mesmo. Esse rapaz gosta muito de mim, pelo menos nas quintas em que seu reino é bonito comigo. No dia seguinte tenho que me recuperar e prefiro ficar quieto, nem como direito, sexta da paixão ele me diz, tá na sexta-feira da paixão Frai Alki?, eu não sei o que significa isso, fico calado e com um pouco de medo que já me chame logo pra mais uma cerimônia.
A atmosfera do meu canto fica diferente nas sextas, o outro rapaz, que anda sumido, me dirige a palavra de outro modo, pega nas minhas patas dianteiras e faz que dança cantando em inglês uma música que eu não ousaria cantar agora mas cuja tradução seria algo como: ei, vamos lá, mexa isso, mexa esse corpo. As pessoas, cês não sabem, ocês não sabem, já era hora, cê consegue ouvir a turma? Tá bombando enquanto cê prova um pedaço meu, tenho muitos sabores diferentes e este meu tempero é forte. Entre na coisa quente, me deixa colocar uma musiquinha. Querida, me deixa mostrar como fazer isso. Cê tem que mexer isso, cê tá indo bem, não tem nada a ver com isso, cê tem que curtir, vamo lá e mexa isso. Mexa esse corpo para... Gente, cês não sabem, ocês não sabem, tem que dançar. Mexa esse corpo pra mim. Mexa esse corpo pra mim. Mexa esse corpo. Ele repete bastante essa parte de que eu tenho que mexer o corpo, mas ele mesmo não me deixa mexer e me balança, eu mexo o corpo porque ele me balança, não entendo de dança, mas não me parece que seja bem assim. E continua: cês não sabem que já era hora? Ocê consegue ouvir a música, ela tá bombando? Enquanto ocê prova um pedaço meu? Consegue sentir a doçura rastejando rápido? O ritmo do bebê baterista explode. Bombeie, mexa, mexa, mexa para cima. Nada pode fazer isso parar, tem que dançar isso. Baby, deixa eu te mostrar como... Faça isso ocê tem que... Mova isso ocê tem que... Ocê tem que dançar mex-e-e-e-e dançar. Mexa isso e dance isso. Mexa esse corpo pra mim. Mas como disse, ele canta em inglês, num inglês péssimo que no refrão que não para de repetir e fico esperando a quinta-feira pra tirar da minha cabeça é assim no inglês dele: shake that body, shake that body for me. Acho impressionante que Seu Jura diga que os dois são irmãos, será possível que eu tenha algum irmão que não saiba a diferença entre Górecki, Pärt e Glass? Não é possível, mas tudo é possível.
Ainda nada do rapaz colocar a música e vir me tirar daqui, semana passada não veio, será que tava doente ou enjoou do meu pau, porque ele brinca com a Soraia também enquanto fico olhando, diz que quer que eu aprenda a fazer com ela o que ele faz, mas olha o tamanho dele e o meu, não sei se consigo, ela teria que abaixar muito. E desde que me esfreguei na perna da mãe dele no jantar de Natal, tenho evitado esse tipo de constrangimento, espero que ele tranque bem a porta no dia que tentar me colocar pra cruzar novamente com Soraia.
César tinha um esboço feito com caneta tinteiro do quadro La Gimblette de Jean-Honoré Fragonard, com a data original do quadro 1770 e a data original do esboço 1993. Me mostrou duas vezes o desenho e disse que era eu e ele ali, mas o cachorro do desenho era branco, não sei direito se é um pug, um spaniel ou um poodle com uma peruca de juiz da suprema corte, mas é um cão sendo levantado por uma garota na cama e César jamais foi uma menina, poderia ser Soraia e eu, mas a menina do desenho tem nos cabelos a palavra loiro escrita por ele. Na pintura, uma jovem deitada na cama, segurando um pequeno cachorro cujo rabo se move entre suas pernas, acariciando sua buceta e bunda. Sua energia fálica é palpável. A mesa de cabeceira da moça tá aberta, uma alegoria visual de sua receptividade aos avanços sensuais. A fita azul fresca da touca de dormir da moça ecoa no laço do cão: as duas belas criaturas estão em harmonia. O artista indica que o instinto sexual é compartilhado entre todos os animais, sejam humanos ou não. Ainda tenho dúvidas que César seja todo humano por exemplo. Uma cena de adoração e prazer erótico. Os animais humanos têm um histórico ruim em expressar amor por outras criaturas, vide essa corrente que preciso sustentar mesmo deitado. Admiram a vida selvagem exótica enquanto acabam com ela. Ficam angustiados com o tratamento cruel dispensado aos animais mas regulamentam seu abate em matadouros, a cabeça dessa turma não é nada boa. Cá no ocidente são totalmente dependentes da criação de animais, o que envolve práticas de extraordinária crueldade. Gosto de chamar a nossa relação de Carnofalogocentrismo.
Dizem que aqueles que agem de acordo com suas fantasias são bestiais, rebaixados de sua elevada posição no topo da criação de D-us. Não entendo nada disso, me prender numa corrente é bom e me soltar para o sexo é ruim? E tem mais, quanto mais os psiquiatras têm poder institucional, mais os animais humanos que fazem sexo com animais não-humanos mais são diagnosticados com transtornos psiquiátricos. Pra eles o nome é zoofilia, um tipo de fetiche que envolve um anseio por animais. Há uma série de estudos que retratam pessoas que se envolviam em atos sexuais com animais como personalidades profundamente desagradáveis. Essas, pra eles, os animais humanos psiquiatras, possuíam uma grave mácula e sofriam de uma neurose constitucional que os tornava impotentes para o ato normal do sexo. Os tais bestialistas eram degenerados, acho bonita pra caramba essa palavra. Um dos pacientes cuja mãe solteira era profundamente contaminada epilética, tinha o crânio deformado, assim como o do filho, o paciente, e a deformidade e assimetria dos ossos do rosto eram prova da degeneração psíquica. Um monstro humano, que havia sido masturbador e abusador de animais desde a juventude, assim como César.
Outro caso que li nos cadernos de César é o do jovem que apresentava imperfeições físicas e morais, sendo baixo, o tronco é ligeiramente assimétrico, mas sem deformidade acentuada, o crânio exibe um achatamento anormal da projeção óssea frontal e temporal direita, daí uma assimetria facial muito distinta, o céu da boca é pontiagudo e os dentes estragados. Como se isso não bastasse, era viciado em masturbação e não demonstrava nenhum interesse por esportes, parecia um pouco o Quaia. Tinha paixão por coelhos e ao cair da noite, subia as escadas do sótão onde os coelhos de seu patrão estavam, agarrava um deles e beijava por horas, de língua, lambendo o dorso, esfregando no corpo e nas palavras do psiquiatra, realizava o coito. Órgãos excrementais de uma fêmea, palavra bonita para o que César chama de rabo, estavam envolvidos em pederastia ativa, que eu chamo de cerimônia. Isso era evidência de que eles sofriam de um transtorno mental muito mais grave do que os homens que preferiam fêmeas, porque nesses casos não havia a inversão, mas apenas anomalia na escolha da companhia.
O melhor relato pra mim é o do Prêmio Nobel J. M. Coetzee, em seu romance A vida dos animais apresenta Elizabeth Costello, romancista australiana e amante dos animais. Ela acreditava que a sensação de ser era uma fortemente afetiva, de um corpo com membros que se estendem no espaço, de estar vivo para o mundo. Isso era compartilhado por todas as criaturas sencientes. Argumentava que não havia limites para a imaginação compassiva. Se eu consigo imaginar a existência de um ser que nunca existiu, então posso imaginar a existência de um camelo, uma formiga, ou uma arraia, qualquer ser com quem eu compartilhe o substrato da vida. Mas filósofos e romancistas não negam que existam dificuldades inerentes em saber o que o Outro tá sentindo e desejando.
Abaixo um trecho do caderno de César:
Uma noite em que estava com Soraia na casa de um amigo e Soraia um pouco bêbada tentou lhe dizer que precisava sair do quarto para cagar. Assim que se levantou coloquei meu prato no chão e pedi pra que ela fizesse ali, na nossa frente. Fez um charme, abaixou a calça junto com a calcinha e fez, sem esforço, de cabeça baixa. Meu lindo animal, minha amiga, que depositava em mim uma confiança amorosa que era absoluta, minha cadela que obedece e o faz porque gosta de obedecer. Que maravilha ter um animal vindo até nós pra se comunicar, sou eu também o animal dela, pronto pra realizar fantasias sem fim. O que significa não amar? Não posso escolher o tempo devo encontrar meu próprio caminho, um raio de lua passa e nos prados brancos, grita: boa noite. Por que devo ficar por aqui mais tempo esperando que alguém me expulse? De frente à casa de seus donos! O amor ama vagar, D-us nos fez assim, um para o outro, boa noite, boa noite!
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