A história que você lerá a seguir é breve, mas cheia de significado.
Eu peço licença poética para contá-la ao meu modo, mas vou deixar o trecho original ao final deste e-mail.
Essa historinha é apenas uma passagem e parece besta, de forma que eu relutei em escrever este e-mail com medo de passar vergonha.
Na verdade, ela não passa de um relato isolado de 7 linhas dentro de um livro de 240 páginas, que nem sequer tem ligação com o enredo, mas que me tocou de forma que eu nunca mais esqueci.
E não é assim que acontece com a vida também?
O que nos brilha os olhos são os pormenores.
É fascinante que um desvio de olhar, por um segundo que seja, mude tudo.
Foi o caso desta historinha:
Essa é a história de uma menina mimada que se recusou a tomar o seu leite numa xícara comum. Ela queria seu copo de estrelas.
Ela queria o seu copo de estrelas porque tomar o leite nele era melhor. Simplesmente.
Não lhe importava os olhares tortos da garçonete.
Nem as broncas da sua mãe envergonhada, que insistia para que ela parasse de fazer birra e tomasse de uma vez por todas o leite no copo normal.
Mas ela insistiu no seu copo de estrelas.
“consigo ver estrelas enquanto bebo no meu copo, nesse aqui eu não vejo nada. Se eu não posso tomar no meu copo de estrelas, eu prefiro não tomar”
No canto do Café, observando a cena, estava Eleanor, que em vez de revirar os olhos como todos os outros, pensou consigo:
“Isso, menina. Não aceite tomar leite no copo comum.
Insista em seu copo de estrelas, porque uma vez que eles te forçarem a ser como todo mundo, você nunca mais verá seu copo de estrelas”
Até que pela última vez a mãe insistiu e pela última vez a garotinha recusou.
Eleanor sorriu e pensou: “menina corajosa.”
E voltou para a leitura do seu livro.
Eu sei que, ao primeiro olhar, essa garotinha parece insuportável.
Eu mesma reviraria os meus olhos se visse uma cena dessas enquanto tomo meu café.
Mas vamos esquecer que se trata de uma criança mimada e pensar na metáfora, para variar.
Vamos pensar, por exemplo, na quantidade de vezes que você aceitou tomar o seu café numa xícara sem estrelas e acabou aceitando, por repetição, uma vida sem estrelas.
Eu penso, cada vez mais, que não se acostumar muda a coisa toda.
Não se acostume com uma vida normal.
Não se acostume com xícaras normais.
Se recuse. Você sabe do que eu estou falando.
Seja a menina mimada da mesa de café.
Perceba que a vida dá mais chances para quem é teimoso, ainda que você tenha que esperar um pouco mais.
Caso contrário, se perde o brilho. E se perde tão facilmente…
Às vezes, basta uma vez para se renda ao copo normal.
E então você nunca mais verá o seu copo de estrelas.
Se recuse.
Insista numa vida com estrelas.
Abaixo, a história original retirada do livro A assombração da casa da colina de Shirley Jackson:
Eleanor olhou para cima, surpresa; a menina estava deslizando para trás em sua cadeira, mal-humorada recusando seu leite, enquanto seu pai franzia a testa e seu irmão ria e sua mãe dizia calmamente: "Ela quer seu copo de estrelas". De fato, sim, pensou Eleanor; de fato, eu também; uma xícara de estrelas, é claro. "O copinho dela", a mãe estava explicando, sorrindo em tom de desculpas para a garçonete, que ficou chocada com a ideia de que o bom leite da fábrica não era rico o suficiente para a garotinha. “Tem estrelas no fundo e ela sempre bebe o leite dela em casa. Ela chama isso de sua xícara de estrelas porque ela pode ver as estrelas enquanto bebe seu leite." A garçonete assentiu, não convencida, e a mãe disse à garotinha: 'Você tomará seu leite de sua xícara de estrelas esta noite quando chegarmos em casa. Mas por enquanto, só para ser uma garotinha muito boa, você aceita um pouco de leite deste copo?" Não faça isso, Eleanor disse à garotinha; insista em seu copo de estrelas; uma vez que eles o prenderam a ser como todo mundo, você nunca mais verá seu copo de estrelas; não faça isso; e a garotinha olhou para ela e deu um pequeno sorriso sutil, com covinhas, totalmente compreensivo, e balançou a cabeça teimosamente para o vidro. Garota corajosa, pensou Eleanor; menina sábia e corajosa.”
Com amor,
Bárbara Albach Ricartes. (Porque agora eu sou uma senhora casada)
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