Tenho pra mim que interpretamos o mundo de acordo com a cor da nossa alma.
Tenho uma anotação no meu caderno que diz “O que vemos é o que somos".
Não sei se é de Saramago ou Fernando Pessoa, seja lá de quem for, é brilhante.
“O que vemos é o que somos".
É uma pena que a maioria de nós sejamos tão pouco.
E tão tristes. E tão cinzas.
Particularmente, gosto mais de mim quando estou reflexiva e melancólica.
Assim eu vejo o mundo vagarosamente, sem pressa.
Acho belo este mundo que não precisa ser espalhafatoso para ser feliz.
Isso também serve para pessoas.
Essa é também minha versão que gosta de poesia.
É a minha versão que tem certeza que Bukowski escreveu o poema “uma definição” chorando.
Porque ninguém escreve aquilo sem antes ter morrido por dentro.
De igual forma: ninguém lê aquilo uma só vez.
E ninguém deveria ler aquilo sem ter bebido no mínimo 3 taças de vinho.
É a minha versão que leu a frase que Edward falou para Elinor em “Razão e Sensibilidade” de Jane Austen e precisou mudar de vida.
“Conhecer você e não ficarmos juntos seria um pesadelo.”
Passei a viver por esta frase desde então.
É minha versão que cria teorias aleatórias. Tenho tantas.
Uma delas é sobre a poesia, veja:
Tenho a impressão que ela vive para os desequilibrados.
Os 8 ou 80. Jamais os do meio.
Se ela fosse uma pessoa, reviraria os olhos de tédio para aqueles que são estáveis.
Ela gosta ou dos perdidamente apaixonados ou daqueles com o coração despedaçado.
Qualquer coisa entre esses dois extremos a faria vomitar.
Não há meio termo que a entenda, e vice-versa.
Não à toa lembrei de um trecho maravilhoso de “Orgulho e preconceito” que eu tive que ler pelo menos 10 vezes para entender.
Mas uma vez entendido, torna-se um contentamento.
Ela diz:
“- Eu me pergunto quem descobriu o poder da poesia para espantar o amor.
- Achei que fosse o alimento do amor.
- Do amor belo e vigoroso. Mas se é apenas uma vaga inclinação, um pobre soneto o liquidará.”
Ou seja: a poesia não leva desaforo de sentimento pouco.
Ela ou mata ou cura.
Tem que ser grandioso, caso contrário qualquer “pobre soneto o liquidará”. (que frase!)
Que bela visão de mundo a poesia tem, essa de não suportar o morno. Não acha?
Com amor,
Bárbara
Leia o poema “uma definição” do Bukowski aqui:
- Uma definição
amor é uma luz à
noite atravessando o nevoeiro
amor é uma tampinha de cerveja
pisada no caminho
do banheiro
amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos
amor é um gato esmagado
amor é o velho jornaleiro na
esquina que
desistiu
amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
amor é o que desapareceu junto
com a era dos navios encouraçados
amor é o telefone tocando,
a mesma voz ou uma outra
voz mas nunca a voz
correta
amor é traição
amor é o incêndio dos
sem-teto num beco
amor é aço
amor é a barata
amor é uma caixa de correio
amor é a chuva sobre o telhado
de um velho hotel
em Los Angeles
amor é o seu pai num caixão
(aquele que te odiava)
amor é um cavalo com a perna
quebrada
tentando se levantar
enquanto 45.000 pessoas
observam
amor é o jeito que nós fervemos
como a lagosta
amor é tudo que nós dissemos
que não era
amor é a pulga que você não consegue
encontrar
e o amor é um mosquito
amor são 50 lançadores de granada
amor é um pinico
vazio
amor é uma rebelião em San Quentin
amor é um hospício
amor é um burro parado numa
rua de moscas
amor é um banco de bar vazio
amor é Dostoiévski na
roleta
amor é o que se arrasta pelo
chão
amor é a sua mulher dançando
colada com um estranho
amor é uma senhora
roubando um pedaço de
pão
e o amor é uma palavra usada
muitas vezes e
muitas vezes
cedo demais.
Bukowski
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