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Bárbara’s Substack · Mar 15, 2024

“O que vemos é o que somos".

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Bárbara Albach Ricartes · Bárbara’s Substack

Tenho pra mim que interpretamos o mundo de acordo com a cor da nossa alma. 

Tenho uma anotação no meu caderno que diz “O que vemos é o que somos". 

Não sei se é de Saramago ou Fernando Pessoa, seja lá de quem for, é brilhante.

O que vemos é o que somos".

É uma pena que a maioria de nós sejamos tão pouco. 

E tão tristes. E tão cinzas.   

Particularmente, gosto mais de mim quando estou reflexiva e melancólica. 

Assim eu vejo o mundo vagarosamente, sem pressa. 

Acho belo este mundo que não precisa ser espalhafatoso para ser feliz. 

Isso também serve para pessoas. 

Essa é também minha versão que gosta de poesia. 

É a minha versão que tem certeza que Bukowski escreveu o poema “uma definição” chorando.  

Porque ninguém escreve aquilo sem antes ter morrido por dentro. 

De igual forma: ninguém lê aquilo uma só vez. 

E ninguém deveria ler aquilo sem ter bebido no mínimo 3 taças de vinho. 

É a minha versão que leu a frase que Edward falou para Elinor em “Razão e Sensibilidade” de Jane Austen e precisou mudar de vida.

“Conhecer você e não ficarmos juntos seria um pesadelo.” 

Passei a viver por esta frase desde então. 

É minha versão que cria teorias aleatórias. Tenho tantas.

Uma delas é sobre a poesia, veja: 

Tenho a impressão que ela vive para os desequilibrados. 

Os 8 ou 80. Jamais os do meio.  

Se ela fosse uma pessoa, reviraria os olhos de tédio para aqueles que são estáveis. 

Ela gosta ou dos perdidamente apaixonados ou daqueles com o coração despedaçado. 

Qualquer coisa entre esses dois extremos a faria vomitar. 

Não há meio termo que a entenda, e vice-versa.   

Não à toa lembrei de um trecho maravilhoso de “Orgulho e preconceito” que eu tive que ler pelo menos 10 vezes para entender. 

Mas uma vez entendido, torna-se um contentamento. 

Ela diz:

“- Eu me pergunto quem descobriu o poder da poesia para espantar o amor.

- Achei que fosse o alimento do amor.

- Do amor belo e vigoroso. Mas se é apenas uma vaga inclinação, um pobre soneto o liquidará.”

Ou seja: a poesia não leva desaforo de sentimento pouco. 

Ela ou mata ou cura.

Tem que ser grandioso, caso contrário qualquer “pobre soneto o liquidará”. (que frase!)

Que bela visão de mundo a poesia tem, essa de não suportar o morno. Não acha?

Com amor,

Bárbara 

Leia o poema “uma definição” do Bukowski aqui: 

- Uma definição

amor é uma luz à

noite atravessando o nevoeiro

amor é uma tampinha de cerveja

pisada no caminho

do banheiro

amor é a chave perdida da sua porta

quando você está bêbado

amor é o que acontece

uma vez a cada dez anos

amor é um gato esmagado

amor é o velho jornaleiro na

esquina que

desistiu

amor é o que você acha que a outra

pessoa destruiu

amor é o que desapareceu junto

com a era dos navios encouraçados

amor é o telefone tocando,

a mesma voz ou uma outra

voz mas nunca a voz

correta

amor é traição

amor é o incêndio dos

sem-teto num beco

amor é aço

amor é a barata

amor é uma caixa de correio

amor é a chuva sobre o telhado

de um velho hotel

em Los Angeles

amor é o seu pai num caixão

(aquele que te odiava)

amor é um cavalo com a perna

quebrada

tentando se levantar

enquanto 45.000 pessoas

observam

amor é o jeito que nós fervemos

como a lagosta

amor é tudo que nós dissemos

que não era

amor é a pulga que você não consegue

encontrar

e o amor é um mosquito

amor são 50 lançadores de granada

amor é um pinico

vazio

amor é uma rebelião em San Quentin

amor é um hospício

amor é um burro parado numa

rua de moscas

amor é um banco de bar vazio

amor é Dostoiévski na

roleta

amor é o que se arrasta pelo

chão

amor é a sua mulher dançando

colada com um estranho

amor é uma senhora

roubando um pedaço de

pão

e o amor é uma palavra usada

muitas vezes e

muitas vezes

cedo demais.

  • Bukowski 

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Read the original on barbaraalbach.substack.com

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