Eu sempre fui melancólica. Pareço ter perdido alguma coisa, não se sabe onde nem quando, só se sabe que foi embora e não volta por nada.
Tenho uma leve inveja de quem vive a vida sem olhar tanto pra dentro. Suponho que quem vive sem sentir exageradamente cada passo que dá tem uma existência mais leve, mais elegante até. Elas devem seguir um caminho, suspeito, menos tortuoso.
Malditas pessoas tranquilas, essas que passam pela vida sem se perder nos próprios vazios…
Porque eu mesma me sou insuportável. Me perco o tempo inteiro, tenho que preencher minhas lacunas com estruturas às vezes nocivas, mas tenho.
E possuo um medo peculiar: o de entender e deixar de sentir.
Não quero entender, não me importo em entender. Me esforço para isso. Enquanto todos cometem o erro de pensar demais, eu cometo o erro de sentir demais. Este é o alto preço que eu pago por me conhecer tão bem.
Mas juro que não sou triste, só sou levemente soturna, distante, às vezes meio apática. Há dias em que tudo que eu posso é me recolher, é terrível e agradável ao mesmo tempo; este é um paradoxo que poucos entenderiam, sou cheia dessas incongruências.
Eu me esgoto tão facilmente, caio em ruínas num sopro. Tenho que pedir licença aos demais para me retirar e morrer um pouco. É uma situação desagradável, porque morrer é grave e ninguém gosta do fim. Mas o fim pra mim é todo dia.
É assim que eu consigo permanecer aqui, se fosse de outro jeito eu me esmoreceria, porque eu gosto muito de viver das coisas que os outros ignoram.
Mas apesar de todo esse drama que sou obrigada a enxergar no espelho todos os dias, ainda tenho um segredo, um ‘ass na manga’, como os mais extrovertidos dizem.
Me coloco entre duas aspas, por segurança, para que minha solidão intencional nunca seja tão desacompanhada assim. Para que eu sempre possa mudar de opinião sobre a existência dos Deuses e sobre minha uva de vinho preferida.
E para que eu sempre possa me dar o luxo de rasgar todos os meus planos e minhas poucas certezas e atear fogo em tudo.
Com amor,
Bárbara Albach
Obrigado por ler a Newsletter Páginas Grifadas. Esta publicação é pública, por isso sinta-se à vontade para a partilhar.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.