Em 2016, recebi um amigo de faculdade na minha casa-estúdio. Nessa época, eu tinha começado a Manifesto, meu estúdio de design, havia pouco mais de um ano. Já tinha vendido alguns bons projetos — o suficiente para ficar vaidoso na frente dos amigos.
Então Gabriel, meu amigo designer, parou em frente a uma prateleira de livros e ficou analisando.
“Você lê isso tudo aqui mesmo? Aqui não tem livros de design.”
Peguei um dos livros da prateleira e abri em uma marcação. Havia um capítulo inteiro grifado e rabiscado.
Eu disse:
“Tá vendo esse capítulo? Me rendeu 17 mil reais.”
Gabriel me olhou como se eu fosse um bandido.
“Como assim? O que você tá vendendo?”, perguntou, já puto da cara.
“Eu entrego design, mas não uso o design para vender.”
Foi nesse momento que comecei a perceber que o caminho que eu começava a trilhar como empreendedor seria bem diferente da “carreira do designer-foda” que eu idealizava vendo portfólios alheios.
Aprenda a aprender com os mortos.
A verdade é que eu aprendi cedo o papel dos livros.
Minha mãe sempre me incentivou a ler. Nunca me forçou, mas liderava pelo exemplo. Além de cultivar o hábito, deixava livros espalhados pela casa. Facilitava o acesso e normalizava a leitura na rotina.
Quando decidi que queria ser uma pessoa que lê, foi intencional. Tive que me forçar. Mas eu já carregava dentro de mim a clareza de que muitas respostas estavam nos livros.
Eu já tinha entendido que o conhecimento está disperso por diversas mentes ao redor do mundo — mentes que foram generosas o suficiente para registrar os rastros que as levaram a algum tipo de realização.
Hoje, percebo que essa consciência, por si só, me foi passada na criação. E muita gente passa boa parte da vida sem sequer se tocar disso. Gabriel, meu amigo designer, parecia estar se tocando naquela noite.
É isso que os livros nos possibilitam: adquirir, a baixo custo, um conhecimento que custou dor, tempo e sofrimento a alguém.
Pense em quantas pessoas já viveram antes de você. Pense na imensidão da vida delas, no que disseram, no que ouviram, no que fizeram. Pense nelas sentadas à escrivaninha, lutando para articular suas experiências para os outros. Pense nos historiadores, filósofos e sábios que dedicaram carreiras inteiras a descobrir como e por que certos acontecimentos ocorreram, por que e como indivíduos tomaram decisões cruciais. Pense em todos os livros que leram e destilaram apenas para criar e publicar um único volume.
Muitos deles estão mortos há muito tempo.
Ainda assim, continuam ao nosso alcance.
Os livros aproximam séculos, rompem barreiras, viajam no tempo e no espaço, e colocam diante de nós um leque imenso de perspectivas. É como se essas pessoas estivessem nos oferecendo a mão para caminhar com a gente vida afora.
Atualizei a minha lista de leituras. Não deixei nada de fora.
A lista é extensa, mas estão ali apenas os livros que representaram uma peça fundamental na minha vida de alguma forma.
Uma coisa que aprendi com minha mãe e repasso para você:
estar lendo é mais importante do que aquilo que você lê.
Na maior parte das vezes, a luta não é para “escolher o livro certo”, mas para se acostumar a ser uma pessoa que lê.
Porque quem lê melhor, pensa melhor. E quem pensa melhor, projeta melhor.
Você deixa de vender design apenas como execução e passa a vender clareza, direção e valor.
Boa leitura.
LONA
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