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Alma transgressora · Apr 1, 2024

Sorriso minguante

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Cíntia Ribeiro de Santana · Alma transgressora

(Foto de Dids)

Cansei de ser minha “versão possível”: a mãe possível, a profissional possível, a filha possível, a mulher possível…

Coisa mais sem graça.

Hoje tô querendo o impossível. O inalcançável, o utópico, o onírico!

Pretendo vestir aquela versão que está no imaginário popular mais ilusório. Sair toda trabalhada no ideal. Não seria bom, vez ou outra, incorporar a melhor versão top master plus do nosso ser?

Tem dias que o possível, além de medíocre, é chato que só.

“Vai uma dose de realidade, senhora? Ih, não, obrigada. Às segundas-feiras estou interessada na fantasia. Com licença, preciso assumir meu avatar azul e passar um tempo em Pandora observando plantas bioluminescentes”.

O possível é irritante porque escancara a humanidade que às vezes eu não queria ter.

Sei que esse conceito do “possível” existe para me ajudar a não carregar culpas indevidas. Dar descarga na pressão social de ser impecável. Morte ao perfeccionismo! Até aí, excelente.

Acontece que nem sempre me satisfaço com a versão possível que vejo no espelho.

(Tem muita coisa por trás dessa insatisfação, analistas observarão. Mas hoje eu tô no raso. Tá bem? Pode ser? Não quero ouvir vozes. Preciso de oxigênio, item raro nas fossas abissais onde costumo passar a vida). 

Já pensou poder lançar mão de uns superpoderes?

Do nada, pá: manipulação do tempo. Pára tudo que vou dormir por dezoito horas seguidas e ninguém vai exercer qualquer função durante esse tempo. Quando eu despausar o relógio, poderemos voltar às atividades rotineiras como trabalhar e ser infeliz.

Outra coisa que adoraria é ter o dom do teletransporte. Sonho! 

Para onde você iria se pudesse piscar e aparecer em qualquer lugar, neste exato momento?

Eu? Agora? Para a Lua. 

Não sem antes dar um pulo na NASA a fim de buscar trajes espaciais e talvez um ou outro acessório intergaláctico. Se bem que com superpoderes eu poderia ter pulmões adaptados à atmosfera lunar. Bom. Sei que passaria o dia flutuando entre corpos celestes, torcendo para ser polvilhada por alguma estrela cadente.

Ver a Terra de longe talvez fosse uma das únicas coisas que me arrancaria um sorriso minguante, nesses dias tepeêmicos. 

Ando cansada de tanta humanidade. 

Sim, almas também se cansam, acho.

Perdem a esperança, o brilho, a magnitude cósmica.

Pode ser que seja aquela doença de novo. Aquela, sabe? Que não se dizia o nome antigamente, como se fosse contagiosa. “Shhhh. O médico disse que ela não tá bem da cabeça. Anda pensando coisa que não presta…”

Só mesmo a depressão me faria priorizar trevas de buracos negros em vez da policromia mágica das florestas, da força bruta das cachoeiras ou do estalo de galhos secos na fogueira em brasa - em caso de teletransporte.

Para melhorar a semana, ela vem acentuada por hormônios em erupção. Estão em plena montanha russa pré-menstrual, os desgraçados. Fazendo o meu gráfico do humor parecer um W. Super divertido.

Tento pensar na dança dos vagalumes, na pureza de filhotes mamíferos, na graciosidade da borboleta que acabou de se metamorfosear, no abraço molenguinho dos meus filhos quando acordam parecendo pães semi-italianos recém-saídos do forno. Nada disso me altera a expressão de melancolia.

Preciso de um mundo paralelo para descansar da minha humanidade.

Pasárgada? Nárnia? Oz? Um vilarejo com portas e janelas sempre abertas pra sorte entrar?

Sei lá. 

Queria o superpoder de nunca perder o encantamento com a vida. De me enternecer com o olhar das crianças para as descobertas. De sentir constantemente a pele arrepiada de prazer. De sorrir com o vento no rosto que refresca as ideias em dias abafados. De preservar imutável a alegria de cantar samba, dançar zumba e improvisar jazz.

Para esse ideal existir, eu só precisaria abrir mão da minha humanidade.

Autocentrados em nossas dores, certamente também ficamos menos sensíveis a quem nos rodeia. É a história do filtro de cerâmica que não consegue distribuir água se estiver rachado, perdendo mais líquido do que consegue repor - metáfora que uso no livro “De fora para dentro” para descrever o contexto que me levou a um burnout.

Ainda que não pareça, sou uma grande entusiasta das versões possíveis.

Questão de sobrevivência.

Mas há dias piores que outros.

Se tivesse mesmo superpoderes, avançaria o tempo direto para algum amanhã sem dor.

No entanto, minha versão possível e eu estamos aqui, paradas nesta tarde desagradável de alterações hormonais. Tentando produzir sentenças sem sentido para esperançar quem por ventura me leia.

Nos últimos dias, meu filho tem dormido observando as estrelinhas neon que colamos no teto do seu quarto, na casa recém-reformada para onde nos mudamos há pouco, depois de quase um ano vivendo como nômades.

O espaço sideral do Levi agora é enorme. Tem cerca de nove metros quadrados. E nesse universo cabe o mundo inteiro. 

Deitado com as mãozinhas abaixo da cabeça, em posição de contemplação, observa a beleza do que não consegue alcançar. E dorme sorrindo, mesmo habitando uma casa inacabada.

Talvez seja essa a minha busca, também. Uma contemplação silenciosa do que não está ao meu alcance. Do que considero belo, ainda que incompreensível. De tudo que não controlo mas me impacta profundamente. Dessa reforma interna metanóica que não parece ter previsão de acabar.

Tal qual as órbitas dos planetas e as fases da Lua, também somos feitos de ciclos. Estamos inseridos num ecossistema vivo.

Não fazemos parte da natureza, nós somos a natureza!

Dia e noite. Quatro estações. Rotação e translação. Maré alta e maré baixa.

Quando me permito observar as fases que me afetam, posso ter um pouco de compaixão por meu sentir. Respeitar minha necessidade momentânea de reclusão. Introspecção. Solitude.

Se você tentar me ligar e eu estiver offline, já sabe. Ali na região da Lua ainda não tem wi-fi. (Fica a dica, caso conheça alguma pessoa precisando minguar para depois crescer nova e cheia. De si).

Beijo, outro, tchau.

É cansativo viver em guerra com o ego. Mas, cuidado: silenciar a alma pode ser mortal.

Conte com você.

Tô sempre por aqui, caso queira me mandar um oi: cintia.escrita@gmail.com.

Boa semana pra você, alma querida.

Para você que me lê também.

Read the original on almatransgressora.substack.com

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