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Alma transgressora · Apr 8, 2024

Alguém está realmente ouvindo?

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O esgotamento mental a que nos submetemos vem da overdose informacional que nos aniquila o presente.

(Foto de Michelangelo Buonarroti)

Conhece alguém que adora dar detalhes desnecessários? 

Ah, gente. Pra quê?

Ninguém está com tempo sobrando. Todo mundo fingindo ser educado. Respirando fundo para não perder o réu primário no trânsito. 

E se a gente escutasse o que o outro perguntou e apenas respondesse assertivamente?

Não. A pessoa quer dar contexto.

Só que quem muito explica perde a atenção de quem escuta. Com você também é assim?

Perguntei “berinjela”. Respondeu “couve-flor”? Não estou ouvindo. Mostro os dentes amarelos enquanto minha mente está implorando, com voz da moça do Google Maps: “vire à direita três vezes e retorne à avenida berinjela que era o tema da conversa inicial”.

Parece que andamos piorando nossa competência comunicativa.

Preocupados com nossas próprias demandas, sinto que vamos nos tornando insensíveis ao outro. Como se o avanço tecnológico causasse o proporcional retrocesso da empatia.

Temos pouco tempo e, portanto, paciência escassa. Por outro lado, sentimos tantas faltas que precisamos ser vistos, ouvidos, seguidos, apreciados, amados.

Pouco importa se a pergunta foi X. Se nossa necessidade é falar Y, isso responderemos.

Alguém quer ouvir? Bem. Se não, simples: silencie, pule, cancele, bloqueie. Há muitas opções!

Importa o eu. Pá. Protagonista da minha vida.

Corta.

Deixa eu dar um contexto? Não vale parar de prestar atenção, porque você nem perguntou nada e, portanto, não estou impedindo nossa comunicação de funcionar, tá bem?

Muito bem.

Era uma vez uma coisa chamada comunicação, em que alguém queria transmitir uma mensagem (emissor) e alguém se dispunha a recebê-la (receptor). Para que fosse considerada efetiva, o receptor deveria não apenas recebê-la, mas também dar sinais de que a compreendeu.

Lá no Paleolítico, a galera já fazia isso desenhando nas cavernas. Alertavam uns aos outros sobre perigos, condições climáticas, técnicas de obtenção de alimentos, coisa e tal. De quebra, presentearam as futuras gerações com registros dos primeiros agrupamentos sociais pré-históricos.

Antes de ontem, depois da Revolução Industrial, rolou uma mudança importante na comunicação: surgiram os meios de comunicação de massa, usados para alcançar um bando de gente de forma simultânea (diferentemente das cartas, telégrafos e pombos-correio que, até então, viabilizaram a comunicação individual).

Então, os tais meios de comunicação de massa passaram a controlar o que as pessoas poderiam consumir como conteúdo: filme com cenas editadas, novela da família tradicional eurocêntrica, futebolzinho maroto, entretenimento que reforçava estereótipos doentios de nossa idolatrada sociedade machista, racista e homofóbica. Sabe? 

Não faz muito tempo. Você já era vivo. (Talvez bem mais que hoje, inclusive, porque agora você está só o pó da exaustão. Tô errada?)

Os donos da mídia, que eram os únicos capazes de propagar mensagens para muitas pessoas ao mesmo tempo, centralizavam o que seria transmitido. Não, não estou chamando isso de manipulação. Imagina. É que, casualmente, eles detinham esse poder e, portanto, faziam o sacrifício de escolher o que poderia ser dito. Ou não. E aí faziam pesquisas eleitorais e de opinião para ver se a comunicação estava sendo efetiva.

(Soraya? Mara? Cristiane? Alguém que ainda não conheço? Seja quem for que está dominando esse controle da ironia e do sarcasmo, por favor, esteja à vontade para continuar, que está divertido).

Até que chegou a internet. A Era do Conhecimento. Barreiras geográficas e tecnológicas foram rompidas e qualquer mortal passa a ter a possibilidade de transmitir mensagens a muitas pessoas ao mesmo tempo. Criar sua própria “emissora” no Youtube. Ganhar dinheiro com isso. Produzir conteúdos que jamais teriam espaço na mídia tradicional. Ampliar debates marginais. Questionar discursos que se apresentavam como verdades absolutas.

Sensacional. Excelente. Necessário.

(Sei que por outro lado também passou a ser possível disseminar discursos de ódio extremistas de forma anonimamente covarde. Praticar atos criminosos como pedofilia em série. Profissionalizar máfias de exploração sexual. E a lista da desgraceira é grande… Mas vou focar hoje, aqui, nessa ampliação do volume de emissores e dessa quantidade infinita de informações disponíveis que nos gera ansiedade).

Com a suposta democratização dos meios ditos sociais em que todos somos produtores de conteúdo, tenho a sensação de que estamos ficando (ainda mais) egocêntricos. Já reparou?

Agora que todo mundo quer falar, parece que ninguém mais sabe ouvir.

Todos podemos emitir nossos posicionamentos. Opinar sobre o que ninguém perguntou. Entregar conselhos que ninguém pediu. Mostrar que somos especialistas em qualquer porcaria. Ostentar nossa intelectualidade, nosso poder aquisitivo ou nossa gostosura em perfis ditos sociais.

Ei!

Alô?

Alguém está realmente ouvindo? 

Ou só está procurando captar o melhor do outro para poder superá-lo, alimentando, assim, o sistema canibalista, digo, capitalista - em que a competição é o mandamento fundamental? 

“Aniquilai-vos uns aos outros. Porque essa é a vontade daqueles que controlam os meios de produção”.

Preocupados em comunicar, perdemos o interesse - e talvez até a capacidade - de ouvir.

Não escuto mais uma mensagem e aquieto meu coração, contente e satisfeita. Consumo os conteúdos de quem admiro pensando que eu também poderia (ou melhor, deveria!) estar produzindo algo nessa linha. Alcançando mais seguidores. Ganhando algum dinheiro! Sendo mais feliz!!!

Se você apresenta sonolência excessiva, falta de força, mudanças no batimento cardíaco, dificuldade de respirar, confusão mental, fortes dores de cabeça, cuidado: esses são os sintomas de overdose. Sabe? Aquilo que acontece quando a gente se expõe a uma quantidade abusiva de coisas tóxicas.

Nosso organismo não processa o que está em excesso. Nem vitaminas! Há uma dose diária saudável que pode ser absorvida. Por que isso não pode valer também para informações que permitimos invadirem nosso sistema operacional?

Dizem que o presente não tem esse nome por acaso

Minha bisavó Carolina lavava roupa no rio. Tinha uma vida bastante pesada e dura. Física e financeiramente. Como em qualquer outra época, também enfrentava perrengues emocionais próprios do ser humano. 

No entanto, no século passado não se recebiam notificações no Whatsapp enquanto se acendia o fogão a lenha. No máximo, uma vizinha gritava na janela: “Acode, Dona Carolina, o bebê da Fulana está coroando!” 

Parteira em tempos de recursos escassos de todo tipo, aceitava galinha e abóbora como pagamento. E, pasme: precisava esperar a água chegar a 100 graus Celsius para ferver. Atendia demandas das mais urgentes da vida com paciência e sem atalhos tecnológicos. 

Por que estou descrevendo tudo isso? Sei lá. Detesto comparativos. São contextos abissalmente diferentes. Mas fico pensando que o esgotamento mental a que nos submetemos hoje em dia vem dessa overdose informacional que nos aniquila o presente.

Temos pavor de esperar. Fazer uma coisa por vez é improdutivo. Temos dificuldade de usar a palavra “não”. Ensinamos nossas crianças que é só apertar uns botões e as coisas acontecem de forma instantânea: a comida chega no portão, o desenho aparece na TV...

Pior: ensinamos os pequenos que é mais seguro e eficaz buscar respostas em desconhecidos digitais que em relações de confiança que construímos (ou neles mesmos!). Se não estivermos emocionalmente disponíveis, que confiança e que relação seremos capazes de nutrir?

Cada vez mais ausentes pela negligência emocional (de nossos filhos e de nós mesmos, como indivíduos), vamos alimentando as estatísticas de adoecimentos precoces por distúrbios evitáveis, se fôssemos capazes de ouvir…

É cansativo viver em guerra com o ego. Mas, cuidado: silenciar a alma pode ser mortal.

Conte com você.


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Traduzir a tempo do evento deu tanto trabalho que nem te conto, mas valeu demais.

Então me ajuda e indica pros amigo gringo é tudo, por gentileza, tá bem?

Thanks a lot.

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Já sabe. Elogios e confetes: cintia.escrita@gmail.com. Reclamações: cintia.escrita@desencana.nem.manda.


Boa semana pra você, alma querida.

Para você que me lê também.

Read on almatransgressora.substack.com

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