Existe uma reclamação que atravessa praticamente toda conversa sobre cinema.
“Todo cinéfilo é chato.”
É o amigo que corrige quando alguém diz que Interestellar é o melhor filme já feito. É quem recomenda um filme iraniano de três horas quando perguntam o que assistir no fim de semana. É quem fala de diretores que ninguém conhece e insiste que determinada obra “mudou a história do cinema”.
À primeira vista, a conclusão parece simples: cinéfilos complicam aquilo que deveria ser apenas entretenimento.
Mas talvez exista outra pergunta que mereça ser feita.
E se eles apenas enxergarem coisas que ainda não aprendemos a enxergar?
Basta recomendar um filme menos conhecido, mencionar um diretor estrangeiro ou dizer que existem produções além dos grandes blockbusters para que a acusação apareça. De repente, gostar muito de cinema deixa de ser uma paixão e passa a ser sinônimo de pretensão.
Mas talvez essa percepção diga menos sobre os cinéfilos do que sobre a forma como fomos ensinados a consumir arte.
Durante muito tempo, o cinema foi tratado como um produto. As salas passaram a ser dominadas pelas mesmas franquias, os algoritmos passaram a recomendar sempre histórias parecidas e, pouco a pouco, criou-se a impressão de que o cinema se resume ao que está em cartaz ou ao que aparece na página inicial de um serviço de streaming. Quando esse universo é a única referência, qualquer pessoa que fale sobre um cinema diferente parece exageradamente intelectual.
A questão é que repertório não é sinônimo de elitismo.
Não são a mesma coisa.
Uma pessoa com repertório não precisa abandonar os filmes que já ama. Ela apenas amplia o número de histórias capazes de emocioná-la.
Ninguém nasce sabendo quem foi Ingmar Bergman, Agnès Varda ou Abbas Kiarostami. Ninguém nasce entendendo por que um plano, um movimento de câmera ou um silêncio podem dizer tanto quanto um diálogo inteiro. Tudo isso é aprendido com o tempo, da mesma forma que alguém aprende a apreciar literatura, música ou pintura.
O repertório não torna ninguém melhor. Ele apenas amplia a forma como enxergamos uma manifestação artística.
É curioso perceber que dificilmente alguém chamaria de “chato” um apaixonado por música que conhece artistas de diferentes países ou um leitor que gosta de autores pouco conhecidos. Com o cinema, porém, existe uma resistência quase imediata. Como se gostar de filmes além dos mais populares fosse uma tentativa de parecer superior, e não apenas o resultado natural de quem decidiu explorar uma arte que existe há mais de um século.
Talvez isso aconteça porque estamos acostumados a consumir aquilo que nos é oferecido, e não necessariamente aquilo que escolhemos descobrir.
Mas basta atravessar algumas fronteiras para perceber que existem infinitas maneiras de contar uma história.
O cinema é muito maior do que Hollywood. Existe um universo inteiro de histórias produzidas. O cinema sul-coreano constrói o suspense de forma diferente. O cinema japonês encontra beleza no silêncio. O cinema iraniano transforma o cotidiano em poesia. O cinema brasileiro registra um país que nenhum outro país seria capaz de filmar.
Cada obra acrescenta uma nova forma de olhar para o mundo.
Isso não significa que seja errado gostar de blockbusters. O problema nunca foi gostar de um tipo de cinema. O problema é acreditar que ele é o único que vale a pena ser visto.
Por isso que tantas recomendações feitas por cinéfilos pareçam estranhas. Não porque elas sejam inacessíveis, mas porque apontam para um território que muita gente nunca teve curiosidade de explorar. E toda descoberta exige um certo desconforto. Exige abandonar aquilo que já conhecemos para encontrar novas formas de sentir, pensar e interpretar o mundo.
No fundo, a cinefilia não está em assistir aos filmes “cults” nem em decorar nomes de diretores consagrados. Ela nasce da curiosidade. Da vontade de descobrir que existem histórias capazes de nos emocionar em idiomas que não entendemos. Em culturas que nunca visitamos. Em realidades completamente diferentes da nossa.
Alguns cinéfilos são, de fato, insuportáveis. Assim como existem leitores, músicos e amantes de qualquer outra arte que confundem conhecimento com superioridade. Mas reduzir a cinefilia a esse estereótipo é ignorar aquilo que realmente importa: o desejo de descobrir que o cinema pode ser muito maior do que aquilo que já conhecemos.
Então, talvez a pergunta não seja se os cinéfilos são chatos.
Talvez a pergunta seja quantos filmes deixaram de ser descobertos porque, antes mesmo de apertar o play, decidiu-se que eles eram “difíceis demais”.
Afinal, toda arte parece complicada até o momento em que alguém decide conhecê-la de verdade.
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