"O pior filme brasileiro é melhor que o melhor filme americano."
A frase, atribuída à escritora Lygia Fagundes Telles, costuma provocar reações imediatas. Há quem a interprete como exagero, patriotismo ou até desprezo pelo cinema estrangeiro. Mas talvez o que Lygia estivesse dizendo não tenha relação com qualidade técnica, bilheteria ou prestígio internacional.
Talvez ela estivesse falando sobre pertencimento.
Porque existe algo que nenhum cinema do mundo pode fazer por nós da mesma maneira que o nosso próprio cinema faz: contar quem somos.
O cinema brasileiro é uma das formas mais importantes de preservar a memória deste país. Ele registra sotaques, costumes, paisagens, conflitos e sentimentos que dificilmente seriam retratados por alguém de fora. Não porque falte talento ou interesse aos cineastas estrangeiros, mas porque certas histórias só podem ser contadas por quem as vive.
Nenhum estúdio de Hollywood seria capaz de reproduzir com exatidão as complexidades de uma família brasileira, as contradições das nossas cidades, a forma como lidamos com a alegria e a tragédia ao mesmo tempo. Há experiências que pertencem a um lugar específico, a um povo específico, a uma cultura específica.
E é justamente aí que o cinema nacional se torna indispensável.
Quando assistimos a um filme brasileiro, não estamos apenas consumindo uma obra audiovisual. Estamos observando um retrato de nós mesmos. Reconhecemos expressões que ouvimos desde a infância, ruas parecidas com aquelas por onde caminhamos, problemas que fazem parte do nosso cotidiano e histórias que poderiam ter acontecido com alguém que conhecemos.
Existe uma familiaridade difícil de explicar para quem nunca sentiu.
É o conforto de perceber que nossa realidade também merece estar na tela.
Durante décadas, nos acostumamos a consumir histórias produzidas em outros países. Crescemos acompanhando personagens estadunidenses, escolas estadunidenses, cidades estadunidenses e sonhos estadunidenses. Não há nada de errado nisso. O cinema é uma ponte para outras culturas e outras formas de enxergar o mundo.
Mas também precisamos de histórias que olhem para dentro.
Precisamos de filmes que registrem o Brasil para os próprios brasileiros.
Porque a memória de um país não é construída apenas por livros de História. Ela também é construída por romances, músicas, fotografias e filmes. São essas obras que ajudam as futuras gerações a compreender como vivíamos, como falávamos, o que temíamos e o que desejávamos.
O cinema nacional funciona como um grande arquivo emocional.
Daqui a cinquenta ou cem anos, alguém poderá assistir aos filmes produzidos hoje e encontrar um retrato do Brasil que talvez já não exista mais. Encontrará os nossos costumes, as nossas discussões, os nossos dilemas e os nossos sonhos. Encontrará, acima de tudo, um povo tentando entender a si mesmo.
Por isso a frase de Lygia continua tão poderosa.
Não porque o pior filme brasileiro seja objetivamente superior ao melhor filme americano.
Mas porque até mesmo um filme nacional imperfeito carrega algo que nenhuma produção estrangeira consegue reproduzir: a experiência de ser brasileiro.
Ele guarda nossa voz.
Guarda nossa memória.
Guarda nossa identidade.
Num mundo cada vez mais globalizado, em que consumimos referências vindas de todos os cantos, o cinema brasileiro continua sendo um dos espaços onde podemos nos reconhecer. Um lugar onde nossas histórias não aparecem como curiosidade exótica ou cenário de fundo, mas como protagonistas.
E talvez seja isso que Lygia tenha compreendido tão bem.
Às vezes, o valor de uma obra não está na perfeição.
Está na capacidade de nos fazer sentir em casa.
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