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Cinema, Apesar de Tudo · Jul 18, 2026

Quando o desejo vale mais do que a realidade

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ag ! · Cinema, Apesar de Tudo

Existe uma diferença silenciosa entre amar alguém e amar a ideia que se faz dessa pessoa. Embora pareçam sentimentos semelhantes, eles caminham por caminhos completamente diferentes.

A primeira exige convivência. Pressupõe aceitar defeitos, frustrações e mudanças. Obriga a enxergar o outro como alguém complexo, impossível de ser completamente compreendido.

A segunda é muito mais simples.

Porque a fantasia nunca contradiz. Não precisa de reciprocidade. Não precisa de compreensão. Precisa apenas que a realidade não atrapalhe.

Talvez seja por isso que tantas relações desmoronem quando finalmente saem da imaginação e encontram a vida real.

É muito mais fácil amar uma versão idealizada de alguém. A fantasia nunca contradiz nossas expectativas, nunca nos decepciona e nunca exige que mudemos a forma como enxergamos o mundo. Ela existe para preencher vazios e confirmar desejos, não para confrontá-los. Pessoas reais, por outro lado, erram, mudam de opinião, sofrem, criam limites e, sobretudo, existem para além daquilo que esperamos delas.

Conhecer alguém de verdade é abrir mão do conforto da imaginação.

E nem todo mundo está disposto a fazer isso.

É justamente nesse ponto que Obsessão deixa de ser apenas um thriller psicológico para se tornar uma reflexão profundamente incômoda sobre as relações humanas. Costuma-se dizer que Nikki é o centro da tragédia. Sua dor é evidente, ocupa a narrativa e desperta a atenção de quem assiste. No entanto, talvez a verdadeira tragédia do filme esteja em outro lugar: na incapacidade de Bear de enxergar Nikki como uma pessoa.

Durante todo o filme, ela deixa de ser uma pessoa para se tornar um objeto de desejo. Ou melhor, a pedido de Bear, algo toma conta do corpo dela. Uma projeção. Algo que precisa existir apenas para satisfazer uma necessidade que nunca tem relação com quem ela realmente é.

E é isso que torna sua violência tão perturbadora.

Em diversos momentos, o filme deixa claro que Nikki ainda está ali. Apesar de tudo o que acontece, ela tenta se comunicar, tenta demonstrar que ainda existe uma pessoa por trás daquela criatura que se apossou de seu corpo, tenta, de maneiras diferentes, pedir ajuda. São momentos pequenos, quase silenciosos, mas suficientes para mostrar que ela nunca deixou completamente de lutar por si mesma.

Bear vê tudo isso.

E escolhe ignorar.

Não porque não perceba seu sofrimento, mas porque reconhecê-lo significaria aceitar uma realidade que atrapalha sua fantasia. Afinal, admitir que Nikki está sofrendo exigiria enxergá-la como um ser humano, e isso faria desmoronar a imagem que ele construiu dela.

No fim, nunca parece existir arrependimento.

Não existe culpa.
Não existe reflexão sobre o que fez com a vida daquela mulher.
Existe apenas a insistência em tê-la de qualquer maneira, como se o desejo fosse mais importante do que a pessoa desejada.

Esse é o aspecto mais assustador de Obsessão. O filme mostra que a objetificação nem sempre acontece de forma explícita. Às vezes, ela nasce justamente quando alguém deixa de amar uma pessoa e passa a amar apenas a ideia que criou dela. Tudo aquilo que escapa dessa fantasia — os sentimentos, os limites, os pedidos de ajuda, a dor — torna-se um obstáculo inconveniente, algo que pode ser ignorado para que o desejo continue existindo.

E existe uma diferença brutal entre querer alguém e querer possuir alguém.

Quantas vezes alguém diz amar outra pessoa quando, na verdade, ama apenas aquilo que ela representa? Quantas relações sobrevivem enquanto a fantasia permanece intacta, mas desmoronam no instante em que a pessoa real começa a aparecer? Quantas vezes um “eu te amo” significa, na verdade, “eu amo quem imagino que você seja”?

Talvez o maior erro seja acreditar que amar alguém e desejar alguém são a mesma coisa.

Não são.

O desejo pode existir sem enxergar o outro.
O amor, não.

Porque amar alguém exige aceitar que essa pessoa nunca será exatamente como imaginamos. Exige abandonar a fantasia para encontrar alguém de verdade, com todas as suas contradições, medos e imperfeições.

Bear nunca foi capaz de fazer isso.

E é justamente por essa razão que ele seja o verdadeiro vilão de Obsessão. Não porque desejava Nikki, mas porque seu desejo era tão grande que a realidade deixou de importar.

No momento em que a ideia de alguém vale mais do que a própria pessoa, deixa de existir amor.

Resta apenas a vontade de possuir.

E poucas coisas são mais destrutivas do que ser amado apenas pela versão de si mesmo que existe na imaginação de outra pessoa.

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Read the original on agnesvitoria05.substack.com

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