Hoje mais uma vez tentei escapar das testemunhas de Jeová que passam por aqui todas as quartas, porém como na semana passada eu já tinha inventado uma desculpa qualquer, acabei deixando que subissem.
Arrumei rapidamente a casa: guardei brinquedos, recolhi fraldas e lenços, empurrei a sujeira do café-da-manhã para debaixo do tapete; tudo para acolher os peregrinos, afinal, até os testemunhas de Jeová são filhos de Deus.
No quesito pregação, e talvez não só nele, sou conservador. Tenho saudade dos pregadores anônimos da praça da Sé; caixote de madeira, Bíblia nas mãos, dedos em riste anunciando o fim do mundo. Existirão ainda? Meus visitantes trazem consigo o último modelo de iPad, no qual me mostram vídeos insípidos em que jovens americanos tentam me convencer de que vale a pena ler a Bíblia.
Engraçado, para eles sou jovem. Tudo é uma questão de perspectiva. O outro do outro é talhado à medida das expectativas do outro. Acabado o vídeo me pediram que lesse (em português, querem me agradar) uma passagem dos Atos dos Apóstolos :
E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho deserto que desce de Jerusalém para Gaza. E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope, eunuco, funcionário de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração. Regressava e, assentado na sua carroça, lia o profeta Isaías. E disse o Espírito a Filipe: vai, aproxima-te a essa carroça. E, correndo, Filipe ouviu que o eunuco lia o profeta Isaías, e disse: Entendes tu o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e tomasse assento ao lado dele. (At
(Pausa antes do comentário: que estará lendo hoje o soldado no caminho de Jerusalém a Gaza?)
Ato contínuo os testemunhas se ofereceram para sentar na carroça da minha mente. Estava pensando em como negar tão prodigioso auxílio quando me lembrei de uma maldade que fiz quando estudava na Itália. Gérard Rossé, grande biblista, foi meu professor no Instituto Sophia. Lá, professores e alunos morávamos em um mesmo povoado da Toscana. Num sábado em que nos visitavam um casal de Testemunhas de Jeová —pois é, até na Toscana os há, ninguém nem lugar nenhum está livre da realidade— sugeri que eles fossem visitar o professor Gérard, que gostava muito de ler a Bíblia. Dei até o endereço e a hora precisa em que sabia que ele estaria em casa.
(Gerard nunca me referiu nada a respeito, provavelmente porque ao contrário de mim, suporta melhor, ama a realidade.)
Comentei com os testemunhas que na antiguidade era mais comum ler em voz alta. Tivesse o eunuco o hábito moderno de ler na mente (como diz meu filho Jorge), Filipe teria mais dificuldade em puxar papo com ele.
Engraçado, mas quando os testemunhas entraram em casa me lembrei de um poema de Montale, que traduzo para vocês:
Text within this block will maintain its original spacing when published
Caro piccolo insetto che chiamavano mosca non so perché, stasera quasi al buio mentre leggevo il Deuteroisaia sei ricomparsa accanto a me, ma non avevi occhiali, non potevi vedermi né potevo io senza quel luccichìo riconoscere te nella foschia. Querida pequena joaninha que apelidaram Mosca não sei porquê, hoje à noite no lusco-fusco enquanto eu lia o Isaías verdadeiro você de novo estava comigo, mas não levava óculos, você não podia me ver nem eu a você sem aquele brilho te reconhecer na penumbra. in Satura, Tutte le poesie. Milano: Mondadori, 1984
O verso que me assaltara antes mesmo que eu abrisse a porta era justamente “mentre leggevo il Deuteroisaia”. Quando os testemunhas leram a passagem do eunuco que lia Isaías, me dei conta de que provavelmente o Espírito estava brincando comigo, ou então me ajudando a entender o sentido daquela visita.
Toda tradução é uma interpretação. Quando li o poema de Montale tempos atrás fiquei intrigado com a invocação do inseto. Se não conhecermos nada da história pessoal do poeta italiano, o mais provável que pensemos em um inseto adorável, talvez uma joaninha, como coloquei na minha tradução. O Deuteroisaías —e a ajuda de alguns críticos e biógrafos— me iluminaram: Mosca era o apelido da mulher que Montale perdeu vítima de tuberculose, por isso a ironia do primeiro verso, que encena à perfeição a presença ausente dos mortos que nos acompanham na penumbra dos dias. Talvez Montale estivesse lendo não a passagem que o eunuco lia com Filipe, mas:
Não temam, estou com vocês. (Is 41, 13)
Estar com vocês aí tem o mesmo peso da promessa que leva o próprio nome de Deus, Iahvé, Sou aquele que Sou, revelada a Moisés no deserto. Numa interpretação mais chã caberia dizer Sou Aquele que está e estará convosco. De fato, ali estavam comigo os testemunhas Dele, mas pergunto a vocês: como contar a história de Montale a tais peregrinos?
Meu livro de estréia leva uma tradução insólita do maior poema de Eugenio Montale, La primavera hitleriana. Se você quiser lê-lo, estamos em plena campanha de pré-venda.
Se atingirmos 100 exemplares vendidos, todos os compradores desse primeiro lote levam em dobro o número de exemplares que tenham comprado. Para comprar o livro, acesse:
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.