Na primeira e, por enquanto, última conversa com poetas, aqui no nosso destino, João Filho confessou que, nos últimos anos, colocou de lado a obra de Fernando Pessoa. Tenho também, a meu modo, deixado Pessoa de lado, mas como há muitos Pessoas em Pessoa, sempre consigo revisitar um deles. No meu caso, continuo a bater um papo com Ricardo Reis, tentando emular dele a voz e não tanto a temática, pois me irrita essa postura estóica de deixar o mundo escorrer sem por isso se comover. Gosto da toada de Reis, não da clássica nonchalance do amante de Lídia.
Hoje é meu aniversário. Sempre que se repete essa data, tenho vontade de voltar ao poema "Aniversário", do Álvaro de Campos. Graças a Deus não sofro a mesma sina do engenheiro de Pessoa: meus amigos e minha família têm me festejado os anos a cada ano que passa. Ademais, não tenho (tanta) saudade do passado. Estou mais próximo ao Drummond de “Mãos dadas”:
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O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Mas confesso que devo a Pessoa o caldo de metáforas como essa:
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Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Ao reler o baú de Pessoa me dei conta de que essa fome de reviver o passado como quem à mesa comparte uma bela refeição está em muitos dos versos que cozinhei em minha coletânea de estréia, “Museu das coisas quebradas”. Pessoa e eu gostamos da mesa; para citar os mais famosos dele, o português levou ao verso a dobradinha (Dobrada à moda do Porto), o pão (Aniversário) e o chocolate (Tabacaria). Mas no caso da manteiga o tempo de manteiga nos dentes do verso vem com mesma carga ruim da dobradinha fria: o tempo ali é a destruição, aquilo que aniquila, anula o ser das coisas levando embora nossos entes queridos e o mundo que conhecemos.
O tempo é danado mesmo. Por mais que alguns físicos e o filósofos insistam que o tempo não existe e que tudo é eterno, no frigir dos ovos com o passar dos anos as pessoas que nos rodeiam vão desaparecendo. Com o tempo a festa do dia dos meus anos terá mais ausentes por incapacidade metafísica do que presentes pela graça de estar vivos.
Há um pão, porém, que nos dá a vida eterna. "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 7, 54). Confesso, no entanto, que diante do mistério eucarístico é difícil centrar o prumo. Amiúde sucumbo ou à piedade vazia ou descambo para o ativismo extenuante. Indo direto ao ponto: de nada vale ir a encontrar Jesus no pão eucarístico se não dou pão ao Jesus que tem fome no meu próximo e vice-versa. Aliás, essa máxima poderia ser entendida como o desdobramento lógico do famoso Gründaxiom de Karl Rahner:
A Trindade econômica é a Trindade imanente e vice-versa.
Mas esse debate excede o espaço de um post de aniversário e, apesar do aniversário ser meu, quero dar um presente para vocês, caros leitores. Vendo e revendo o político de Gant, “O cordeiro místico” dos irmãos Van Eyck, tracei um dos poemas que vai em meu livro:
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Cordeiro místico
Ao deixar-nos aqui
e ao céu subir
como quem depois da longa viagem
à casa sente o Sol como seu lar,
pareceria que a distância
que Van Eyck pôs em seus olhos
nos condenasse a essa espera.
Mas não,
Ele já está a caminho
e de certa maneira já chegou
no clamor da hora
em que anoto este sopro.
Sou o cavaleiro e sou o sangue,
entre pagãos leio a vida
que quero escutar
no acorde que a grávida Eva
redime se seu fruto
em mim se dá.
Aquele que vem está vindo e já
me visitou.
Sinto sua fome,
nela comungam todos
os desesperados
no jardim do instante.E se você quer me dar um presente, estamos em plena campanha de pré-venda:
Se atingirmos 100 exemplares vendidos, todos os compradores desse primeiro lote levam em dobro o número de exemplares que tenham comprado. Para comprar o livro, acesse:
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