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O destino do verso · Apr 14, 2025

Travessia

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Zé Luis Bomfim · O destino do verso

Vivemos em uma vídeocracia. “Todo poder ao proletariado” é, neste contexto, uma frase a ser redimensionada. Primeiro porque a posse dos meios de produção (os smartphones conectados à internet) está literalmente nas mãos de todo mundo. Segundo, e mais importante, porque o que faz a diferença na disputa pelo poder é o capital — que, nesse caso não implica nem na posse das máquinas (os celulares) nem do dinheiro (real, euro, dólar, bitcoin, tanto faz). O capital do século XXI é a atenção: ganha poder quem detém melhor —e por mais tempo— a atenção do espectador.

O que significaria, neste cenário, explorar um operário? Para responder a essa pergunta, primeiro temos de renomear os atores em jogo: operários, doravante, serão chamados membros; e burgueses, gurus. Explorar um membro, portanto, é nada mais do que fomentar o vínculo dos membros com o guru até o ponto em que estes se sintam parte de uma comunidade virtual em busca de um objetivo capaz de mudar a vida de seus integrantes — ou, por outra, o membro vende suas horas livres em troca de alimentar o sonho de vir a ser o que o guru é desde já: detentor de uma vida mais plena que a sua.

Ao contrário da antiga e fracassada formulação, a mais‑valia aqui é real e plenamente mensurável: ganha mais o guru que é capaz de reter mais pessoas por mais tempo, franqueando a poucos a possibilidade de acessar os níveis superiores da hierarquia de sua comunidade. A consciência de classe significa, portanto, saber — tal como na dialética escravo-senhor que a dependência do membro ao guru é apenas uma fase do capitalismo das redes sociais, e que virá a ser superada se, e somente se, todos os membros deixarem de lado a alienação da promessa objetificada na compra dos cursos que, finalmente, mudariam a vida de cada um dos membros.

A contradição, porém, está no âmago do sistema e persiste, fazendo a revolução impossível — afinal, há sempre muito pajé para pouco índio. O céu dos membros emancipados de uma comunidade virtual é tão impossível quanto sabemos ser, no comunismo final, o operário dublê de intelectual renascentista. E, no entanto, a cada novo curso, a opressão se renova, alimentada pelo fetiche da mercadoria — isto é, pela ideologia da fórmula de lançamento.

***

Os três parágrafos acima são uma mini-ficção filosófica. Foram escritos à maneira de Vilém Flusser, ou seja, deslocando uma teoria — no caso, a marxista — para outro campo conceitual, neste caso, a análise da comunicação de massas no mundo das redes sociais.

Eu poderia levar tal ficção às suas últimas consequências, publicando, quem sabe, um manifesto, mas a verdade é que não há nada de novo sob o sol. No fundo, esse jogo não deixa de ser uma das caras da velha idolatria.

O ídolo sempre escraviza — e não porque tenha pés de barro, mas justamente quando é eficaz. Ao atender os desejos do idólatra, subjuga-o, instituindo-se como totem inexpugnável no altar da tribo. Mas atenção: o ídolo não se encarna somente na tosca estátua de madeira. Como se vê acima, pode ser um guru ou mesmo Mamón — o dim-dim que, muitas vezes, nos falta e que dá a impressão de ser a solução para todos os nossos males.

O que a muitos ateus custa entender é que a revelação do deserto do Sinai mudou para sempre o relacionamento do homem com Deus. Os termos com que a sarça ardente conversou com Moisés abriram uma estrada que requer abandonar para sempre o fascínio do poder do faraó — o ídolo encarnado — para atravessar o deserto das próprias convicções. A terra prometida é nada mais, nada menos, que o espaço da conversa entre Deus e os homens, baseada na liberdade de ambas as partes. Inclusive, e justamente, a liberdade de não acreditar em Deus. Ou seja, sem Êxodo, não há liberdade religiosa.

A Shoá — o massacre organizado dos judeus no século XX, por mão e obra do nazismo — é, por isso, mais grave do que os vários (e tremendos) genocídios perpetrados nos últimos séculos. No fundo, o que queriam Hitler e os demais nazistas era exterminar da face da Terra a liberdade trazida pela revelação mosaica, instituindo uma nova — ou melhor, uma velha — idolatria em seu lugar: submeter completamente a vontade pessoal de cada cidadão da face da Terra aos desígnios do Reich. A mera existência de Israel, farol das nações, encarnada no povo judeu, era o maior empecilho ao projeto do Führer — ser uma espécie de novo faraó.

***

fotograma de Lawrence da Arábia.

Hoje começa a Semana Santa. Com ela, mais uma travessia.

Também eu pequei e ainda peco de idolatria. Mas nessa longa quaresma da vida, espero ter tomado um novo rumo em meu deserto particular quando decidi dar uma forma final aos diversos poemas que vinha escrevendo nos últimos anos.

Ninguém escreve somente para as dobras de sua túnica, embora a sensação seja exatamente essa, de desolada companhia. Mas de graça recebi, de graça quero dar os tais frutos imperfeitos da ficção de mim mesmo. O poeta é um fingidor — e, nesse projeto que me habita, cantar significa buscar reavivar este espaço de liberdade entre mim e Deus, entre mim e os outros homens.

Aprendi a trilhar o caminho da revolução interior ouvindo e lendo muitos autores. Graças a Deus não estamos sós no deserto, não nos esqueçamos jamais disso! E dentro de minha geração quero agradecer aqui especialmente a três pessoas, o que também fiz dedicando-lhes o poema central de meu livro, O dia da morte.

Usar a palavra maldita (revolução) é intencional, mas não no sentido político, e sim no original, relativo ao movimento dos planetas, pois é preciso mudar de órbita para sair do giro que pode nos levar a um beco sem saída.

Toda alienação no fundo é uma demissão da própria responsabilidade. E a primeira resposta está no diálogo interior. Quien habla solo espera hablar con Dios un día, muitos foram os escritores (como o citado Antonio Machado) e amigos que me lembraram a importância de escutar a voz que fala dentro do coração de cada um de nós, mas dentre eles devo a Martim Vasques da Cunha uma menção honrosa: sua obra incisiva e sua honestidade intelectual foram decisivas no exercício da escuta dos chamados do Castelo Interior, mesmo quando parecia que eu estava à beira do fosso da entrada.

Toda obra de arte é um testemunho de que a eternidade vale a pena. Mesmo quando fruto da cultura de massa, essas pequenas tábuas de salvação nos trazem de volta à realidade, recuperando na opacidade da vida algo dessa graça transparente que não morre. A beleza é algo comum, mas o ciclo vicioso da política podem nos levar longe desse convívio, e foi com a ajuda, dentre outros, do Francisco Escorsim, que me mantive fiel aos pequenos (e grandes) tesouros que fui descobrindo na vida: desde os quadrinhos ao cinema, passando pela música popular e pelas séries televisivas, sem esquecer, é claro, da grande arte: poesia, pintura, teatro, dança e música clássicas; tudo é ocasião para acolher o dom da arte.

Toda a amizade é um voto de confiança baseado em nada de especial. Fosse a amizade baseada em algo concreto seria desde já uma troca, um comércio, ou então suplantação de uma falta, de um afeto, mas não, a amizade é a cara mesma da gratuidade, e por isso irmã desse Nada metafísico que frequentava a vida e a obra de San Juan de la Cruz. Por isso toda amizade é um milagre, nasce dessa alegria de poder estar juntos e compartilhar a vida, e cresce nas dificuldades e no exercício sincero do perdão. Com Pierce Willians sigo descobrindo o valor imenso da alteridade de um amigo.

Do convívio com essas e outras grandes influências nasceu minha travessia para além do pensamento e da obra de Olavo de Carvalho. Publico aqui o primeiro canto do poema “O dia da morte”— poema que quer dar uma resposta à obra dele.

Não tenho mais nada a acrescentar ao poema. Ele fala por si só. O que pensaria o próprio Olavo a respeito? Não sei, mas espero, principalmente, ter tratado sua obra e sua vida pública com dignidade. Escusado dizer que não se trata nem de um julgamento, muito menos de uma análise rigorosa do pensamento dele. Ademais, como não nos cabe separar o joio do trigo, só mesmo a poesia é capaz de colocar em cena o drama que suspeito não ser só meu, mas de toda a nação brasileira.

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O dia da morte
Ou nossa surda sinfonia coral
Homo fave futura famelicus. 
Hobbes
Para Pierce Willians, Francisco Escorsim e Martim Vasques da Cunha
(a todos eles in debito, como sempre)
I - Intróito
Allegro ma non troppo, un poco maestoso
Pela fome desse horizonte
nos conheceremos,
por essa fome,
qual bandeira
trêmula no céu de Campinas,
na borda da mata
antes verde
agora de Prometeu grávida
a prometer que tudo que sobe converge;
nas mãos sobre os seios
da perdida mocidade
antes que dela saciássemos
a antiga sede que é fome da fome futura:
o observatório despovoado de seus sábios,
abandonado às traças do dia,
turvando o homem e sua obra,
é o prato sobre a mesa
em que se serve sua partida.
Só
espero estacionado,
por acaso de volta à cidade-universo,
a chegada do filho dessa terra
à outra banda.
Com um amigo converso no celular,
à distância,
as vias que o olho do sol
daria
à nossa agonia.
Sem saber qual fim
a peste que sobre o rebanho grassa
dará
ao coração desesperado,
revelo o poema
oculto nas entrelinhas do jardim
(Éden, Epicuro, as oliveiras, essa mata);
escrevo anos-luz
da pandemia
a melodia n’alma brasileira encerrada.
O gesto do Outro
no outro lado da rua
(e da linha)
me confirma:
partiu sem dizer adeus,
desconectado do tubo
deixa algaravias e o acorde perfeito da brisa,
o sopro de um vento fresco
na fumaça sem dó
tragada pelos servos do rito do amanhã que nunca chega.
O mesmo ar
que nubla sua distância
ter-lhe-á sufocado na derradeira cama?
Ou suspirava
até que enfim a eternidade nele mesmo se mudasse
na muda presença
de um enterro protocolar?
O abismo da morte
no pigarro indócil
parte para sempre
o fluxo da consciência que sabe a si mesma ausente
ao negar o bicho que entope
de malentendidos
uma geração inteira.

Se você quer saber como termina o poema, ainda estamos em plena campanha de pré‑venda do meu livro, Museu da coisas quebradas:

Se atingirmos 100 exemplares vendidos, todos os compradores desse primeiro lote levam em dobro o número de exemplares que tenham comprado. Para comprar o livro, acesse:

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