Estamos quase na melhor semana do ano, a semana do Rally de Portugal!
Esta prova tem um lugar especial no coração de milhares de pessoas que ao longo das cinquenta e nove edições preencheram as bermas da estrada para verem os melhores pilotos e carros do mundo dos ralis, nem que fosse por apenas uma fração de segundo. Uns chamarão a isto loucura, eu chamo-lhe paixão!
Todos os anos, a caravana dos ralis percorre algumas das zonas mais bonitas e remotas deste país, dando um espírito de passeio e aventura a nós fãs que fazemos centenas de quilómetros por edição e que nos leva a locais que nunca iríamos de outra forma.
Nasci no final do milénio passado e por isso, infelizmente, não vivi aquilo que muitos apelidam de “épocas douradas” do Rally de Portugal. Cresci a ouvir histórias do meu pai e dos meus tios sobre as épocas onde percorriam o país de Sintra a Arcos de Valdevez ao longo de quatro ou cinco dias, muitas vezes a dormitar de um dia para o outro dentro do carro. A verdade é que viveram muitas aventuras e desfrutaram de tempos mais simples e talvez onde os ralis fossem mais puros.
O primeiro Rally de Portugal que me lembro é do ano de 2001. Não consigo comprovar, mas tenho algumas memórias de estar num rali muito chuvoso, com filas de carros e tenho quase a certeza de me lembrar de ver o Mitsubishi Lancer Evo VI do Tommi Makkinen. Mas como a memória de infância pode ser traiçoeira, a primeira edição de que realmente me lembro é a do ano seguinte, o primeiro ano sem contar para o WRC.
Na altura, com os meus cinco anos de idade e a começar a ficar com o “bichinho” dos ralis, lembro-me perfeitamente de ver um dos meus carros preferidos na altura, um Ford Focus WRC branco com traços laranjas e azuis, o carro do Rui Madeira, de quem tenho um póster do carro autografado até aos dias de hoje. Poucas memórias tenho, mas neste eu lembro-me de lá ter estado! Curiosamente, encontrei um resumo da RTP com o local onde estivemos a ver a prova (ver acima).
Mas a primeira edição de que tenho mesmo memórias vividas é a edição de 2007, o ano de regresso ao WRC numa localização nova para mim onde ver ralis, o Algarve. Lembro-me perfeitamente da ansiedade na viagem Porto-Algarve para ver os melhores do mundo, que costumava acompanhar sem falhar nos resumos na Eurosport, e agora ia conseguir ver com os meus próprios olhos o Sébastien Loeb no Citröen C4, o Petter Solberg de Subaru e o Marcus Grönholm de Ford! A juntar a este pelotão de luxo, o Armindo Araújo participou de Mitsubishi Lancer WRC e ver “um dos nossos” a lutar contra os grandes tubarões enchia o meu orgulho patriótico.
Cresci a ouvir que os adeptos portugueses tornavam as provas bastante perigosas e pensei que em 2007 íamos ter muitas restrições em nome da segurança. Mas, para minha surpresa na altura, durante o shakedown senti que estávamos muito soltos e à vontade. Até eu confesso que olhando para trás, posso ter estado em zonas menos seguras ou nas quais hoje não estaria. A verdade é que eu estava ligeiramente antes do salto no qual o Armindo tem um acidente e embate em alguns fotógrafos que ali estavam. A partir daí, o ambiente mudou e começamos novamente a ser mais controlados e a não sair das ZE.
Nesse evento, percebi uma das belezas dos ralis mais a sul - estivemos em locais com uma visibilidade espetacular, onde seguíamos os carros durante quilómetros sem parar. Lembro-me de no primeiro dia, na classificativa de Serra de Tavira, vermos os carros serpentear pelas serras e ficar encantado, até com a forma como o pó do carro na traseira do carro era exatamente igual ao formato do carro (uma premonição pelo interesse em aerodinâmica, que mais tarde me levou a Engenharia Mecânica? Quem sabe?).
Lembro-me de alguns incidentes dessa prova, tais como o Bruno Magalhães partir a caixa do Peugeot 207 S2000 precisamente nessa classificativa, de ver no dia seguinte o Dani Sordo fazer um gancho com a porta do Citröen C4 aberta, porque a mesma se tinha aberto em andamento e lembro-me de ficar impressionado no último dia com o gancho de Loulé-Almodôvar seguido de uma subida brutal para uma esquerda apertada e com uma árvore e uma ribanceira do lado de fora e eles passavam com a maior das tranquilidades. As crianças são efetivamente muito impressionáveis e eu não era diferente! Ficam aqui imagens VHS captadas pelo meu pai deste mesmo rali!
Após esta edição, só em 2011 voltei a ter a felicidade de ir até ao Algarve ver o rali. Nesse ano, fomos apenas para sul na madrugada de sábado e chegamos mesmo a tempo de ver a classificativa de Almodôvar, para aquele que seria um dos dias mais divertidos a ver ralis na minha vida. Era o ano de estreia dos WRC 1.6, com os Citröen DS3, Ford Fiesta e o Mini JCW (ainda que apenas na versão S2000 em Portugal) a serem os carros de topo do WRC, e a minha expectativa de os ver em ação era muito grande. Aliado a estes novos carros, na primeira passagem ficamos num gancho junto à povoação de Santa Clara-a-Nova, que tinha sido recentemente alcatroado, prometendo algum espetáculo visto que os carros vêm com pneus para pisos de terra.
E espetáculo foi! O Inverno Amaral bateu com o carro 00, o primeiro carro a passar era o Jari-Matti Latvala embateu numa barreira de plástico cheia de água e molhou a estrada toda e a partir daí foi uma sucessão de derrapagens e sustos até final, o Yazeed Al-Rahji até acabou por sair momentaneamente de estrada! Aqui fica um vídeo deste dia que posteriormente encontrei no Youtube!
No intervalo entre a primeira e a segunda passagem, juntamente com o meu pai e alguns familiares, aventuramo-nos pelos vales alentejanos e acabamos a ver a segunda passagem numa zona muito rápida que culminava com os carros a atravessar um riacho de água, algo sempre espetacular de se ver! Como estávamos longe da multidão, ainda conseguimos andar junto da classificativa ao longo de mais um quilómetro e acabamos a ver em bastantes locais diferentes. Ao voltar para o carro, ainda encontramos o Ford Fiesta WRC do Khalid Al-Qassimi na berma da estrada após um toque o obrigar a desistir.
Poucas recordações tenho do domingo porque acabamos numa ZE sem grande interesse e com pouca visibilidade.
Em 2012 voltamos ao Algarve e apanhei chuva como nunca me lembro. Era o ano da despedida do Sébastien Loeb e infelizmente apenas o vimos as classificativas noturnas do primeiro dia. Ainda apanhamos uma saída de estrada do Ott Tänak, que acabou numa vala pousado sobre uma pedra e até hoje não entendo porque a polícia no local não deixou o povo empurrar o carro para que pudesse continuar em prova. Pelo menos, sei que comeu boas tangerinas.
No meio do dilúvio todo, recordo-me bem de ver o Mini JCW WRC a andar como nunca com o Dani Sordo a ser uma das surpresas positivas de uma prova muito difícil para todos. Foi um rali tão atípico e isso culmina com a forma como Mads Ostberg acaba a vencer, pela primeira e ultima vez na carreira, na secretaria após desclassificação do Mikko Hirvonen!
Em 2013 e 2014, o Rally de Portugal para mim resumia-se ao belo espetáculo que era o Fafe Rally Sprint e a partir de 2015, pude finalmente experienciar ver os carros nas míticas classificativas que cresci a ouvir falar. Durante três anos pude ver nas classificativas no Alto Minho, com todas elas a deixarem saudades pela espetacularidade, dureza e beleza da zona. Mas o ponto alto do regresso ao Norte, foi a classificativa de Baião na edição de 2016, onde estivemos “acima das nuvens” a ver os carros passar! Foi mais um dia onde a polícia no local foi menos controladora e permitiu o público circular um bocado mais. Esta liberdade foi a cereja no topo do bolo para mim e os milhares presentes nesta zona.
Penso que foi este dia que, para mim, cimentou a zona da Serra da Aboboreira como um dos locais de eleição para os ralis em Portugal. Aliada a uma paisagem incrível, as classificativas são de classe mundial tanto para espetadores, como para pilotos! Não é por acaso, que o Rally Terras D’Aboboreira é uma das provas que tento ao máximo estar presente todos os anos.
Outra classificativa de eleição, para mim, é a classificativa de Góis, da qual tanto ouvi falar enquanto cresci, e que foi a melhor surpresa desde que o Rally de Portugal recomeçou a ir à região Centro. Já estive em quatro locais diferentes da classificativa e todos eles foram espetaculares, com o ponto mais alto da mesma, a zona do Alto do Vieiro, a ser dos melhores sítios onde já vi um rali. Foi com tristeza que recebi a notícia que nesta edição apenas iriam fazer a classificativa uma vez e em sentido contrário.
Mas, para finalizar este longo texto, espero ter conseguido transmitir alguma da beleza de acompanhar este evento. O espírito de aventura que se vive ao longo dos dias de prova, aliados ao ambiente de festa que se encontra na prova (ainda que por vezes com muitos excessos à nossa volta) tornam o Rally de Portugal um evento único no país e no WRC.
Seja a Norte, no Centro ou até a Sul, para mim, o mais importante é o WRC continuar a vir a Portugal e podermos fazer a festa dos ralis durante muitos anos!
Para terminar, quero agradecer publicamente ao meu pai, que para além de me ter passado o gosto pelos ralis, sempre que foi possível, me levou com ele e me permitiu viver de perto esta paixão que temos em comum. E com o seu gosto por fotografar e filmar, eternizou muitos momentos vividos no Rally de Portugal, entre outros, e os quais consigo recordar à distância de um clique no computador. Obrigado Pai!

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