O WRC atravessa uma crise de identidade. Entre todos os problemas que atualmente atrasam o crescimento do campeonato, o formato dos ralis é um dos pontos sempre em discussão. O formato das provas atuais cada vez menos atrai os adeptos e uma mudança radical pode afastar os de longa data. É um pau de dois bicos.
Nas últimas temporadas, algumas alterações têm sido feitas para tornar as provas mais interessantes ao longo dos, habitualmente, três dias de competição. Desde mudar os sistemas de pontuação a reduzir quilómetros de ligações para ter provas mais compactas, muito se tem feito e discutido sobre qual o caminho a seguir.
A introdução do Super Sunday, ou Domingão – como lhe chamamos no podcast -, trouxe todo um novo interesse ao último dia das provas, onde agora há até cinco pontos extra a serem conquistados para o campeonato de pilotos e construtores. Agora há um incentivo extra aos pilotos e equipas em andar mais depressa no último dia de prova, independentemente de onde se encontram na classificação geral, e com isso aumentou o interesse dos espetadores e espetáculo no global.
Acontece que o Domingão se encontra mal definido pelo WRC. Podem ser conquistados até cinco pontos extra, mas não existe, à data, nenhuma definição do que é o Domingão. Foi criado um conceito, mas a fica ao critério de cada organizador como aplica o conceito.
Ao longo desta época, os domingos têm sido :
Esta temporada, em média, tivemos o Domingão com quatro classificativas, quase sessenta e seis quilómetros competitivos e o que corresponde a 20% da prova.
Do ponto de vista da meritocracia, acredito que o total de quilómetros deverá rondar a percentagem de pontos que se conquista. Os cinco pontos conquistados, representam até 14% do total de trinta e cinco pontos que se pode conquistar num fim de semana perfeito. Com a Powerstage a coincidir com o Domingão, a percentagem de quilómetros está dentro do aceitável, para evitar críticas excessivas à pontuação.
Do ponto de vista do espetáculo, na minha opinião, as provas têm pecado na centralização do mesmo. Tendencialmente, recorrem a um sistema de duas classificativas feitas duas vezes, muito provavelmente, para dispersar o público por dois sítios diferentes e, com isso, poupar pesadelos logísticos e organizacionais.
Se pensarmos num cenário hipotético onde temos cem mil adeptos que se deslocam para as classificativas do Domingão, é mais fácil dispersá-los por zonas espetáculo de duas classificativas. As confusões de trânsito e estacionamento serão substancialmente menores, é mais fácil policiar as zonas espetáculo, pela menor quantidade de pessoas, etc.
Contudo as provas mais recentes, à data que escrevo este texto, Estónia e Finlândia apostaram em ter apenas uma classificativa feita duas vezes. E, honestamente, acredito que este pode ser o caminho a seguir. Claro que isto traz os desafios que mencionei acima, mas, dá aos organizadores a possibilidade de organizarem um verdadeiro espetáculo. Uma classificativa bem escolhida, como por exemplo uma que seja icónica na prova ou talvez uma que possibilite um bom ambiente de festa para os adeptos, terá todos os ingredientes para atrair os adeptos no local, bem como nas transmissões.
Na temporada passada, na Finlândia, o Domingão foi composto por uma dupla passagem pela mítica classificativa de Ouninpohja e foi aí que me rendi a esta ideia.
Todos os pilotos conhecem esta classificativa de cor e a sua natureza transformou o Domingão num festival de velocidade pura. Ver os pilotos a progressivamente serem umas décimas mais rápidos a cada carro que passava foi qualquer coisa de sensacional.
E é isto que o WRC precisa, o formato longo das provas leva a que muitas vezes não tenhamos tempo para acompanhar integralmente o que se passa. Os dias de competição começam sempre muito cedo e terminam “tarde”. Isto permite que, pelo menos, um dia de prova seja mais fácil de acompanhar para todos e, também, dar aos pilotos um dia em que descansam mais, um tema que cada vez mais tem sido abordado pelos mesmos.
O fator “maratona” dos eventos é algo que é inegociável, está na génese do campeonato e faz parte da mística e encanto. Mas no meio do inegociável, há espaço para pequenas inovações, que somando-as todas, pode ajudar o WRC a ultrapassar esta crise de identidade e rumo a um futuro melhor.
Por isso, fica a pergunta, Domingo é dia de festa?

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