Número 3.103. Nesta edição:
Inflação abranda em Portugal, mas o preço da vida não recua
Irão pondera ataques a bases militares dos EUA na Europa; incidente com drone em Nápoles eleva alerta
Mísseis balísticos russos atingem Kiev e matam cinco pessoas
Exército israelita admite ter disparado sobre o carro de Hind Rajab e abre inquérito criminal
Operação ‘Forrest Gump’ expõe suspeitas de branqueamento no círculo presidencial ucraniano
Comissão Europeia muda abordagem às grandes tecnológicas: menos coimas, mais cumprimento
Polimeme: Pacto de Meca divide leituras sobre o rumo do Médio Oriente
E a reforma da Segurança Social no Radar político, a fechar
O dado. A taxa anual de inflação em Portugal caiu para 2,7% em julho, segundo dados revistos do Eurostat divulgados esta quinta-feira. É a segunda descida consecutiva do IHPC português, que tinha atingido 3,9% em junho e um pico de 4,9% em maio. Pela primeira vez em meses, Portugal ficou abaixo da média da zona euro, que subiu para 2,8%.
A divergência europeia. Enquanto Portugal desacelerou, a média da zona euro avançou de 2,7% para 2,8%, puxada sobretudo pela subida dos preços dos serviços. Em Portugal, a inflação dos serviços travou para 3,1% em julho, contra 4,5% em junho. Segundo a Kathimerini, o recuo do IHPC reflecte "uma relativa estabilização dos preços nos alimentos e serviços e também uma descida do custo da energia".
Os alimentos. Os preços de alimentos, bebidas espirituosas e tabaco caíram 2% em termos mensais em junho, e a variação homóloga passou a -0,3% em julho, quando um ano antes era 2,2%. O Governo atribui parte deste movimento ao acordo com os supermercados sobre os frescos, em vigor desde junho de 2025. O cabaz deixou de encarecer ao ritmo anterior.
A energia. A componente energética continuou a pressionar. Os preços da energia subiram 13% em termos homólogos em julho, abaixo dos 14,7% de junho, mas ainda acima da média da zona euro, fixada em 10,6%. O petróleo desceu no início do mês e voltou a subir no fim de julho.
O que o Governo controla. A trajectória da inflação depende de factores fora do alcance de Lisboa: energia, cadeias de abastecimento e a política do BCE. O que o executivo de Luís Montenegro maneja são instrumentos de amortecimento — ISP, IRS, acordos de preços com a distribuição. E há uma diferença face a 2023: nessa altura o Governo PS legislou com maioria absoluta o IVA zero sobre um cabaz essencial; a AD, com 91 dos 230 deputados, actua por acordo voluntário com os supermercados, instrumento mais frágil e dependente de adesão.
O crédito à habitação. A descida da inflação não se traduz em alívio na prestação da casa. O IHPC nem sequer inclui os juros do crédito hipotecário — mede preços de consumo, não o serviço da dívida. Cerca de 1,2 milhões de contratos em Portugal estão indexados à Euribor a taxa variável, herança do crédito barato das primeiras décadas do euro. Quando o BCE aperta para o agregado da zona euro, a prestação portuguesa move-se quase de imediato, ao contrário do mutuário alemão a taxa fixa. Em junho, o VamoLáVer noticiou a subida do BCE para 2,25% e o avanço da Euribor nos três prazos. As prestações permanecem num patamar alto, mesmo com a inflação a abrandar.
A construção. Os dados do Eurostat mostram ainda que a produção na construção subiu 1,2% em Portugal em junho, em termos homólogos, contra uma queda de 0,7% na zona euro e uma subida de 0,2% na UE, segundo o ECO. Em cadeia, Portugal registou um aumento de 0,4%, enquanto a zona euro caiu 1,3%.
O que se decide a seguir. O abrandamento dá ao Governo argumento para defender a sua gestão num momento em que a oposição o acusa de fazer pouco pelo custo de vida. Mas a diferença entre inflação a cair e preços a baixar mantém-se: 2,7% significa que o que custava 100 euros há um ano custa 102,7 hoje. O teste seguinte é o Orçamento do Estado para 2027, em preparação no outono. Qualquer alívio fiscal por lei parlamentar exigirá viabilização à direita ou à esquerda — a AD está a 25 deputados da maioria absoluta.
https://eco.sapo.pt/2026/08/20/producao-na-construcao-cai-07-na-zona-euro-mas-sobe-02-na-ue-em-junho
Fontes de verdade consultadas: 27
O Irão estará a considerar ataques a instalações militares norte-americanas no sudeste da Europa — incluindo bases na Bulgária e em Chipre — caso Washington intensifique operações no Estreito de Ormuz. A informação é do Financial Times, com base em fontes próximas do dossier. A NATO respondeu que está preparada para defender todos os aliados.
A situação agravou-se com uma incursão de drone numa instalação da Marinha norte-americana em Nápoles, que elevou o estado de alerta nas bases americanas em Itália. A Grécia ponderou deslocar uma bateria de mísseis Patriot da ilha de Cárpatos para a base de Souda, em Creta, como medida preventiva, sem que tenha sido anunciada uma decisão formal.
O cenário coloca pela primeira vez de forma explícita a hipótese de um confronto directo entre o Irão e a NATO em território da União Europeia, num momento em que o conflito no Médio Oriente continua a alastrar para além das suas fronteiras imediatas.
Os Estados Unidos impuseram sanções à presidente do Tribunal Penal Internacional, Tomoko Akane, e ao advogado sénior Abdoulaye Seye, invocando investigações que envolvem países que não reconhecem o tribunal. A medida foi anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio e inclui o processo relativo a Gaza. O TPI classificou a decisão como um ataque flagrante à independência judicial, que mina o Estado de direito.
A resposta europeia foi imediata. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, emitiram uma declaração conjunta de apoio firme ao tribunal. Espanha e Alemanha condenaram as sanções, descrevendo-as como um ataque à independência do TPI e ao direito internacional. Os Países Baixos, onde o tribunal tem sede, também reagiram com críticas públicas.
O episódio aprofunda a tensão transatlântica em torno da responsabilização por alegados crimes de guerra e testa a coesão europeia face à pressão da administração Trump sobre instituições multilaterais.
Na noite de 19 para 20 de Agosto, mísseis balísticos russos atingiram Kiev, matando pelo menos cinco pessoas e ferindo outras 23. Entre os alvos danificados contam-se edifícios residenciais, um centro de saúde e uma escola. Um bloco habitacional de cinco andares entrou em chamas.
O ataque insere-se no padrão de bombardeamentos continuados de cidades ucranianas por parte da Rússia.
O exército israelita reconheceu que os seus soldados dispararam sobre o veículo em que seguia Hind Rajab, uma criança de cinco anos, em Gaza, em Janeiro de 2024 — revertendo negações anteriores. O carro foi atingido por 355 projécteis, matando a criança e outros familiares. Os socorristas que responderam ao pedido de auxílio também foram alvejados. Israel abriu uma investigação criminal sobre o incidente.
O reconhecimento formal de responsabilidade, quase dois anos e meio depois dos factos, reavivou a indignação internacional em torno do caso, que se tornara um símbolo das vítimas civis do conflito em Gaza.
Os organismos anticorrupção ucranianos NABU e SAPO lançaram a operação 'Forrest Gump' contra um grupo criminoso suspeito de ter branqueado 2,8 milhões de euros para pagar a caução de um antigo ministro da Energia. Na sequência da investigação, o presidente Zelensky demitiu Iryna Mudra, vice-directora do gabinete presidencial.
O conselheiro presidencial Mykhailo Podolyak defendeu publicamente as investigações, garantindo que a corrupção será punida independentemente de quem envolva. O caso é o mais recente a aproximar-se do círculo próximo de Zelensky num contexto de guerra, quando Kiev procura manter credibilidade junto dos parceiros ocidentais que condicionam parte do apoio financeiro aos progressos anticorrupção.
A Comissão Europeia está a alterar a sua estratégia de aplicação da Lei dos Mercados Digitais, privilegiando medidas orientadas para o cumprimento em detrimento de sanções financeiras avultadas. As coimas aplicadas recentemente à Google, à Apple e à Meta ficaram abaixo do que era esperado, o que motivou acusações de discriminação por parte de Washington e ameaças de retaliação com potencial impacto no comércio transatlântico.
A mudança de registo ocorre enquanto a primeira vaga de processos ao abrigo do regulamento se aproxima do fim. A tensão com os Estados Unidos acrescenta uma variável política a um dossier que a Comissão tem procurado enquadrar como estritamente regulatório.
POLIMEME
A Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão assinaram em 7 de agosto um pacto de defesa mútua — um ataque a um signatário conta como ataque a todos. Entre analistas europeus e regionais, o debate não é se o acordo existe, mas o que ele significa.
Para Sami Al-Arian (Middle East Eye), o pacto marca a fractura da ordem regional liderada pelos EUA e pode lançar as bases de uma arquitectura de segurança independente, capaz de vir a incluir o próprio Irão.
Do lado iraniano, Qamar Cheema (Responsible Statecraft) defende que Teerão deve responder com contenção: tratar o pacto como bloco hostil arrisca torná-lo nisso mesmo.
Já o turco İslam Özkan (Medyascope) questiona a sua sustentabilidade — sem inimigo comum declarado nem mecanismos claros de coordenação, o acordo pode ficar simbólico.
Para o Paquistão, o ganho é ambíguo: reforça a posição de Islamabad no Médio Oriente e a relação com Washington, mas não resolve as tensões com os vizinhos Afeganistão e Índia (Michael Kugelman, Foreign Policy).
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A reforma da Segurança Social concentra hoje a maior parte da pressão política em Lisboa. O PCP e o PS atacam por ângulos diferentes, enquanto a aquisição de uma participação na REN acrescenta outra frente ao governo.
‣‣‣‣‣‣ Paulo Raimundo declarou esta quinta-feira que o governo está a "criar condições" para privatizar a Segurança Social, antecipando o que descreveu como uma luta de dimensão comparável à da reforma laboral. O secretário-geral do PCP falava após semanas em que o executivo apresentou propostas de reforma do sistema, incluindo um estudo sobre a sua sustentabilidade financeira. O PS, por seu lado, avisou que se oporá a qualquer utilização do saldo da Segurança Social para cobrir o défice da Caixa Geral de Aposentações, com o secretário-geral José Luís Carneiro a criticar também o silêncio de Montenegro sobre o tema.
‣‣‣‣‣ O governo enfrenta em paralelo questões sobre a aquisição de uma participação na REN. Segundo o Jornal de Notícias, o Estado pagou 380 milhões de euros por 13,7% da empresa — mais 55 milhões do que a cotação de mercado à data de referência, um diferencial de 17%. O dossier das fragatas, que o primeiro-ministro prometeu gerir com "transparência absoluta" desde agosto do ano passado, mantém-se também em aberto, com pressão parlamentar acumulada.
‣‣‣‣ Em Espanha, Alberto Núñez Feijóo alertou para uma crise de saúde pública em Ceuta após reunir com representantes dos colégios de medicina e enfermagem da cidade. O PP denunciou casos de sarna entre militares e polícias destacados na cidade e falta de reforço sanitário. O governo de Sánchez respondeu acusando Feijóo de não se distinguir do Vox na abordagem à crise de Ceuta.
‣‣‣ Na Itália, a Lega aproxima-se do congresso de 20 de setembro com tensões internas a ganhar visibilidade. Uma faixa colocada no local habitual do encontro dizia "Lega renovada ou uma Pontida de revolta". A ala do Norte pressiona por uma nova estrutura partidária, enquanto membros históricos acusam publicamente o círculo próximo de Salvini de oportunismo.
‣‣ Em França, o Partido Socialista enfrenta uma primária com contornos cada vez mais disputados. Raphaël Glucksmann prepara-se para oficializar a candidatura à presidência nos próximos dias, antecipando-se ao calendário do partido. O deputado Philippe Brun posiciona-se como outsider, com foco no poder de compra, numa corrida que inclui também o líder Olivier Faure.
‣ No Reino Unido, uma proposta de limite às doações políticas — concebida como resposta ao crescimento eleitoral de Nigel Farage — não constará do projecto de lei eleitoral quando este regressar ao Parlamento em Setembro, depois de resistências dentro do próprio Downing Street. O Partido Trabalhista enfrenta pressão simultânea dos Verdes, que ameaçam conquistar dezenas de círculos em caso de avanço de novas perfurações no Mar do Norte.

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