Aos 16 anos, antes de fazer faculdade, me apaixonei por duas coisas que eu nem entendia muito bem. A primeira era o livro O Homem e seus Símbolos. Minha mãe levou emprestado para casa e aquela mandala na capa me capturou. Tentei ler o livro e achei complexo demais, mas a mandala sempre me chamava. O segundo objeto da minha paixão foi o filme Freud Além da Alma. Lembro do espanto ao descobrir um universo inteiro dedicado a entender o que se passa dentro das pessoas e também de sentir o quanto aquilo me dizia respeito.
Nessa época, eu pensava em fazer psicologia. Flertava, também, com a ideia de fazer artes, embora achasse que não era para mim (de tempos em tempos, ainda acho). Quando a hora se aproximou, acabei escolhendo Arquitetura. Pode parecer um desvio de caminho, mas talvez tenha sido só um atalho comprido*.
Na faculdade de arquitetura, uma matéria que tratava de processos criativos chamou minha atenção. Um professor falava sobre como as pessoas criam, métodos, ritmos, formas de estímulos, bloqueios. Achei que era um bom assunto para pesquisar mas já era próxima de outros grupos da escola, que me convenceram que processo criativo não se estuda porque cada pessoa cria de um jeito.
(não é 100% mentira, tampouco é a verdade completa)
Não tem fórmula para processos criativos mesmo. Cada pessoa precisa descobrir o seu jeito. Por outro lado, é possível aprender como a gente cria e facilitar nossos próprios processos de criação. Estudar ajuda. Entender o que é um disparador, um ambiente propício, também.
Fiquei boa nas matérias de projeto. Era como um jogo interessante em que cada peça precisa encaixar certinho nas outras. Eu gostava de jogar, mas me interessava muito menos o objeto final e muito mais o processo de pensar o espaço, desenhando lugares para a vida acontecer.
Fiz mestrado. Comecei a lecionar. Fui professora universitária de Arquitetura por 15 anos.
Lecionando arquitetura, passei por matérias variadas, a maior parte delas ligadas a projeto. Dar aula de projeto é essencialmente acompanhar processos. Durante um tempo longo, orientei alunos no Trabalho Final de Graduação (TFG). Propostas autorais, que levavam 6 meses, em que cada pessoa encontrava um tema, um eixo, pesquisava programa, sistemas construtivos, relação com a cidade.
Ao longo do desenvolvimento do TFG, os alunos ficavam muito em contato com seu jeito próprio de pensar. E eu fui aprendendo como era importante ir dando sucessivos passos atrás durante as orientações. Propor, não impor. Ajudar os alunos a buscarem suas próprias referências ao invés de despejar as minhas. Apostar que eles iriam conseguir chegar em soluções para as questões de projeto que eles mesmos se colocavam. Aprender a hora de falar (para ajudar) e a hora de me calar (para não precipitar resultados antes do tempo).
Fui feliz lecionando arquitetura, principalmente porque gosto de gente.
Mas outro mundo me chamava, e eu escutei. O trabalho com arte foi crescendo na minha vida. Produzi, participei de grupos de estudos, experimentei algumas exposições. Falei que gosto de gente, né? Comecei a fazer oficinas, porque a vontade de compartilhar sempre foi grande. Nas oficinas, fui percebendo que tem muito mais em jogo em um processo criativo do que o objeto final. Percebi o quanto de si as pessoas colocavam ali. Por isso, em 2020, comecei uma especialização em arteterapia.
(olha que surpresa… para quem esteve em dúvida entre psicologia e artes no vestibular)
Na arquitetura, eu trabalhava com a lógica da pirâmide: totalidade, visão de cima, projeto que se resolve. Na arteterapia, a lógica é de labirinto: fragmento, caminho que se faz andando, todo que só se enxerga olhando pra trás.
Há pouco tempo, percebi que o que eu fazia projetando espaços era muito parecido com o que faço agora: crio condições para que algo aconteça. Só o espaço mudou: antes era fora, agora é dentro. Não foi uma mudança de rota, foi um aprofundamento.
Já li O Homem e seus Símbolos inteiro. Já reli partes. Ainda acho ele complexo, mas consigo entender agora. Já li outros textos do Jung também.
Olhando hoje, vejo que tudo se conecta. Meu trabalho se organiza em três eixos:
Arte.
A criação como forma de conhecimento e caminho de transformação. Aprendi isso bordando, desenhando, experimentando materiais, vivendo a alegria e a angústia de quem cria. E também estudando: Jung, Nise da Silveira, James Hillman, Louise Bourgeois, Bispo do Rosário, Leonilson, Rosana Paulino…
Educação.
Acompanhar processos, abrir espaço para a criação. Buscar referências, ajudar as pessoas a entender o que faz sentido pra elas. Sistematizar registros e processos. Descobrir o fio invisível que liga as coisas. Os 15 anos como professora me ensinaram isso. Ensinar não é transmitir conteúdo, é preparar terreno para as pessoas encontrarem os próprios caminhos.
Cuidado.
Escuta sensível, presença atenta, gesto delicado. Aprendi olhando quem cuida nos pequenos gestos. Aprendi tendo filha, cachorra, plantas. Cuidar é observar, não apressar o tempo nem forçar crescimento.
Já me perguntaram se eu não “perdi tempo” fazendo arquitetura, dando aula, seguindo um caminho do qual me desviei.
Eu não perdi nada. Tudo o que aprendi está aqui.
A arquitetura me ensinou que o espaço só ganha sentido com a vida que acontece nele. Com o ensino, aprendi a valorizar os processos. A arte me ensinou que o gesto das mãos alcança lugares onde o pensamento não chega.
Continuo estudando. Leio Jung, Nise da Silveira, os pós-junguianos. Investigo símbolos, mitos, práticas expressivas. Pratico arte. Porque acredito que quanto mais estudo, melhor eu acompanho. Afino minha escuta e amplio o repertório.
No fundo, sempre fiz a mesma coisa: criar condições onde as pessoas possam se encontrar consigo mesmas.
Antes, eram espaços concretos. Hoje, são espaços simbólicos.
Se quiser conversar, me escreve.
Renata
*sei que “atalho comprido” é um oxímoro. :)

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