RSS Amplifier

tempo das mãos · May 26, 2026

A pequena janela do Jung

0
Sign in to vote or save

tempo das mãos · tempo das mãos

Aos 17 anos, me apaixonei por O Homem e Seus Símbolos, do Jung.

(Pra ser exata, me apaixonei pela mandala da capa. O texto beirava o incompreensível para mim.)

Cheguei a flertar com escolher psicologia, mas acabei optando por arquitetura e esqueci disso por um tempo, ocupada em aprender desenho técnico e todas as matérias introdutórias do curso.

Mas o Jung reapareceu em uma das primeiras matérias de projeto, no terceiro período. O exercício era projetar uma casa na beira de uma lagoa. O professor levou várias referências, e uma delas era a torre de pedra que Jung construiu em Bollingen, na beira do lago na Suíça.

Fiquei impressionada, não com a beleza ou o tamanho dela. Me impressionou ele ter construído a torre de pedra com as próprias mãos e, principalmente, sua decisão de não abrir grandes janelas para o lago. Jung optou por fazer pequenas aberturas, resguardando a paisagem. Isso a deixava mais importante, quase sagrada. O autor do livro da mandala me surpreendia de novo: justamente por valorizar tanto aquela vista, ele não queria expô-la em excesso. Sua opção estética revelava uma postura ética com a vida.

No primeiro exercício de projeto, antes da casa, nos foi pedido para fazer um memorial e eu não tinha ideia de como se pensava um projeto. O professor havia levado referências mas eu simplesmente não entendia aquela escala enorme de espaço público, de monumento. Dos meus primeiros rabiscos de estudo, ele desenhou a volumetria. Queria me ajudar, facilitar o meu processo.

Acontece que meu processo morreu ali.

Eu não sentia que poderia fazer nada melhor que ele. E, ao mesmo tempo, não sentia que aquele projeto era meu. Fiz os desenhos e a maquete a partir do desenho feito por ele, aprendi alguma coisa, óbvio, mas nunca senti alegria alguma por aquele trabalho.

A casa foi o segundo exercício de projeto e toda minha admiração pela torre do Jung rendeu um comprometimento quase visceral com o projeto. Fiz uma casa muito feia mas muito legal para uma estudante de terceiro período. O professor era outro, não desenhou uma linha para mim. Pesquisei muito, fiz muitos desenhos, ajustei cada ponto tentando repetir o efeito que aquela casa tinha causado em mim.

E, claro, segui o caminho dele.

Na minha casa, uma torre circular abrigava os espaços do cliente. No primeiro andar, só janelas pequenas. No segundo, ela se abria. A recompensa da subida era apreciar a vista da lagoa.

Anos depois, era eu a professora que orientava projetos. Escolhia os temas, propunha os exercícios, acompanhava os alunos. Compartilhava minhas referências, estimulando que eles também levassem as suas para dividir com o grupo. Nunca imaginava um resultado de antemão, pelo contrário: adorava ver a diversidade de respostas possíveis a uma mesma proposta.

Fui ficando cada vez mais cuidadosa ao compartilhar minhas referências, reforçando que elas não eram modelos a serem seguidos mas objetos para que pudéssemos confrontar nossos diferentes pontos de vista. Procurava, também, interferir o mínimo nos projetos dos estudantes. Eu tinha aprendido com aquele professor que desenhou para mim: ajudar, às vezes, atrapalha.

No trabalho final de graduação, a questão da autoria era ainda mais evidente. Nesse exercício, os alunos escolhiam tudo: programa, materiais, volumetria, terreno, relação com a cidade. Pesquisavam e apresentavam suas próprias referências. Quando alguém chegava perdido, sem saber por onde começar, eu pedia para abrirmos as referências juntos e ia questionando: o que você gosta nessa? O que você não gosta? O que quer levar disso para o seu projeto? Eu queria que eles inventassem suas soluções a partir do que gostavam, ao invés de copiarem arquiteturas já existentes.

Rapidamente, os estudantes aprendiam a fazer esses questionamentos sem minha ajuda. Chegavam com as referências sabendo o que importava ali. Os projetos iam, aos poucos, ganhando a cara deles. Eu me surpreendia com as soluções originais que apareciam. E via algo acontecer com aqueles jovens: ao se tornarem donos do próprio processo de criação, iam se tornando mais eles mesmos.

Quando nos apropriamos do que gostamos, nos apropriamos de nós mesmos.

Os processos que acompanho hoje em arteterapia têm muito do que aprendi orientando projetos de arquitetura. Sigo enfatizando os processos, sem expectativa de resultados. Estou ali, junto, para ver a pessoa encontrar seu próprio caminho. Ajudo cada pessoa a encontrar suas próprias referências e a pensar sobre elas. Observo com cuidado quando preciso ficar perto e quando é hora de dar mais espaço, confiando que cada pessoa tem seu jeito singular de criar.

O espaço mudou do exterior para o interior, mas minha postura é a mesma.

E volto à torre do Jung. De início, não entendi a escolha dele pelas janelas pequenas, quando o esperado era descortinar a vista para o lago. Aos poucos, fui entendendo que mostrar menos pode significar valorizar mais e me apaixonei pela contenção como gesto.

Fui aprendendo que contenção não é dar menos. É dar mais: espaço, liberdade, confiança no tempo do outro.

Cultivo essa postura no trabalho de acompanhamento e em meu próprio trabalho poético, sempre em busca do mínimo necessário, dispensando o que sobra, cuidando de não exagerar no gesto.

Aprendi isso (também) com a pequena janela do Jung.

Até a próxima!

Renata

P.S.1 Tenho horários de acompanhamento individual disponíveis, presencial no Itaim Bibi ou online. É um espaço para você construir seus próprios caminhos internos com escuta, cuidado e referências que não viram modelos. Se você ficou curiosa, me escreve.

P.S.2 A newsletter é um espaço que estou cultivando com carinho. Se você quiser compartilhar, agradeço 🤍

P.S.3 Se quiser saber mais sobre meu trabalho, tem mais coisas no site: renatamalachias.com

Read the original on tempodasmaos.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.