Esse é o efeito mais humano diante da impossibilidade de impedir o fim: criar uma outra temporalidade para repousar tudo que é efêmero. A vida acaba, mas o vivido não desaparece — ele se transforma em parte de quem viveu. Se condensa na pele, no gesto, no olhar, no inconsciente. A eternidade da memória nasce da finitude, porque só se eterniza aquilo que pode acabar.
O que se perde no mundo não se perde inteiramente no sujeito. O que foi amado se transforma em presença interna; não é mais corpo, mas ainda é vínculo. Não é mais encontro, mas ainda é relação. Amar alguém é garantir que ele nunca desapareça completamente. Somos arquivos vivos de afetos.
O que a memória ama fica eterno. Eu te amo com a memória, imperecível
— Adélia Prado
Transformamos a perda em uma espécie de sobrevivência simbólica. Não impedimos a morte, nós impedimos o apagamento. Não negamos a perda, nós a transformamos em narrativa, imagem, linguagem. A memória é o lugar onde aquilo que acabou continua operando. Resistimos ao tempo fincando os pés no afeto.

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