Não é raro nos deparar com pessoas que se esforçam pra bancar expectativas alheias, acima, até mesmo, de si próprias. São os famosos filhos prodígio, os bonzinhos, os que não deram trabalho algum, os educados e silenciosos. Visto pela perspectiva dos pais, são crianças que, desde muito cedo, parecem ter entendido tudo: elas correspondem, superam, brilham, elas sempre esperam o comando. Ocupam, sem hesitação, o lugar que lhes é oferecido — ou melhor, exigido — no desejo do Outro. Tornam-se a resposta dos pais ao que faltou, ao que não pôde se realizar, ao que foi sonhado antes mesmo da sua chegada.
Na psicanálise, sabemos que o sujeito se constitui no campo do Outro, alienado aos seus significantes. Mas, em certos casos, essa alienação se estreita de tal forma que resta pouco espaço para o desvio, para o tropeço, para o erro — ou seja, para o surgimento de um desejo próprio. A criança passa a funcionar como suporte de um ideal que não é seu, ela encarna um projeto, e isso se segue na idade adulta tomando uma proporção perigosa.
O que se apresenta como talento ou excelência pode carregar uma fidelidade (nociva) a esse lugar que lhe foi atribuído. Não se trata simplesmente de querer, mas de não poder não corresponder a expectativa do outro, como se houvesse uma exigência constante de justificar sua existência através do desempenho,

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