Nós somos sempre atravessados por forças inconscientes que nos desmentem, nos desviam e nos contradizem.
Costumamos pensar na arrogância como uma demonstração de afirmação de si, fácil de detectar. Porém quando estamos no polo oposto, exige um pouco mais de percepção. É o tipo de arrogância que se apresenta como uma falta, ou melhor dizendo, como a encenação de uma falta, um recuo que demonstra uma certa desvalorização. É a arrogância das pessoas humildes demais, aquelas que fazem da modéstia uma identidade. Quando alguém insiste em se colocar sempre aquém — “não sou nada”, “não sei de nada”, “não mereço”, “sou menor que todos”…
Quem nunca conheceu alguém assim? Tão boazinha, tão galera, tão humilde… Nesses casos, a humildade deixa de ser abertura ao outro e se transforma em uma posição performática, quase inquestionável. E toda posição que não se deixa interrogar corre o risco de se tornar soberba, ainda que muito bem disfarçada.
Na filosofia, Nietzsche já desconfiava dessas virtudes que se apresentam como puras demais. Em sua crítica à moral, especialmente em Genealogia da Moral, ele mostra como certos valores — como a humildade, a abnegação e o altruísmo — podem ser efeitos de uma moral ressentida.

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