Por Danilo Novais
Espetáculo “Crowd”, 2017, de Gisèle Vienne
Se me fosse incumbida a injusta tarefa de contar as vezes em que a música me salvou, talvez todo o tempo do mundo não fosse suficiente. Tampouco haveria memória capaz de dar conta desse inventário. Seria preciso recorrer ao exagero para descrever as diferentes intensidades de cada injeção de ânimo, alegria, força e vontade que recebi desde que me entendo por gente.
A música continua me salvando. De mim mesmo, dos pensamentos que insistem em sabotar qualquer possibilidade de paz, do olhar torto que às vezes devolvo ao espelho, da falta de energia provocada pela ansiedade e das incoerências de um mundo que frequentemente parece perder o compasso.
“O primeiro passo para ver é ver que há coisas que você não vê”, escreve Akwaeke Emezi em seu livro Pet. A frase poderia soar como mais uma citação pronta para engajamento, não fosse o desconforto que provoca. Ela não oferece uma resposta; expõe um limite.
“And Then We Danced” (2019), filme de Levan Aki
Se a mente e os olhos não alcançam tudo, a arte amplia o horizonte. A música nos empresta aquilo que ainda nos falta: as palavras que não encontramos, as sensações que permanecem sem nome, os afetos interrompidos e os entendimentos que ainda não repousaram dentro de nós.
A música salva porque reduz a complexidade da vida à escala de um abraço. Não elimina a dor nem resolve os impasses do mundo, mas, por alguns minutos, torna a existência novamente habitável.
Em “Music Is the Answer”, faixa de Electric Lines (2017), Joe Goddard assume o papel de pastor ao conceber um hino digno de um culto clubber, celebrando o poder de cura da música.
You take me higher still
You’ve been healing my heart
Music is the answer to your problems
Keep on moving then you can solve them.
Em tradução livre: “Você me leva ainda mais alto. Você cura o meu coração. A música é a resposta para os seus problemas. Continue dançando e eles começam a se resolver.”
A ideia pode parecer otimista demais, mas há muito tempo a música deixou de ser compreendida apenas como entretenimento. Muito antes das pistas de dança ocuparem esse lugar simbólico, Émile Durkheim já argumentava que o bem-estar das pessoas dependia de encontros coletivos capazes de renovar crenças, vínculos e representações compartilhadas. Quando indivíduos se reúnem em torno de símbolos comuns e sincronizam gestos, vozes e afetos, algo muda na experiência de estar no mundo.
Durkheim chamou esse estado de efervescência coletiva.
Bloco Tarado Ni Você, Carnaval 2019, Danilo Novais
As preocupações individuais deixam de ocupar todo o espaço da consciência e cedem lugar a um sentimento de pertencimento que restitui energia para enfrentar a vida cotidiana.
A frase que abre este texto, do sociólogo baiano Muniz Sodré, parece condensar essa experiência com uma precisão rara. Ela descreve a sensação de fechar os olhos no front da pista de dança, quando a música suspende, ainda que provisoriamente, as fronteiras do indivíduo.
Durante boa parte do século XX, quando a ideia de um indivíduo autônomo e isolado dos processos coletivos predominava, as formulações de Durkheim permaneceram à margem das principais interpretações sobre o comportamento humano. Décadas cultivando o ideal da autossuficiência nos conduziram a um paradoxo difícil de ignorar: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão solitários.
O surgimento de aplicativos como o Are You Dead?, que exige que você confirme periodicamente que continua vivo, parece uma caricatura do presente. Na prática, traduz a experiência de um isolamento que deixou de ser exceção para se tornar condição permanente.
A epidemia de depressão e solidão também é uma doença política. O sofrimento se torna invisível quando desaparecem as estruturas comunitárias capazes de acolhê-lo. É por isso que a música, a dança e a pista funcionam também como uma resposta política ao status quo. A sincronização entre corpos reduz, ainda que temporariamente, a distância entre o “eu” e o “outro”, fortalecendo vínculos de confiança, cooperação e intimidade.
Alguns pesquisadores descrevem essa experiência como um estado de mind merging — mentes fundidas. Talvez seja apenas outra maneira de nomear aquilo que acontece quando um refrão explode e, por alguns minutos, centenas de desconhecidos respiram no mesmo tempo.
Se é a alegria que liberta cada um de si mesmo, a pista de dança é o lugar onde essa alegria encontra o corpo.
Ao longo de sua trajetória, e especialmente em seu novíssimo Confessions II, Madonna nos lembra que a pista nunca foi apenas um espaço de entretenimento. Ela é um território de resistência, um ritual coletivo onde o movimento se transforma em linguagem.
Existe quem reduza a dance music à superficialidade. Mas a verdade é que a pista suspende hierarquias, enfraquece o julgamento e dissolve, por algumas horas, as fronteiras entre desconhecidos. Ela nos devolve uma experiência cada vez mais rara: a de existir coletivamente.
Existe vida para além do feed e das telas. Ela começa justamente quando as luzes se apagam e a primeira batida toma o ambiente.
Referências:
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.