por João Rocha (Cidade Cinza23)
Fotografar rua é esperar. Caminho horas sem saber o que vou encontrar e, quando encontro, tenho um segundo (nunca mais que isso) pra decidir se aperto o botão. Não dá pra pensar “agora”. Se eu pensar, a cena já se desfez: a pessoa atravessou a faixa, a sombra mudou de lugar, o gesto que fazia sentido virou só mais um corpo andando.
Na minha carreira entre a fotografia de rua e eventos, comecei a reparar que um DJ faz o mesmo gesto, só que com o ouvido em vez do olho. O ponto exato de encaixar a próxima faixa, o milésimo de segundo antes do beat cair, também não passa pela cabeça dele. Passa pela mão, pelo instinto de quem já repetiu aquilo tantas vezes que virou reflexo. Ele erra o compasso, a pista sente. Eu erro o clique, o momento já foi embora e não volta.
Fotógrafos e DJs são, no fundo, o mesmo ofício em superfícies diferentes: um decide sem decidir, treinado pra confiar no corpo antes que a mente perceba que a hora certa já chegou.
Henri Cartier-Bresson, um dos nomes que fundaram a fotografia de rua como a conhecemos, tinha um termo pra isso: o “instante decisivo”. A ideia de que existe um único segundo em que forma, gesto e sentido se alinham perfeitamente numa cena e que, passado esse segundo, a mesma cena nunca mais se repete daquele jeito. Cartier-Bresson dizia que fotografar era colocar a cabeça, o olho e o coração no mesmo eixo, e que isso não podia ser pensado: só reconhecido.
Trocando “olho” por “ouvido”, é praticamente a definição de um bom set. Ninguém diz para um DJ “pensar melhor” no próximo drop. Ou ele sente o momento, ou perde o momento. E a pista, que não perdoa hesitação, sente a diferença no corpo antes mesmo de entender racionalmente o que mudou.
Os psicólogos chamam isso de estado de flow: quando a ação e a consciência se fundem e a noção de tempo praticamente desaparece. É o estado em que caminho por horas pela rua sem perceber o cansaço, sem checar quantas quadras já andei, sem pensar em nada além do que está bem à minha frente. O mesmo estado em que um DJ toca três horas de set sem olhar o relógio uma vez, guiado só pelo que a pista está pedindo.
Chegar nesse estado não tem atalho. Vem da repetição. Da caminhada refeita centenas de vezes, do mesmo set tocado em centenas de pistas diferentes, até o gesto deixar de precisar de comando consciente. Mas esse instinto não age sozinho: ele reage a um material diferente em cada ofício.
Nenhum dos dois decide sozinho. Um DJ lê a pista antes de decidir a próxima música - o jeito que os corpos se movem, se cansam, se pedem por mais grave ou por uma pausa. A decisão não nasce só nele: nasce da conversa entre o que ele sente e o que a multidão devolve, em tempo real, sem diálogo formal. Assim como o fotógrafo, antes de levantar a câmera, já está lendo o ritmo de quem caminha - se vai acelerar o passo, se vai olhar pro celular, se o gesto que convoca a atenção vai se completar ou vai morrer ali mesmo.
É por isso que nenhum dos dois ofícios se norteia só pela técnica. Enquadramento e mixagem podem ser ensinados, mas ler o momento antes que ele se anuncie é outra coisa, mais parecida com escuta do que com regra. A cena não avisa quando está pronta. Ela só está, por um segundo, e cabe ao olhar atento perceber isso antes que se feche.
Talvez seja por isso que os melhores fotógrafos de rua e os melhores DJs tenham algo em comum que vai além da técnica: os dois trabalham pra construir uma lembrança que não é deles. A foto fica pra quem passou por aquela esquina sem perceber que aquilo era especial. O set fica na memória de quem dançou sem saber, na hora, que aquela música ia marcar a noite. Nenhum dos dois guarda o instante pra si. Os dois existem pra devolver o instante pra outra pessoa, depois, de um jeito que ela sozinha não teria guardado.
Não sei quantas fotos minhas alguém já revisitou anos depois pra lembrar de um dia comum. Também não sei quantos sets alguém já procurou de madrugada tentando reencontrar aquela música específica que tocou num determinado momento. Mas sei que os dois gestos terminam no mesmo lugar: viram a prova de que algo aconteceu, guardada por quem nem estava pensando em si mesmo naquele segundo — só na cena, ou só na pista, inteiras.
O fotógrafo e o DJ abrem mão do próprio “Eu” para imortalizar seu instante.
Referências:
Henri Cartier-Bresson, The Decisive Moment (1952)
Mihaly Csikszentmihalyi, Flow: The Psychology of Optimal Experience
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