por Daniel Ramos
Se não houvesse o futebol, nós teríamos outra coisa. Se não houvesse outra coisa, nós teríamos uma guerra civil a cada dia. Sócrates disse isso, não o filósofo grego, mas o outro, jogador de futebol conhecido por sua passagem pela Seleção Brasileira e pelo Corinthians.
O futebol é componente essencial da sociedade brasileira: ele mexe com a paixão popular, e está integrado à nossa cultura de tal forma que tem o potencial de mudar o humor do país. Mesmo quem não é amante do esporte ou não tem o interesse de acompanhá-lo no dia a dia é tomado pelo frenesi que nos assalta em período de Copa do Mundo – um frisson magnético que mistura senso de pertencimento com a vontade de estar com os amigos e viver momentos de catarse em grupo.
Mas o futebol não vem sozinho, ele vem acompanhado por uma entidade que também é protagonista na vida de todo brasileiro: a música.
No Brasil, a música é narradora do nosso esporte mais popular. Grandes momentos do futebol brasileiro estão registrados no cancioneiro popular e não é de hoje: a canção do grupo Lima Vieira & Cia, “Foot-Ball”, é registrada como a primeira da história do Brasil a homenagear o esporte queridinho do povo brasileiro. Isso lá em 1913.
Desde então, muitas músicas foram criadas ao redor do futebol e elas não só foram adotadas por torcidas e entoadas nos estádios Brasil afora, mas também, músicas que marcaram momentos históricos do nosso país.
Por ocasião da Copa do Mundo de 1958, realizada na Suécia (a primeira vencida pelo Brasil), foi composta esta marchinha, até hoje muito lembrada: “A taça do mundo é nossa.”
Ou a Copa do Mundo de 1970 onde o brasileiro bradava “Pra frente Brasil!”, embalado pela Seleção considerada a maior de todas as Copas. A marchinha, no entanto, foi lançada no auge da ditadura militar, na esteira do AI-5, e serviu como peça de propaganda do regime.
Uma curiosidade: essa canção tem entre os autores o trombonista Raul de Souza, que tocou com Ary Barroso, fez parte do supergrupo Os Copas (com Meirelles e Paulo Moura no sax e Milton Banana na bateria) e teve uma carreira internacional pródiga, emplacando inclusive um hit da época da discoteca: “Sweet Lucy”.
O namoro da música popular e do futebol no Brasil não é um caso esporádico que acontece de quatro em quatro anos. As arquibancadas dos estádios têm na sua veia o hábito de cooptar músicas e transformá-las em hinos que enaltecem seus clubes. De sambas carnavalescos a mestres do soul como Tim Maia, os estádios têm um pulmão e mente própria, que canta, grita e chora por suas bandeiras.
(Nesse campo, entretanto, precisamos dar o braço a torcer e admitir que os britânicos são os melhores nesta arte das versões. Os escoceses adaptaram “Freed From Desire” da Gala e vêm cantando a versão da época da Eurocopa 2024 até agora, por exemplo.)
O futebol assim como a música são instrumentos que constroem a ideia do ser brasileiro. Esperamos ver em campo e nas arquibancadas a ginga, a energia e a alegria que também ressoam em nossa música e em nosso Carnaval.
O brasileiro canta, logo existe. E temos cantado muito sobre futebol ao longo de décadas.
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