Acabou. O ano começou. O sonho de uma vida sem correr de um lado pro outro terminou junto com o último bloquinho da terça-feira à noite. Casa ainda meio desmontada do carnaval. Filho brigando por controle remoto. Um resto de cerveja na geladeira que ninguém assumiu. Café requentado.
Eu não aproveitei muito, tô fodido tentando parir um pré-projeto de Doutorado, mas isso não é bem o que vocês querem ouvir, né?
Já que é hora de trabalhar, eu resolvo abrir o LinkedIn pra me acostumar de novo com o cheiro de chifre queimado que é o mercado. Uma aluna me manda um post. Eu abro.
E lá está:
“Design é uma pseudo-profissão.”
AGORA PRONTO.
11 horas da manhã, bicho, 1h pra cair de volta na realidade e a ressaca moral tá instalada!
Eu não ri.
Eu não rebati.
Eu tô cansado, mano.
(Mas eu também já pensei isso.)
Já olhei pra proposta de salário e fiz conta de aluguel na cabeça. Já somei custo de faculdade com ticket médio de mercado e pensei: “tem algo errado”. Já me senti um operador de software com diploma caro pendurado na parede.
Então antes de qualquer coisa: a dor é real.
Não é frescura. Não é vitimismo. Não é drama performático.
Mas a pergunta que ficou martelando em mim não foi “o design paga mal?”.
(Spoiler: paga, mas tem outra parada aí)
Foi outra.
O que exatamente a gente está vendendo quando diz que é designer?
Se eu me posiciono como o bichão do Photoshop, eu disputo Photoshop.
Se eu me posiciono como Motion Designer que executa demanda, eu disputo execução.
E execução sempre tem alguém disposto a fazer por menos.
(Acredite, eu já disputei com técnico, freelancer indiano, IA, estudante recém-formado e até com aquela velha lenda do design: o sobrinho)
Não é só crueldade. É mercado operando na camada mais normal, rasa e, aí sim, cruel possível.
A empresa que oferece dois salários mínimos não está procurando “design”.
Ela está procurando alguém que saiba apertar botão e seguir briefing.
Ela não quer projetista.
Ela quer operador.
E operador é facilmente substituível, inclusive pela IA.
Isso dói ler.
Mas dói menos que acreditar que o mundo acabou.
Agora, deixa eu não bancar o sábio da montanha.
Eu não estou imune a nada disso.
Se amanhã eu sair do Ministério ou da Universidade na qual eu dou aula, eu não viro herdeiro nem consultor milionário.
Eu vou disputar vaga. Talvez essa mesma vaga ai de dois salários mínimos.
Provavelmente eu vou dar aula mal paga.
Pegar freela.
Assoviar, chupar cana (ui, que delícia) e ainda fazer malabarismo, como eu sempre fiz.
Eu também estou dentro da precarização.
Eu só resolvi operar em outra camada dela.
Uma camada mais funda. Não porque eu entendi o jogo ou “quebrei o código”. É tipo operar no fundo do poço mesmo.
Porque, quando mais profunda a camada menor é a queda.
Primeiro, nada contra São Paulo e os paulistanos, tenho até amigos que são. Ir pra SP com dinheiro, ver museu, comer comida do mundo todo e visitar ponto turístico é MASSA.
Mas… eu não sei se eu moraria em São Paulo.
Porque tem um ponto que ninguém gosta de falar: ecossistema importa.
São Paulo não é Brasília.
Brasília não é Recife.
Recife não é interior de Minas.
Em São Paulo você disputa pipeline de agência.
Em Brasília você disputa projeto institucional e serviço público.
Em outros lugares você disputa sobrevivência pura.
Eu mesmo já trabalhei anos com o povo de Aracaju no Sergipe, e lá a chibata canta diferente DEMAIS.
Isso não é mérito.
É ambiente.
E ambiente molda percepção.
Eu prefiro a ilusão perdida do serviço público como o guardião do funcionamento do país do que a ilusão mais perdida ainda de que o pão com mortadela da padoca da esquina de uma rua da Consolação é feito com mortadela italiana feita com o porco que nunca pisou no chão, MÊO.
A gente escolhe onde quer ser iludido.
Talvez eu esteja defendendo isso porque eu preciso acreditar nisso também.
Outra coisa: prometeram que a IA ia revolucionar tudo.
Revolucionou?
Revolucionou o quê?
Ela acelerou execução.
Mas execução nunca foi a parte mais cara do design.
(E, portanto, nunca foi a que paga melhor. NUNCA, nem quando a galera usava letraset e rapidograph)
O que custa caro é pensar, articular, negociar, sustentar decisão, chegar bonito na reunião e fazer pitching inspirador que faz o véio que tá lá no topo chorar.
Se você é pago pra executar, a IA compete com você.
Se você é pago pra decidir, a IA compete menos.
E isso não é elitismo.
É posicionamento.
Eu entendo a revolta.
É humilhante fazer faculdade cara pra ganhar dois salários mínimos.
É humilhante ver vaga pedindo vídeo, motion, editorial, estratégia, social, branding e ainda sorrir na entrevista.
Mas o problema não é que “design é uma pseudo-profissão”.
Talvez o problema seja que a gente ensinou uma geração inteira a se vender como ferramenta.
E ferramenta é trocada quando surge outra mais barata.
(Tadinho do letraset, era tão legal, fez tudo por nós, mas esse tal de pacote Adobe é jovem, mais barato e mais rápido né?)
Isso não é culpa individual.
É modelo de mercado.
É ensino descolado da prática.
É glamour universitário sem noção de realidade.
(E é por isso que eu insisto em não glamourizar a parada pros moleque que eu ensino.)
Aqui entra a parte amarga daquela dipirona que você tá tomando hoje, quarta-feira de cinzas, pra chegar no trampo com menos cara de bebum:
Ninguém está totalmente seguro.
Mas a forma como você se posiciona muda a profundidade da queda.
(Lembrem-se, se você for pro fundo do poço primeiro, ninguém consegue te derrubar. Puta sabedoria desbalanceada, bicho.)
Eu não escrevo isso como quem venceu.
Escrevo como quem já caiu em vaga técnica, já fez serviço abaixo do que sabia fazer, já aceitou coisa porque precisava pagar conta.
E ainda assim continuo insistindo em me vender como projetista.
Porque projetista não disputa botão.
Disputa problema. E eu adoro problema. Designer é um bicho estranho mesmo.
Um homem sem um Marea Turbo, no mínimo dois filhos e uma profissão criativa é apenas um menino.
Mas é aquilo, na quarta-feira de cinzas, entre um filho gritando e outro pedindo lanche, eu não consegui sentir raiva do post lá do LinkedIn.
Eu senti meio que compaixão… e um pouco de cansaço também.
Cansaço de ver a profissão ser medida só pelo salário da vaga mais rasa.
Cansaço de ver gente boa (pow, velho, o cara lá do LinkedIn é bom mesmo, sério… que droga) acreditando que o fim chegou.
Cansaço de lembrar que a gente também já romantizou demais esse campo.
Design não acabou.
Mas a ilusão de estabilidade, glamour e a gente num prédio envidraçado com puffs e áreas de descompressão talvez tenham acabado faz tempo.
E talvez isso seja a parte que ninguém avisou.
Design não é uma área blindada.
Nunca foi.
Mas também nunca foi só ferramenta e soluções geniais tiradas de uma latinha de creme de leite industrializado.
Agora da licença. Meio-dia. Acabou o feriado. Deixa eu ir ali fingir que eu faço a diferença em algum lugar.
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