Voltei a tocar violão.
Não foi um retorno épico.
Não teve epifania, nem vontade súbita, nem aquele papo insuportável de “reencontro comigo mesmo”.
Foi mais um cansaço específico. Um incômodo. Uma coisa rangendo por dentro há tempo demais.
Meu estúdio está desmontado há anos.
Não é figura de linguagem. Anos mesmo.
Guitarra boa. Amplificador caro. Interface de áudio decente. Bateria de marca. Um monte de coisa que me olha com reprovação toda vez que passo.
Tudo ali, parado, formando uma instalação contemporânea chamada:
“homem que já foi alguma coisa”.
Esse estúdio, aliás, não nasceu aqui.
Ele ficava na casa de um amigo — o Bertholdo — que não fazia parte da banda, mas cedeu o espaço. Um casão no Lago Sul.
Aquele tipo de casa que um fodido de sobrado 2 como eu só costuma frequentar pra trabalhar: cortar grama, fotografar evento, carregar coisa pesada e sair antes de escurecer com os 100 reais da diária no bolso.
Mas ele cedeu.
(Caralho, Bertholdo, eu queria muito que você entendesse o valor que esse seu gesto teve pra mim. Acho que é por isso que, até hoje, eu vou até na putaqueopariu pra poder te encontrar e passar um tempo contigo e a tua família <3)
E por um tempo aquilo virou base. Sala tratada, equipamento montado, rotina possível.
Quando a casa foi vendida, o estúdio voltou comigo.
Voltou inteiro.
Pra cá.
Pro sobrado 2.
E foi aí que o tempo começou a fazer o que ele faz melhor: acumular coisas e jogar o acúmulo na sua cara…
Faziam cinco anos que eu não tocava nenhum instrumento.
Desde que a banda acabou, em 2018, música virou lembrança. Equipamento virou cenário. Bonito, silencioso, levemente acusatório.
E aí eu quis voltar. Só pra ver um negócio, rapidão…
Mas não pela guitarra, ou mesmo pela bateria, que eu arranhava quando dava…
Voltar pela guitarra, pela bateria ou qualquer um desses instrumentos do rósquenrou exige energia, calo, volume, assertividade.
Violão, não.
Violão aceita hesitação.
Violão aceita você ruim.
Violão aceita você tentando lembrar quem era.
Também tem um detalhe nada poético: meus dedos doem.
Depois que você perde o calo, instrumento de cordas de aço vira instrumento de tortura medieval. Nylon dói também — mas dói com educação. É dor com pedido de desculpa. Então foi violão, e de Nylon.
Entrei numa paranoia clássica, ou, como os guitarristas falam: GAS - Gear Aquisition Syndrome. A compulsão de comprar equipamento.
Entrei nessa pane de comprar um violão novo. Bonito. De marca. Tudo isso pra tentar voltar em grande estilo pra um lugar que tem zero glamour…
A Samara, sempre ela, matou a ideia em uma frase:
— Você já tem um.
Eu tenho? Tem certeza?
Eu achei que não.
Mas tinha.
Um violão velho. Genérico. Empoeirado. Sem história. Sem pedigree. Um violão que claramente não acreditava mais em mim, assim como eu não acreditava nem na existência dele.
Comprei encordoamento novo. Ernie Ball Nylon, de primeira qualidade. Todo cheio de gueri-gueri. Reencordoei todo animado. Apertei… e as tarraxas começaram a girar em falso.
Todas.
O mecanismo estava completamente espanado. Velho e enferrujado.
(Olha o foreshadowing aqui!)
Ou seja: mais alguns dias de espera. Compra de peça. Correio.
Aquele tempo morto maravilhoso em que você já decidiu que vai voltar, mas o universo pede documentação adicional só pra te testar de você quer mesmo.
Chegou!
Troquei as tarraxas. Afinei. Sentei. Toquei.
E aí veio a humilhação.
Não era só o violão que tava ruim que dói.
Eu também tava todo espanado, enferrujado e ruim pra caramba.
Eu não lembrava de nada.
Nada no sentido mais específico possível: os dedos sabiam quase, a cabeça sabia mais ou menos, mas se juntasse os dois, eles não sabiam coisa nenhuma.
O Scottish Choro do Villa-Lobos evaporou.
O chord melody de Drão simplesmente não estava mais lá.
A Gymnopédie nº1 do Satie foi deletada sem backup.
Fiquei mal.
Não dramaticamente. Fiquei mal do jeito adulto: quieto, meio irritado, fingindo que não era tão grave assim.
A real é que cinco anos sem tocar cobram juros compostos. E eu não renegociei a dívida.
Mas foda-se…
Continuei.
Depois de algum sofrimento, a primeira parte do Scottish Choro voltou. Meio manca, meio insegura, mas voltou.
A Gymnopédie está reaparecendo nota por nota, como alguém reaprendendo a digitar senha antiga.
E junto disso começaram a surgir outras coisas esquecidas, escondidas em algum lugar entre a mão e o tempo: Fadas, do Luiz Melodia, Corsário, do João Bosco, umas do Caetano, outras do Gil… e até uns rósque que eu sabia tocar.
Nesse processo, mexendo nas caixas do estúdio, achei coisas que eu nem lembrava que existiam.
Kits de microfones novos.
Novinhos.
Na caixa.
Nunca usados.
Instrumentos. Cabos. Acessórios.
Um inventário silencioso de intenções que nunca chegaram a virar gesto.
Achei também gravações antigas no celular. Notas musicais. Áudios. Coisas que eu claramente não lembrava que existiam. Dei play.
Erro.
Eu achava que ia encontrar um moleque se lascando pra tentar tirar umas coisas e compor outras. Memórias que eu ia olhar e pensar: Putz, hoje eu sou uma pessoa melhor…
Erro.
A real é que eu tocava bem pra caralho.
Com intenção. Com clareza. Com uma maturidade musical que hoje eu reconheço com precisão cirúrgica — e que naquela época eu simplesmente não via.
Esse talvez seja o truque mais sacana do tempo:
a capacidade de julgamento chega depois da capacidade de execução.
Hoje eu tenho senso.
Mas não tenho mão.
Naquela época eu tinha mão.
Mas não tinha senso pra perceber.
E não, isso não é nostalgia romantizada. É quase burocrático. Um dado técnico.
Eu era melhor e não sabia. Agora eu sei — e não sou.
A ironia aqui é óbvia demais pra ignorar: maturidade é um péssimo consolo quando ela chega sozinha.
Mas isso não aconteceu no vácuo.
Eu tocava bem porque existia um contexto que me obrigava a tocar bem.
Eu tinha uma banda.
E não, não é invenção pra texto nem a banda de garagem que todo mundo teve e não deu certo — tem música gravada, clipe, álbum no Spotify.
Se alguém quiser ouvir, tá tudo lá. Sem reescrita histórica.
Era uma banda “de verdade”.
Daquelas que ensaiam sério, compõem, brigam, insistem.
Letra nossa, arranjo nosso, ego nosso.
A gente tocou no Porão do Rock, em Brasília.
Gravou álbum. Subiu em palco grande. Teve retorno real.
Não era TANTA fantasia de garagem.
Musicalmente, funcionava.
Relacionalmente, era um desastre completo.
Comunicação truncada. Ressentimento acumulado. Expectativa mal resolvida.
Gente sensível demais fingindo que aguenta porrada emocional.
O fim não foi poético.
Não foi “cada um seguiu seu caminho”.
Foi feio.
Acabamos num consultório de psicologia, em terapia de grupo.
Sério. Não é metáfora. Foi exatamente isso.
Hoje isso me dá uma vergonha meio específica.
Não por causa da terapia — terapia é massa.
Mas porque, olhando agora, parece óbvio demais: a banda acabou muito antes de eu admitir que tinha acabado.
Em 2018, tudo parou.
Não só a banda. A música como prática.
E aqui entra um dado pouco romântico:
não foi que eu decidi parar de tocar.Eu só fui parando.
Primeiro menos ensaio. Menos idas ao estúdio.
Depois menos instrumento na mão.
Depois nada.
Cinco anos.
Mas o que me surpreende agora é que nem tudo sumiu.
O Scottish Choro voltou em duas semanas.
Duas.
Antes, quando eu estava “no auge”, levei quase um ano pra aprender aquela peça direito. Um ano de insistência, erro, repetição.
Agora foi mais rápido.
Não porque eu esteja melhor — mas porque aquilo já passou por mim antes.
Experiência não toca música.
Mas encurta o caminho.
Talvez porque agora eu saiba ouvir melhor os erros.
Talvez porque agora eu saiba quando insistir e quando parar.
Talvez porque maturidade não execute nada — mas economize tempo.
É estranho aceitar isso:
perdi mão, ganhei escuta.
Perdi velocidade, ganhei critério.
Não é que a troca seja justa.
(Eu queria era pegar o violão e sair debulhando uns arranjo difícil pra deixar todo mundo de boca aberta…)
Mas é a que tem.
Por isso eu continuo agora sem fantasia de retorno glorioso.
Não estou tentando recuperar o palco, o álbum ou a versão idealizada de mim mesmo.
Estou tentando não deixar o instrumento virar apenas mais uma “boa” história de um velho reclamão quando alguém chega perto de mim e fala sobre música.
“Nossa, você sabia que eu tive uma banda? Era massa demais, a gente era bom e…”
Eu já ensaiei esse monólogo. Eu sei como ele é chato. Mas ele é confortável pra mim. E é exatamente por isso que eu tô tentando parar.
Não tem comeback.
Tem permanência.
Permanência sem palco, sem glamour, sem testemunha.
O tipo de coisa que ninguém chama de “volta”, mas que impede o discurso de substituir a prática.
No meu caso, isso passa por um violão.
Em outros casos, deve passar por um banjo, cerâmica, correr na rua ou sei lá mais o que.
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