RSS Amplifier

Ruído Cinza · Jul 6, 2026

Ruído Cinza #48 (06/07)

0
Sign in to vote or save

Vinicius Corrêa · Ruído Cinza

Bom dia/tarde/noite, leitores Madonnicos. Nesta última semana, a indústria fonográfica foi arrebatada pelo lançamento de “CONFESSIONS II”, 15° álbum de estúdio da rainha do pop, então praticamente não teve nada além desse excepcional disco. (Foi também o feriado de 4 de julho nos Estados Unidos, mas podemos dizer que ninguém queria bater de frente com Madonna, tanto que teve alguns discos não tão interessantes que eu nem escutei). Como bom fã de Madonna, decidi estender o texto de “CONFESSIONS II” com mais algumas linhas e mais contexto da importância deste novo trabalho da artista. Também comentei sobre o disco novo de Steven Hall/Nirosta Steel e seu “My Skyscraper”, que também me arrebatou no seu lançamento na última segunda-feira, 29. Singles: Liniker, Beyoncé e PJ Harvey (esta última que eu esqueci de comentar na Ruído #47). Além disso, duas recomendações de divas da música brasileira. Ficou curioso? Leia os textos abaixo e uma ótima semana!

Madonna revela data de lançamento de 'Confessions II' após mistério nas  redes sociais | Gshow
Dance-Pop, House

“A pista de dança não é somente um lugar, é um portal; um espaço ritualistico em que movimentos substituem linguagens”. Madonna, em “One Step Away”, resume perfeitamente sua relação com a dance music e quão importante é fazer uma continuação de “Confessions on a Dance Floor” de 2005, junto do produtor Stuart Price. Resumidamente, é um trabalho mais ambicioso que o disco de 21 anos atrás, em que se aventura mais por meio dos trances, das viradas da house music em um álbum que não soa como nada que está presente no pop dançante de 2026, 2025, ou até mesmo dos anos 2000, 1990, 1980… Acredito que isso seja o mais impactante e interessante em um trabalho importante da Madonna é como a poeira do tempo não é algo existente. “Confessions on a Dance Floor” (com o revival disco apelidado de nu-disco), “Erotica” (com o new jack swing e o r&b britânico), “Ray of Light” (trip hop e trance pop) e até mesmo sua estreia com “Madonna” de 1983 (synthpop e freestyle), são discos que conversam com o que acontecia em suas épocas mas que podem marcar outros tempos sem o menor problema. Isso se perdeu com álbuns lançados durante os anos 2010, em que Madonna — acredita-se com pressões de seu contrato com a Live Nation e Interscope — parecia pressionada à fazer o que estava em voga na música eletrônica, no pop, r&b, e até mesmo no hip hop em cada momento. “Madame X”, mesmo sendo o mais ambicioso da trinca de “MDNA” e “Rebel Heart”, é um dos mais insuportáveis de se escutar atualmente pelo excesso de trap, vocais com grills nos dentes de Madonna e combinações insalúbres com música latina, afro-portuguesa e o pop do Major Lazer/Diplo. “CONFESSIONS II” é quase um alívio por ter, em grande parte das composições e arranjos, créditos principais somente à rainha do pop e Stuart Price — com algumas participações pontuais de artistas como Arca, Martin Garrix, Sabrina Carpenter, Feid, Stromae, Lola Leon. Isso cria uma consistência neste álbum que não se vê na Madonna há mais de duas décadas e a artista demonstra vigor e garra que exemplificam o por quê dela ser eterna. “A gente tem a sorte de viver na mesma era do que ela”, disse Fernanda Young uma vez durante um Saia Justa dos anos 2000 e é verdade. — ★★★★½

Post-Punk?

Steven Hall era uma figura desconhecida para mim até o início da última semana. Na segunda-feira, ele lança um curioso álbum de uma hora e vinte minutos de duração com músicas que tiveram início de sua composição há mais de 40 anos. Um grande detalhe de um de seus colaboradores é o que mais chama a atenção: Arthur Russell, célebre artista underground, com quem Hall trabalhou até sua morte em decorrência de complicações de HIV/AIDS. Parte de sua carreira é dedicada à memória de Russell e “My Skyscraper” é um ponto alto disso. Russell aparece como baterista e programador em algumas das canções, mas o disco não se resume somente a presença do renomado artista. Hall também fala sobre suas experiências no leste asiático — em Taiwan, ele lançou o álbum ao vivo “Cool Fire”, o primeiro disco abertamente queer a ser comercializado na China; além disso, ele trabalhou com bandas de pop chinês com at17. É quase uma biografia desse artista fascinante que sempre esteve por trás das cortinas ou em lugares menores e finalmente recebe seu holofote. — ★★★★½

Imagem
R&B

Beyoncé, outra rainha, lançou na manhã de sábado, 4 de julho, um “novo” single. “Morning Dew (Donk)” é uma canção gravada junto de Pharrel Williams durante a produção do “Beyoncé” de 2013 — época ilustrada na imagem de capa — e que foi finalizada recentemente — acredito que a bridge seja uma nova adição, levando em conta a diferença do timbre da voz da Bey. A fonte da capa é do “Renaissance” e a música é um lançamento especial em comemoração do aniversário de 20 anos do “B’Day”. Apesar dessa confusão, a faixa é um r&b suave, sexy e gostoso de escutar. — ★★★★½

Capa do single 'Melhor notícia', de Liniker — Foto: Karolina Wielocha / Divulgação
Soul, Rock

Liniker retorna às origens do soul rock de seus trabalhos com os Caramelows em “Melhor Notícia”. Esse single foi lançado na véspera de seu aniversário de 31 anos e é como um encerramento da sua era “Caju”, álbum que a consagrou como estrela do pop nacional. Ou, então, um novo começo e o que pode ser um novo disco que a artista deixa de lado a MPB e a fusão entre o pop e o r&b brazuca para a sonoridade de uma banda. Só tenho certeza que “Melhor Notícia” é uma baita canção romântica e apaixonada de uma das maiores vozes do Brasil atualmente. — ★★★★

Ambient Pop

(Esqueci completamente de comentar essa na semana passada, mas vamos lá) PJ Harvey retorna com uma impressionante nova faixa que anuncia uma virada em sua arte. “Voyager” é, na verdade, um single que serve de trilha para uma turnê científica do físico Brian Cox, mas que vai muito além disso. A canção tem como eu lírico a Voyager 2, uma sonda que está no espaço desde 1977. Essa temática científica não é somente o que impulsionou Harvey a escrever esta belíssima letra; “Voyager” fala sobre a nova microscópica presença do universo e a solidão de apenas ser um grão de areia ou um pontinho azul de luz. — ★★★★½

Feijão Com Arroz - Daniela Mercury | Deezer
Axé, Samba-Reggae

Eu acreditava que esse disco foi lançado em julho de 1996 mas, na verdade, é de setembro do mesmo ano… Mesmo assim eu quero comentar sobre a rainha do axé, Daniela Mercury, que foi anunciada como uma das vencedoras do Grammy Latino de excelência ao conjunto da obra. Uma artista que sempre lutou pela valorização da música baiana e brasileira e que sempre utilizou de seu privilégio enquanto artista branca para a propagação da arte afro-brasileira além do Brasil — ilustrada perfeitamente na capa, em que Daniela está abraçada a um modelo negro. “Feijão com Arroz” é seu trabalho mais fantástico após o amadurecimento do samba-reggae de seus três primeiros trabalhos solo. Nele, consiste clássicos como sua versão (e definitiva) de “À primeira vista” do Chico César, “Feijão de Corda”, “Rapunzel”, “Vai chover”… Há, além de hits, uma maior complexidade nos arranjos detalhados como o sintetizador de “Rapunzel” que vagamente não é possível ouvir sem atenção. Isso aumentou o prestígio da artista, que continuou explorando outras texturas como a música eletrônica em “Sou de qualquer lugar” e (o meu favorito) “Carnaval Eletrônico”.

Neguinha Te Amo - Daude | Deezer
Acid Jazz, Downtempo

Muita gente foi descobrir quem era a cantora carioca Daúde no final do ano passado com seu álbum colaborativo, “Pelos olhos do mar”, em parceria com Lia de Itamaracá e lançado pelo Selo Sesc. Eu incluso, pois recentemente fui atrás de sua discografia — metade dela longe das plataformas de streaming. Encontrei seu primeiro álbum em um garimpo na Feira da Praça XV e fiquei encantado com sua versão de “Chove Chuva” de Jorge Ben Jor. Mas o grande disco de sua carreira é “Neguinha te amo”, lançado pelo selo de world music de Peter Gabriel na Europa e, no Brasil. O excelente trabalho que vai do acid jazz ao UK Garage é produzido em conjunto com o britânico Will Mowat e traz, em seu repertório, letras de Jorge Ben, Baden e Vinicius e Paulinho Moska.

Vinicius Corrêa tem 25 anos, é repórter de música, crítico musical e colunista da Agência UVA. Tem gosto eclético e variado, e está sempre disposto a descobrir artistas, bandas e estilos diferentes. Nas horas vagas, gosta de comprar discos e CDs e preparar listas específicas de discos.

Nenhuma publicação

Read the original on ruidocinza.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.