Em conversa densa e ao mesmo tempo descontraída, a escritora e roteirista Eliana Alves Cruz desvenda o processo de criação do romance Meridiana, em que narra as tensões raciais e classistas por trás do mito da mobilidade social brasileira. Retratos de Marta Azevedo. Três perguntas:
Tem uma coisa que quero resgatar: nosso sentido de coletividade. As pessoas têm uma noção errada da coletividade. Não é se apagar e se anular em prol de causas maiores. É mostrar como se potencializa a individualidade. Quando as pessoas se isolam, sofrem tremendamente, muita coisa ruim acontece. Quando falo em rede de apoio, não significa que você precise se anular, vender tudo e dar para os pobres, e sim se nutrir no coletivo. A gente é um empreendimento de sangue que está em curso. E a gente perde muito tempo com distração! A dinâmica das redes sociais favorece esse excesso de distração, cria uns casos enormes de pessoas que ficam discutindo o sexo dos anjos por dias e dias. E o couro tá comendo...
É um jeito de você esquecer o foco do que é essencial. Estou tomando providências em encontrar as pessoas presencialmente, quero fazer um clube de leitura, tudo presencial, nada online. Também escrevo no Instagram, mas não fico postando alucinadamente. A gente precisa resgatar conviver com as pessoas, fazer um detox do capitalismo.
Frequento um centro da minha família, um centro de umbanda maravilhoso. São tantas lições de sabedoria que recebo ali! Quando o bicho está pegando, é para lá que eu vou. Sou uma mulher de axé, e vejo sinais nas coisas. A vida fala com a gente, a gente é que passa batido e não enxerga os sinais. Procuro dar atenção, não tratar com negligência o que sinto. Durante muito tempo não dei atenção à minha intuição, e só me ferrei. A espiritualidade de matriz africana é muito sofisticada e gentil: se você não quiser isso na sua vida, não vai ter forçação de barra nenhuma, tá tudo certo. Mas se dá um passo em direção a uma entidade, ela dá um passo duplo na sua direção. É aquilo: responsabilidade e livre-arbítrio. Você está em busca de alguma coisa... se não quer, tá tudo certo. Proselitismo me incomoda muito. Assim como régua moral. Na vida, as coisas vão e voltam, tudo tem consequências. Quando comecei a escrever, fui no terreiro e aí uma entidade, um Exu, falou: “Não é um livro só, são vários. Você vai escrever sobre mim?”. Perguntei: “Como vou escrever sobre o senhor?”. Ele falou: “Bota um sinal, uma âncora. Quando aparecer uma âncora, vou saber que você está falando sobre mim”. Aí escrevi O Crime do Cais do Valongo, um livro sobre marinheiros. É muito bonita essa interação. Nada termina aqui, há todo um universo do desconhecido. A Miriam Alves fala: “O que para muitos é realismo fantástico, para nós é só realismo”.
É de risadas que eles são feitos, de risadas, do momento real vivido, e de frases que se sobrepõem formando um ruído profundo, aquático, contagioso. Uma onda forte que assusta quem passa. As alças dos chinelos presas nos braços para deixar os pés livres na areia. O grupo segue, eles olham a água que avança e recua brilhando em fragmentos de pequenos cristais, moedinhas jogadas aos milhares em uma fonte. Passam por um homem e seu molinete, sisudo compenetrado, um homem e seu molinete. Sargaços, muitos sargaços, uma aparência de longa cabeleira verde, pastosa e com pequenos frutos. Um grande monstro marinho que é a praia, a pulsação do monstro acelera quando os meninos passam pelo posto de salva-vidas abandonado.
Uma torre de concreto com aparência de foguete ou silo. Passam por um homem que trota de tênis e sunga laranja em uma velocidade tão lenta que gera uma onda de novas risadas. Ultrapassam o vendedor de amendoim com um cabo de vassoura apoiado no ombro e de onde pendem os saquinhos transparentes. O homem do queijo, sacerdotal, incensa o ar e afasta nuvens.
Multidões de pombos brigam por uma casca mínima de cajá. Os meninos chegam na calçada, deixam para trás a praia e o muro carcomido de pedra e sacos de areia. Os corpos salpicados de areia branca.
Em diálogo com comovente conto de Bernardo Brayner, Victor Moriyama, fotógrafo do New York Times, flagra um esporte radical praticado na periferia de Olinda: o surf no busão.
Por falar em Pernambuco: a partir de um ensaio com imagens clássicas de Chico Science, clicado por Fred Jordão, figuras notórias do manguebit, como DJ Dolores, China e Lírio Ferreira – além da filha de Science, a cantora Louise –, imaginam o que o mangueboy faria se estivesse vivo, aos 60 anos.
1560, Veneza, Itália. Alheio ao mais grave fato político de sua época, Tiziano, o famoso pintor renascentista do Vêneto, lá perto dos seus 80 anos, mostra-se mais interessado nas alegorias do poder e da expansão imperial do que atento à violência do tráfico transatlântico e pinta, naquele ano, por encomenda do rei de Espanha, um sequestro local: o rapto de Europa por Zeus encarnado em touro.
2023, Krems, Áustria. O pintor carioca Matheus Abu está em residência artística perto de Viena. Num bate e volta a Veneza, ele vê, na Gallerie dell’Accademia, o Trasporto della Santa Casa di Loreto (1743), do barroco Giambattista Tiepolo. A tela, um clássico da espiritualidade veneziana, é marcada pela luminosidade, teatralidade e uma dramática composição aérea, com muitos anjos e querubins em júbilo no céu. A espiritualidade – não a europeia, mas a afro-atlântica – já era uma questão para o jovem artista carioca, que nos últimos anos mergulhara em pesquisas pictóricas com plantas mágicas brasileiras, como a espada-de-são -jorge e a comigo-ninguém-pode, e os símbolos adinkra – ideogramas do povo Akan, de Gana e Costa do Marfim, originados de provérbios.
Paula Alzugaray, crítica de arte e editora da revista Celeste, escreve um perfil intimista de Matheus Abu, jovem talento que pinta anjos e pássaros influenciado pelas cosmologias afro-atlânticas.
No meio do deserto da Arábia tem um oásis chamado AlUla, e no meio do oásis tem uma cidade antiga e deserta. Vários mundos se sobrepõem ao mesmo tempo em volta desse espaço formado por um labirinto de novecentas construções de tijolo e barro, em ruínas, edificadas a partir do século XII. O futuro se espalha em forma de turismo, o presente é servido em forma de um iced caramel macchiato em uma Starbucks na beira da estrada e a tradição é respeitada. Os visitantes são os únicos a vestir roupas coloridas.
Aproveitando a sorte que lhe é peculiar, o fotógrafo e ensaísta J.R. Duran pegou uma janela de oportunidade no espaço aéreo ainda aberto do Oriente Médio para desvendar a misteriosa AlUla, cidade-oásis na Arábia Saudita que abriga um dos espaços artísticos mais exclusivos do planeta.
Especialista em editoriais de moda, a fotógrafa Alessandra Levtchenko brinca com maquiagem e desmaquiagem em ensaio que conversa com a poesia de Flora Lahuerta.
Um trecho da primeira biografia de João Guimarães Rosa, escrita pelo premiado jornalista Leonencio Nossa, além de ficções inéditas de Thiago Camelo e Alexandre Arbex.
A fotógrafa Luiza Sigulem investiga cenas famosas do cinema em que mulheres caem.
Versos da lenda viva Glauco Mattoso (acima), da emergente Lia Petrelli e da lírica erótica de Flora Lahuerta.
Yo agradezco. Dicen que canto como un mongólico. Yo agradezco. Dicen que my music es uma buesta. Yo agradezco. Dicen que simplesmente non sei cantar. Yo agradezco. Dicen que soy gostosso. Yo agradezco. El Imperio se cae en pedazos. Yo agradezco. Los pigs pedófilos, los grandes supremacistas, los donos del dólar, los cabrones que mandan nel mondo, están así meio desesperados. Yo agradezco. Tenemos mambo, wawanko, samba, rumba, salsa, reguetón, estrela nel alma, estrela en las caderas, estrela na cabezita del porongo, nossas riquezas. Yo agradezco. Acabo de venir de un finde fuckmother en una hermosa fiesta en San Paulandia. Como non agradecer? Hay mucha vitalidade cultural, política, simbólica, fuera del Imperio. Yo agradezco. Nostro calor humano vai quebrar el gelo de los korazones. Yo agradezco. Los pigs pedófilos tienen bombas para destruir el mundo for ever. Nosotros tenemos apenas ritmos selvagens. Yo agradezco.
Criador do movimento portuñol selbaje, Douglas Diegues psicografa a mente do superastro latino Bad Bunny, retratado por Eduardo Kerges.
HQs e cartuns novíssimos de Robert Crumb & Aline Kaminsky-Crumb, Laerte, Arnaldo Branco, Allan Sieber, Cris Vector, Eduardo Arruda, Ricardo Coimbra, Paulo Ciência, Manu Cunhas e Pedro Vinício.
Morel é uma revista quase secreta. Quase porque além da pirateada aqui e ali no Instagram, a única forma de você acessar estas 104 páginas impressas maravilhosamente em tiragem limitada sob demanda - em Masterblank 270g, Munken Lynx Rough 120g e Pólen Bold 80g, processo digital Indigo 10.0000 - é comprando direto no site da Ipsis, mais sofisticada gráfica do país. Morel não vende em banca nem em livraria. Aqui você compra o exemplar avulso e aqui você garante sua assinatura. Felicidade se acha é em horinhas de descuido enquanto se folheia uma revista de verdade - com o cheiro, a textura, a materialidade, o tempo e as cores que só existem no papel.
Quer praticar a crônica, o conto, o microconto, acessando zilhões de técnicas e referências? Uma turma presencial do Submarino, minha oficina de ficções breves, vai rolar nos dias 13 e 27 de abril, 4, 11 e 18 de maio. Será na Casa Reformatório, em Perdizes, São Paulo. Ainda tem vagas. Inscrições aqui. Dúvidas, questões, sugestões, escreva para ronaldobressane@gmail.com ou acesse meu site. Não sei quando vou começar outra… então bora!
Gracias pela leitura,
abraços,
Ronaldo Bressane

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